Si Nosso Senhor te concede o desejo da perfeição é um signal de que te chama á verdadeira felicidade. Deus tem sempre em vista em todas as suas acções o nosso maior bem. Poderemos achar um amigo que nos ame mais que nosso Deus? «Elle não quer que alguém se perca, mas que todos façam penitencia» (II Ped. 3. 9) para que todos se salvem, pois esta é a vontade de Deus, vossa santificação» (T/iess. 4. 3). Deus faz consistir sua honra em nos fazer felizes, já que bondade é a sua natuFeza, na expressão de S. Leão. Ora, como á essencia da bondade é proprio o communicar-se, tem Deus um desejo infinito de fazer as almas participantes de sua bondade e bemaventurança. Sendo elle infinitamente feliz e a perfei ção mesma, quanto mais intimamente uma alma se unir a elle, tanto mais perfeita e feliz se tornará. A perfeição tornal-a-á feliz na vida, na morte e sobretudo na eternidade.
I – A perfeição nos torna verdadeiramente felizes na vida
Como já vimos, a perfeição consiste na conformidade da nossa vontade com a vontade de Deus; nessa conformidade baseia-se também nossa felicidade, emquanto se póde falar de felicidade neste válle de lagrimas. Perguntado uma vez Affonso o Grande, rei de Aragão, qual o homem que julgava mais feliz, respondeu: O que se atém á vontade de Deus recebe tudo, quer agradavel, quer desagradavel, como um presente de sua mão. «Para os que amam a Deus todas as coisas concorrem para o bem» (Rom. 8. 28). Os que amam a Deus estão sempre’ contentes, porque sentem prazer em executar a vontade de Deus mesmo em coisas que os contrariam. Até os soffrimentos offerecem-lhes motivo de alegria, porque sabem que agradam a seu Senhor, supportando-os pacientemente. Nada, pois, impede-lhes a felicidade. «Nada contristará o justo, aconteça o que acontecer» (Prov. 12. 21).Poderia haver maior felicidade para nós que ver realizados todos os nossos desejos? Ora, quem quer só o que Deus quer, vê a realização de todos os seus desejos, visto que tudo o que acontece é por vontade de Deus. Lê-se da vida dos Padres do deserto que o campo de um pobre aldeão frutificava mais que o do seu vizinho. Perguntado pela causa, respondeu que era porque tinha sempre o tempo que precisava. Mas como é isso possivel? Porque nunca desejo outro tempo que o que Deus ms envia e porque desejo só o que Deus deseja, concede-me elle sempre os fructos que desejo.
Quando as almas que amam a Deus são humilhadas, recebem ellas o que desejam, diz Salviano; quando são pobres, amam a pobreza e assim se contentam com tudo o que lhes sobrevêm e isso torna-as felizes. Quando faz frio ou calor, quando chove ou venta, diz o que se conforma com a vontade de Deus: estou satisfeito com esse tempo porque Deus assim o quer. Visita-o a pobreza, a perseguição, a doença, a morte mesmo, elle se contenta com a vontade de Deus. Deseja ser pobre, perseguido e mesmo morrer, diz elle, porque Deus assim o determinou. Esta é a santa liberdade de que gozam os filhos de Deus e a qual mais apreciam do que todos os impérios e reinos deste mundo; esta é a paz bemaventurada que é a prerogativa das almas puras e que «excede todo o entendimento» (Phil. 4. 7). Esta divina paz bemmerece ser preferida a todas as festas, aos esplendidos banquetes, ás honras e alegrias terrestres detoda a especie; ella supera immensamente todasaquellas satisfações que por momentos lisonjeiamos sentidos, mas que affligem o espirito por serem vãs e passageiras e não trazerem verdadeirocontentamento. Amargamente desilludido confessoupor isso Salomão, (Eccl. 4. 16), depois de ter gozado de todas as alegrias terrenas, que só tinhaachado nellas vaidade e afflicção de espirito. «Umhomem santo permanece em sua sabedoria, comoo sol; um estulto, porém, muda-se como a lua»(Eccl. 27. 12). O estulto, isto é, o peccador, é mutável como a lua, que ora cresce, ora decresce:hoje ri, amanhã chora; agora mostra grande mansidão, logo depois está furioso como um tigre.E por que tudo isto? Só porque seu humor depende de seu bem ou mal estar. O justo, pelo contrario, permanece immutavel como o sol, aconteça o que acontecer, porque acha o seu contentamento em se acommodar em tudo com a vontadede Deus; dahi provém aquella paz inalterável queé sua partilha. «Paz na terra aos homens de bôavontade» (Luc. 2. 4) ouviram os pastores os anjoscantar. Quaes são esses homens de bôa vontadesinão aquelles que em tudo se conformam com avontade de Deus? (Rom. 12. 2). «A vontade deDeus é bôa, agradavel e perfeita», pois Deus sóquer o que é melhor e mais perfeito.
Os santos, conformando-se com a vontade de Deus já na terra, começaram a participar da felidade celestial. Segundo S. Dositheu, os padres do deserto gozavam de uma grande paz interior porque consideravam como vindas das mãos de Deus todas as coisas que lhes succediam. Sta. Maria Magdalena de Pazzi bastava ouvir a palavra «vontade de Deus» para entrar logo em extase, tão grande era alegria que delia se apossava. E’ verdade que a virtude não nos torna insensíveis e que as contrariedades occasionam sempre certa apprehensão, mas isto só se dá na parte inferior da alma, ao passo que na superior reina a paz e tranquillidade, comtarito que nossa vontade se conforme com a de Deus. «Ninguém vos roubará vossa alegria» (Joa. 16. 22), disse o Salvador a seus apostolos, e ainda: «Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa» (Joa. 16. 24). Aquelle que sempre visa executar a vontade de Deus goza de uma felicidade completa e constante, porque possuirá tudo o que deseja e porque ninguém lh’a poderá roubar, visto que ninguém póde impedir que se realize a vontade de Deus.
Quão grande é a loucura daquelles que não querem submetter-se á vontade de Deus! Não padecerão menos por isso, já que ninguém póde frustrar os desígnios de Deus. «Quem poderá resistir á sua vontade?» (Rom. 9. Í9). Si Deus nos envia tribulações é em vista de um bem superior e porque isso é melhor para nós. «Para os qüe amam a Deus todas as coisas cooperam para o bem» (Rom. 8. 28). A virtuosa Judith nos attesta que o Senhor não nos castiga com a intenção de nos perder, mas de nos corrigir e tornar felizes. «Devemos pensar… que os flagellos do Senhor devem servir para a correcção e não para a punição» (Jud. 8. 27). Para nos preservar das penas eternas protege-nos Deus com sua bôa vontade como com um escudo. «Senhor, coroaste-nos com o escudo de vossa bôa vontade» (Ps. 5. 13). Deus não só mostra desejo de nossa salvação, mas também cuida seriamente disso. «O Senhor é solicito por mim» (Ps. 39. 18). O. que nos poderá negar esse Deus que nos deu seu Filho unigenito? pergunta S.- Paulo. «Aquelle que não perdoou a seu proprio Filho, mas entregou-o por nós todos, como não nos havia de darcom elle todas as coisas?» (Rom. 8. 32).
Com que confiança, pois, não nos devemos pôr á disposição da divina providencia,, visto que todas as suas determinações visam o nosso bem. Digamos, portanto, em tudo o que nos acontecer: «Dormirei e descansarei em paz, porque vós, Senhor, me confirmastes de um modo singular na esperança» (Ps. 4. 9). Entreguemo-nos em seus braços: elle cuidará carinhosamente de nós. «Lan- çae nelle toda a vossa solicitude, porque elle cuida de vós» (I Ped. 5. 7). Pensemos sómente em Deus e no cumprimento de sua vontade, que elle pensará em nós e cuidará de nosso bem. «Minha filha, pensa sempre em mim, que eu pensarei sem cessar em ti», disse um dia o Senhor a Sta. Catharina de Senna. Digamos muitas vezes com a Esposa dos Cânticos: «Meu Bem Amado é meu e eu sou delle» (Caav. 2. 6). Meu Bem Amado occupa-se de meu bem estar e eu quero occupar-me em agradal-o e em conformar-me em tudo com sua santa vontade. «Não devemos pedir a Deus que elle faça a nossa vontade, mas que elle nos conceda a graça de fazer o que elle deseja», diz S. Nilo abbade. Si nos acontecer alguma coisa incommoda, recebamol-a das mãos de Deus não só com paciência mas mesmo com alegria, seguindo o exemplo dos Apostolos, que se. julgavam felizes quando padeciam pelo nome de Jesus.
POderá uma alma sentir maior felicidade que sóffrendo alguma pena? Não é certo que àcceitando-â resignada causará grande alegria a Nosso Senhor? Está fóra de toda a duvida que Deus satisfaz-se com o desejo de padecermos por amor delle; segundo os mestres da vida espiritual, porém, elle dá a preferencia áquelles que não desejam-nem ale;- gria nem soffrimento, mas que se entregam inteiramente á sua divina vontade, não desejando outra coisa que pratical-a em todos os seus actos.
Si desejas, portanto, alma christã, agradar verdadeiramente a Deus e gozar de uma vida feliz, permanece então sempre e em tudo unida á sua santa vontade. Pondera que todos os teus peccados de tua vida passada provinham unicamente de te haveres desviado da vontade de Deus. Procura do.a avante exclusivamente o beneplácito do Senhor e repete, toda a vez que te succeder algum mal: «Assim se faça, ó Pai, porque foi de teu agrado» (Matth. 11. 26).
II – A perfeição nos torna felizes na morte
«As almas dos justos estão nas mãos de Deus e não as altingirá o tormento da morte; aos olhos dos ignorantes parecerão mortos, e sua morte será considerada uma afflicção… elles, porém, estarão em paz» (Sab. 3. 1). Os mundanos estultos julgam que os servos de Deus morrem tristes e descontentes, como elles, mas enganam-se. Deus sabe consolar seus filhos na ultima hora e fal-os provar nas angustias da morte certa delicia, que é um antegosto do paraíso. Como os que morrem no peccado, já em seu leito de morte soffrem penas infernaes, remorsos, temor e desespero, assim os santos, já antes da morte, começam a gozar daquella paz, que será sua partilha na eternidade, por meio de repetidos actos de amor e pelo desejo e esperança da breve posse de Deus. Para- os san1- tos é a morte antes uma recompensa -que um castigo. «Quando’der o somno aos seus bem amados, terão herança, do Senhor» (Ps. 126. 2). O fim daquelle que ama a Deus é chamado somno e não morte e um tal póde dizer em verdade; «Dormirei e descansarei em paz nelle mesmo» (Ps.4. 6).
O P. Suárez experimentou uma tal paz e socego na sua ultima hora que exclamou, ao morrer: «Nunca pensei que o morrer fosse tão doce». Recommendando o medico ao cardeal Baronio que não pensasse tanto na morte, respondeu-lhe: «Por que não? Julga que eu a.temo? não, eu amo-a e não a temo». Quando o cardeal Fisher caminhava para o patíbulo, onde devia morrer pela fé, revestiu-se com as suas melhores vestes, dizendo que ia para as bodas. Ao avistar o instrumento de sua morte, atirou fóra seu bastão, exclamando: «Andae ligeiro, pés meus, andae ligeiro, pois já não distamos muito do céu». Entoou em seguida o TcDeum em agradecimento do martyrio e cheio de alegria entregou sua cabeça á espada do carrasco.
O que mais consola uma alma que ama a Deus ao se lhe annunciar sua morte, é o pensamento de que em breve estará livre de tantos perigos de offender a Deus, de tantas inquietações de consciência, de tantas tentações do demonio. A vida presente é uma guerra continua com o inferno, na qual corremos» a cada instante, o perigo de perder a Deus e a nossa alma. Sto. Ambrosio diz que na terra só caminhamos sobre ciladas armadas por nossos inimigos afim de nos roubarem a graça divina. Este pensamento levou S. Pedro d’Alcantara a exclamar, na hora da morte, ao tocal-o um irmão: «Afasta-te, afasta-te, irmão, ainda estou vivo e portanto em perigo de perder a Deus». Sta. Teresa sentia-se consolada todas as vezes que ouvia o relogio dar horas, visto haver passado mais uma hora de combate. Por esse mesmo motivo alegravam-se os santos á noticia de sua morte próxima: nisso viam o fim de suas provações e perigos e o momento feliz da certeza de nunca mais perderem a Deus. «Alegrae-vos commigo, dizia ao morrer Sta. Catharina de Senna, alegrae-vos commigo por deixar esta terra de tributações e dirigir-me á patria da paz». Com que ansia não deseja unia pessoa retirar-se de uma casa, cujas paredes ameaçam desabar, diz S. Cypriano. Pois bem, aqui neste mundo uma desgraça horrivel ameaça de todas as partes a nossa alma: o mundo, o inferno, as paixões, nossos sentidos revoltosos, tudo nos quer induzir ao peccado e lançar-nos na morte eterna. «Quem me livrará deste corpo de morte?» (Rom. 7. 24) exclama o Apostolo. Que alegria, portanto, não sentirá a alma ao ouvir estas palavras : «Vem do Libano, minha esposa… vem do covil dos leões. Vem, que serás coroada» (Cant. 4. 8).. Vem, minha esposa, deixa esse valle de lagrimas, vem desse antro de leões que procuram engulir-te e roubar-te a minha graça.
E’ para a alma um grande favor chamal-a Deus a si quando se encontra em estado de graça, tirando-a deste mundo onde poderia mudar de sentimentos e perder a amizade divina. Todo aquelle que aqui vive em união com Deus é feliz. Mas como um navio, na expressão de Sto. Ambrosio, só se póde ter por seguro quando entrado no porto e escapo á tempestade, assim também uma alma só então se poderá julgar inteiramente feliz quando deixar esta vida em estado de graça. Si o navegante julga-se feliz ao chegar ao termo de sua viagem, depois de superar grandes perigos, quanto mais feliz julgar-se-á aquelle que dentro em pouco se verá seguro, na posse de sua eterna felicidade.
Os justos se regosijam com sua morte, porque ella é o fim de seu desterro. Segundo a expressão de S. Bernardo, é a morte a porta da vida. «Devese passar necessariamente por esta porta para se chegar á patria da visão beatifica. «Esta é a porta do Senhor; os juslos entrarão por ella». (Ps. í 17.20). S; Jeronyrao se dirige á morte com as seguintes palavras: «Abre-me a porta, querida irmã, si não me abrires, não poderei passar e alegrar-me com a posse de meu Senhor». S. Carlos Borromeu, vendo em sua casa um quadro que representava a morte sob a figura de um esqueleto com a foice na mão, mandou chamar um pintor, incumbindo-o de pintar uma chave de ouro, em vez da foice, para despertar em si o desejo da morte, que nos abre o céu para a visão de Deus. Este pensamento levou S. Bruno a dizer que não se deveria dar á morte o nome de morte, mas principio de vida. Dahi se origina também o costume da Egreja de chamar dia de nascimento o dia da morte dos santos, visto terem elles nascido nesse dia para aquella feliz vida que jámais terá fim.
O que, porém, corôa a felicidade do justo moribundo é a circumstancia de sua breve entrada na posse do Senhor. Quanto não se alegrou o copeiro de Pharaó ao ouvir de José que seria brevemente posto em liberdade e reassumiría seu antigo posto! E uma alma que ama a Deus não deveria se alegrar, ao saber que dentro em breve será libertada das cadeias que a prendem á terra e entrará na posse de Deus! «Emquanto estamos no corpo somos peregrinos e ausentes do Senhor» (II Cor. 5. 6). Emquanto estamos presos ao corpo, achamo-nos longe da visão de Deus e como fóra de nossa patria, em um paiz estranho. S. Francisco de Assis, pouco antes da morte, começou a cantar e exhortou aos presentes a que o fizessem também. Pae, ao morrer deve-se chorar e não cantar, disselhe o irmão Elias. Eu, de minha parte, não posso fazer outra coisa sinão cantar, respondeu-ihe o santo, porque vejo que brevemente me acharei na posse do Senhor. Sta. Teresa vendo, no seu leito de morte, que uma de suas filhas chorava, disselhe: Vou entrar na posse de Jesus Christo, meu amor. Si na verdade me amaes,9 alegrae-vos O com-t migo. Narra o P. Luiz de Granada que um caçador encontrou um eremita coberto de lepra, ás portas da morte, mas que cantava alegremente. Como pódes cantar em tal estado? perguntou-lhe o caçador. Ora, meu irmão, entre mim e Deus achase sómente a frágil parede de meu corpo; vejo-a agora cahir e com ella minha prisão, devendo em breve participar da visão de Deus, e não hei dealegrar-me e cantar? Levado por essa saudade e desejo da visão beatifica, Sto. Ignacio Martyr affirmava que si os animaes ferozes se negassem a devoral-o, incital-os-ia a isso. Sta. Catharina de Gênova não supportava que se désse á morte o nome de desgraça, e dizia: «O’ morte querida, quão pouco te sabem apreciar. Por que não me visitas, suspirando eu por ti dia e noite?» Sta. Teresa desejava tão ardentemente morrer que quasi morria por não poder morrer. Da mesma maneira se exprimia S. Paulo, affirmando ser Christo sua vida e a morte um lucro, porque só ella podia fazel-o participante dessa sua vida: «Para mim o viver é Christo c o morrer um lucro» (Phil.. 1. 21).
E, de fado, que coisa poderia prejudicar na morte a felicidade do justo? Talvez a lembrança dos peccados commettidos? Não, porque mesmo quando, attribulado por uma tal recordação, não se inquieta, porque em seu arrependimento encontrará um penhor do.perdão, já que o Senhor prometteu esquecer para sempre todos os delictos do peccador penitente. S. Basilio, á pergunta: quando poderá um christão estar convencido que o Senhor lhe perdoou os peccados, responde: Quando elle puder dizer: eu odeio e detesto os meus peccados, pois todo’ aquelle que odeia o peccado póde ter certeza do perdão. O coração humano não póde viver sem amar: ou ama as creaturas ou a Deus. Ora, si já não ama as creaturas, ama necessariamente a Deus. Quem ama a Deus? O que guarda os seus mandamentos. «Aquelle que conhece os meus mandamentos c os guarda, esse é que me ama» (Joa. 14. 21). Quem, por conseguinte, morre na observância dos preceitos de Deus, morre nadilecção do Senhor, e nada tem a temer. «A perfeita caridade expelle o temor» (I Joa. 4. 18).
Mas nem as dôres e soffrimentos que precedem a morte impedirão a felicidade do justo? Nem ellas, já que não pódem roubar-lhe a paz. Os justos chegados ao termo da vida, não lhes restando mais tempo para soffrer por Deus e tcstcmunhar-lhe seu amor, recebem alegremente todas as dôres, offerecendo-as a Deus como ultima prova de seu amor; unem sua morte á de Jesus Christo e assim offerecem á Majestade divina o maior e mais agradavel sacrifício. Sto. Agostinho mui bellamente o diz: A morte que na lei natural era a pena do peccado, é na lei da graça um sacrifício expiatório, pelo qual podemos nos certificar da remissão de nossos peccados.
E o inferno não turbará essa feliz paz? Os poderes infernaes não deixarão de tentar e assaltar os santos na hora da morte, mas também Deus não deixará de assistir a seus servidores e prestar-lhes auxilio duplo nessa hora suprema. «Quanto maior fôr o perigo, tanto maior será o soccorro» diz Sto. Ambrosio (De Jos. pat. c. 5). Quando o servo de Eliseu viu cercada de inimigos a cidade em que se achava com o propheta, deixou-se levar por grande temor. O santo, porém, encorajou-o, dizendo-lhe: «Não temas, mais estão comnosco que com elles» (IV Reg. 6. 16). Mostrou-lhe então um exercito de anjos que Deus enviara para defendel-os. Não resta duvida: os demonios virão e tentarão o moribundo, mas também virá o anjo da guarda para fortalecel-o; virá a divina Mãe para expulsar os inimigos e tomar sob sua protecção seus servos fieis; virá em especial Jesus Christo para amparar sua ovelhinha remida com seu sangue. Elle infundirá no seu coração confiança e força, e assim animada e fortalecida, exclamará ella: «O Senhor tornou-se o meu auxiliador» (Ps. 29. 11). «O Seiihor é minha luz e minha salvação: quem temerei?» (Ps. 26. 1). Deus tem mais a peito a nossa salvação que o demonio a nossa perdição, pois maioj é o amor de Deus para comnosco que o odio do demonio contra nós, diz Origenes. «Deus é fiel e não permittirá que sejaes tentados acima de vossas forças», diz S. Paulo (1 Cor. 10. 13). Talvez me objecte alguém: Muitos santos, na hora da morte, sentiram grande temor a respeito de sua salvação. Respondo que só poucos exemplos ha de pessoas que morreram com esse temor depois de uma vida piedosa. Segundo Vicente de Beauvais, Deus assim procede com alguns para purifical-os ainda mais de alguma falta. ComTido, lê-se na vida de quasi todos os servos de Deus que elles morreram sorrindo.
III – A perfeição nos torna felizes na vida futura
Não ha duvida alguma que os santos, no paraíso, serão recompensados muito-acima dos seus merecimentos, segundo se lê em S. Lucas: (Luc. 6. 38): «Dar-se-vos-á uma bôa medida, bem cheia, recalcada e acogulada», e S. Paulo: «Tenho por certo que os soffrimentos da vida presente não têm proporção alguma com a alegria futura que se manifestará em nós» (Rom. 8. 18). Apesar disso os santos não participarão, em gráu igual, da visão beatifica, pois não tendo todos o mesmo gráu de santidade e méritos, não pódem ser recompensados igualmente. Esta verdade é confirmada pela sagrada Escriptura, na qual nos affirma o Salvador . que na. casa de seu Pae existem muitas moradas (Joa. 14.2). O mesmo nos diz S. Paulo r «Uma estrella differe da outra em claridade: o mesmo.se dá com a resurreição dos mortos» (l Côr. 15. 41) e em outro logar: «Cada um receberá sua recompensa segundo o seu trabalho» (I Cor. 3. 8). No mesmo gráu que uma alma ama a Deus aqui na terra o amará também no céu. Comtudo, existe uma dupla differença: na terra amamos com liberdade, no céu por necessidade; no céu, ainda que o amor em sua essencia seja o mesmo que na terra, será elle muito mais intensivo e perfeito que na vida presente. Esforcemo-nos, pois, em amar a Deus com todas as nossas forças e para isto excitemos em nós muitas vezes a caridade e conformemo-nos em tudo, mas em especial nas contrariedades da vida, com a ss. vontade de Deus. Trabalhemos também para inflammar os corações dos outros com este s. amor. Mais que tudo, porém, peçamos incessantemente ao Senhor que augmente em nós o seu amor, pois essa graça nos será negada si deixarmos de a pedir. Digamos por isso muitas vezes: O’ meu Deus, dae-me vosso amor e nada mais de vós desejo. Dae-mc vosso amor e em mim augmentae-o até o ultimo instante de minha vida. Fazei que eu vos ame aqui na terra cada vez mais, para vos amar então por toda a eternidade. O’ meu Jesus, attrahi-me inteiramente a vós, para que nada busque fóra de vós, nada deseje sinão a vós. O’ meu amado Salvador, fazei que eu pertença inteiramente a vós. Arrancae-me toda a inclinação que não se refira a vós. Concedei-me o dom de vosso puro amor, de um amor isento de todo o apego terreno. Prendei-me cada vez mais a vós com os laços de vosso santo amor.
Uma alma que aspira á perfeição deve fazer sacrifícios: deverá supportar toda a especie de afflicções, dôres e perseguições. Esses soffrimentos todos cessarão, porém, uma vez. «Vossa tristeza converíer-se-á em alegria» (Joa. 16. 20), diz Nosso Senhor. Essa alegria será tanto maior quanto maiores tiverem sido os soffrimentos. «Segundo a multidão de minhas dôres em méu coração, as tuas consolações alegraram a minha alma» (Ps. 93. 19). Oh que delicias gozarão as almas no paraíso! Segundo o testemunho de S. Paulo são ellas inenarráveis: «O olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem jámais experimentou o coração do homem o que preparou Deus áquelles que o amam» (! Cor.2. 9). Deverei dizer-vos alguma coisa do céu? pergunta S. Bernardo, e responde: Lá nada existeque desagrade, mas tudo que póde satisfazer.
Tendo a alma entrado na bemaventurança de Deus, nada mais encontrará que a desgoste, nada mais que a possa affligir. «E Deus enxugará todas as lagrimas de seus olhos e não haverá mais nem morte, nem luto, nem dôr alguma, porque as primeiras coisas passaram» (Apoc. 21. 4). No céu íião ha doença alguma, nem pobreza, nem adversidade de especie alguma. Lá não haverá mudança de dias e noites, de frio e calor; lá existirá uma primavera eterna e a todos os respeitos deliciosa. Não. haverá perseguição e inveja, já que ahi todos amar-se-ão ternamente; cada um se alegrará tanto com a felicidade do outro como com a própria. Lá não haverá mais temores, pois a alma confirmada em graça não poderá mais perder a Deus. «Eis- que faço novas todas as coisas». Tudo é novo, tudo nos alegra e satisfaz. Os olhos regosijar-se-ão com a vista dessa cidade de incomparavel belleza. Que admiração não se apoderaria de nós, si vis: semos uma cidade calçada de crystal, com palacios de pura prata forrados de ouro e ornados da maneira mais aprazível com jarros das mais exquisitas flores! Oh! quanto não fica acima disso a Jerusalém celeste. Que encanto vêr os habitantes do céu vestidos com pompa real, pois lá haverá tantos reis quantos os moradores, segundo Sto. Agostinho. Que delicia vêr a Ss. Virgem, mais bella que todo o céu. Que prazer então vêr o Cordeiro de Deus, Jesus, o esposo das almas. Sta. Teresa teve uma vez a dita de vêr uma mão do Salvador glorificado, sendo tão. grande sua belleza que a santa entrou em extase. Perfumes exquisitos e fragrancias paradisíacas nos deleitarão nos céus. Deliciarão nossos ouvidos harmonias sobrenaturaes. U;n anjo fez S. Francisco ouvir uma só melodia celeste, sentindo-se o santo desfallecer de gozo. Que será então quando se ouvir cantar 03 coros dos anjos e santos? Que será então ouvir a Ss. Virgem louvar a Deus? A voz de Maria 110 céu assemelhase á do rouxinol que sobrepuja á de todos os outros passaros, nota S. Francisco de Sales. Numa palavra: o paraiso é o complexo de todas as alegrias imagináveis.
E comtudo essas alegrias todas são os menores bens do céu. O que constitúe propriamente o céu é o summo Bem, é Deus. «Tudo o que esperamos está contido em duas syllabas, Deus», diz Sto. Agostinho (In /. Joa. X trat. 4). A recompensa que Deus promette não consiste propriamente em bellezas, harmonias e alegrias para os sentidos;a recompensa principal que nos espera é Deus mesmo; ella consiste, em especial, na visão e amor de Deus. «Eu sou tua recompensa excessivamente grande», disse Deus a Abrahão (Gen. 15. /). Si Deus se mostrasse aos condemnados, no mesmo instante o inferno tornar-se-ia um paraiso, diz Sto. Agostinho.
Tudo 0 que a alma vir em Deus causar-lhe-á grande alegria: comprehenderá quão justos foram seus juizos, quão sabia a directiva de sua Providencia que visava em tudo unicamente a honra, de Deus e a salvação das almas; conhecerá -.tudo o que lhe diz respeito, verá o amor jmmensò de’ Deus para comsigo, tornando-se homem por sua causa e sacrificando-se na cruz; perceberá o excesso de bondade, o mysterio da cruz, que levou o proprio Deus a fazer-se escravo e a deixar-se eondemnar como um malfeitor á morte da cruz; desvendará a immensidade do amor recôndita no mysterio da eucharistia, onde Deus torna-se o sustento de suas creaturas debaixo das especies sacramentaes; ser-lhe-ão apresentadas todas as gra ças e favores com que foi cumulada e que até então ignorava; ser-lhe-á desvendada a grandeza da misericórdia com que foi tratada pelo Senhor, já esperando sua conversão, já perdoando sua ingratidão; ser-lhe-á patenteado o numero das vezes que o Senhor a chamou e a esclareceu e sua liberalidade em prestar-lhe apoio; convencer-se-á de que as adversidades, doenças, perdas de bens e parentes, em vez de duras penas, foram amorosas admoestações do Senhor para induzil-a a amal-o perfeitamente. Numa palavra, tudo o que seus olhos virem a induzirá ao conhecimento da bondade infinita, de Deus e de sua infinita amabilidade.
O que faz, entretanto, a alma plenamente feliz no céu é a visão de Deus face a face. Com esta visão adquire um claro conhecimento da belleza infinita de Deus e de todas as suas pèrfeiçõcs que o tornam digno de um amor infinito. Assim não póde deixar de amal-o com todas as suas forças, amal-o incomparavelmente mais que a si mesmo, esquecendo-se de si e nada mais desejando que vêr feliz o seu Deus, o seu esposo muito amado. Sabendo que Deus, o unico objecto de todas as suas affeições, goza de uma felicidade immensa, essa felicidade de seu Deus constitúe seu paraíso e si ella fosse capaz de um acto infinito, sentiría com isso uma alegria infinita. Ora, como a creatura é incapaz de experimentar uma alegria infinita, isso bastará para satisfazel-a e contental-a de tal modo que nada mais deseja. Esta é aquella’ saciedade . por que suspira o Psalmista, quando diz: «Serei saciado quando apparecer a tua gloria» (Ps. 16. 15). Assim se realizam as palavras do Senhor: «Entra na alegria de teu Senhor» (Malth. 25. 21). Nosso Senhor não diz que a alegria deve entrar na alma, pois trala-se aqui de uma alegria infinita, de- que uma creatura é incapaz; mas’sim que a alma deve entrar na alegria de seu Deus para delia participar e de um modo tão abundante que se torna inteiramente cheia dessa alegria. Donde se ideduz que o acto de amor perfeito na oração consiste em nos alegrarmos com a bemaventurança infinita de Deus. Ora, sendo esta a occupação constante dos santos no céu, uma alma que muitas vezes produz actos de tal amor,começa aqui na terra a fazer o que praticará por todo o sempre lá no céu.
O amor em que se abrasam os santos no céu é tão grande que, si pudessem temer perder a Deus ou não poder amal-o com todas as forças, o céu se lhes transformaria num inferno intolerável. Isso, porém, não se póde dar, pois têm tanta certeza de amarem a Deus com todas as suas forças e de serem amados por elle para todo o sempre, como da immutabilidade e indefectibilidade de Deus. Por maiores e mais duráveis que sejam as alegrias desta terra, causam sempre enfado quando se protráem por muito tempo; as alegrias celestes, porém, tanto mais apreciadas serão quanto mais forem gozadas e assim os santos sempre as apetecerão e sempre as gozarão, ainda que estejam sempre saciados com sua posse. O doce canto com que os santos louvam e agradecem a Deus é chamado um novo canto: «Cantae ao Senhor um novo cântico» (Ps. 27. .1), e a razão é porque asdelicias do céu parecem tão novas como quando se entra na sua posse.
Com toda a razão, diz por isso Sto. Agostinho que se requerería um trabalho infinito si se tivesse de merecer, no sentido restricto da palavra, esta felicidade. Relativamente pouco fizeram os eremitas com todas as suas penitencias e orações para merecerem as alegrias celestiaes, assim como tantos santos deixando suas familias, suas riquezas, e mesmo um throno, tantos martyres soffrendo os horrores, do cavallete, as couraças candentes e outras especies de tormentos.
Procuremos nós ao menos supportar com resignação os padecimentos que Deus nos enviar, pois ao entrarmos no céu transformar-se-ão elles em outras tantas alegrias infinitas. Si nos sobrevierem doenças, dôres ou outras adversidades, levantemos os olhos para o céu e digamos: Todos estes soffrimentos terão seu termo e espero vêr a Deus e gozal-o eternamente. Animemo-nos a supportar todos os padecimentos deste mundo. Feliz daquelle que, á hora da morte, puder dizer com Sta. Agatha: «Senhor, recebei minha alma, vós que tirastes de meu coração o amor ao mundo e nelle implantastes o vosso santo amor». Supportemos todas as cruzes e tenhamos em pouco tudo o que é transitório. Jesus nos espera com a coroa na mão para fazer-nos príncipes da côrte celeste si lhe permanecermos fieis.
Fonte: Escola de Pefeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931
Nota: Mantivemos o mesmo estilo e ortografia originais do livro.

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