Essência da Perfeição

16–24 minutos

I – A perfeição consite no amor de Deus

Toda a santidade, toda a perfeição de nossa alma consiste em amar a Jesus Christo nosso Deus, nosso summo Bem e Salvador. «Aquelle que me ama será amado por meu Pae… pois o Pae mesmo vos ama, porque vós me amastes», diz Jesus Christo» (Joa. 14. 21 e 16. 27). Como nota S. Francisco de Sales, uns fazem consistir a perfei­ção em obras de mortificação, outros na oração, estes na recepção frequente dos s. sacramentos, aquelles no dar esmolas; todos esses, porém, se enganam: toda a nossa perfeição consiste no amar a Deus de todo o nosso coração. Essa é a razão por que o Apostolo recommenda de modo especial a caridade e a denomina vinculo da perfeição: «Acima de tudo, porém, tende caridade, que é o vinculo da perfeição» (Col. 3. 14); pois a caridade abrange e sustém todas as outras virtudes que aperfeiçoam o homem. E’ esse igualmente o motivo da sentença de Sto. Agostinho: «Ama a Deus e faze o que te aprouver» (In epist. ad Partli. c. 7, n. 8), pois desde que uma alma ama a Deus, levada por esse amor, evitará tudo o que desagradar e fará tudo o que satisfizer a esse amavel Salvador.

«A caridade é um grande e precioso bem» diz S. Bernardo (In Caní. 3. 8). Salomão, por sua vez, chama a sabedoria celeste — que nada mais é sinão a virtude do amor de Deus — um thesouro inesgotável, que faz participante da amizade de Deus quem possúe o amor de Deus. «Ella é um thesouro inexhaurivel para os homens; aquelles que a gostam tornam-se participes da amizade de Deus» (Sab. 7. 14). A caridade para com Deus, segundo Sto. Thomaz, é a rainha das virtudes; onde ella impera, reinam também todas as outras virtudes, que, por assim dizer, formam o seu cortejo, e das quaes ella se serve para nos unir mais intimamente com Deus. A união formal, porém, de nossa alma com Deus, é operada pela própria caridade, segundo as palavras de S. Bernardo: «A caridade é uma virtude que une o homem a Deus».

Repetidas vezes attesta a s. Escriptura que Deus ama aquelles que o amam é que permanece nelles e elles nelle. «Eu amo aquelles que me amam» (Prov. 8. 17). «Si alguém me ama, amal-o-á meu Pae, e viremos a elle e nelle estabeleceremos nossa morada» (Joa. 14. 23). «Deus é a caridade e o que permanece na caridade permanece em Deus e Deus nelle» (Joa. 4. 16). Esta é a bella união effectuada pelo amor; elle une nossa alma com Deus, isto é, com a perfeição infinita.

Além disso o amor outorga-nos a força de praticar e soffrer tudo por Deus. «Forte como a morte é o amor» (Cant. 8. 6). Para um grande amor nada ha que seja difficil demais, diz Sto. Agostinho, pois «onde ha amor não ha coisa penosa» (In Joa. Trat. 48. 1) ou então essa mesma será amada e superada (De bon. vid. c. 21). Ouçamos o que diz S. João Chrysostomo a respeito dos effeitos produzidos na alma pelo amor divino: «Quando o amor divino tomou posse de uma alma, nella excita um desejo insaciável de trabalhar para o objecto amado e mesmo que tenha praticado muitas e grandes obras, mesmo que já por muito tempo se tenha consagrado ao serviço de Deus, tudo lhe parecerá pouco, nada: sem interrupção se lastimará por ter feito tão pouco por Deus e julgar-se-ia feliz, caso lhe fosse permittido poder morrer e consumir-se inteiramente por elle. Tem-se em conta de inútil, mesmo praticando tudo o que está em suas próprias forças, visto ensinar-lhe o amor o que Deus merece. Ao brilho desta luz conhece a imperfeição de suas obras e nellas só encontra motivos de dôr e confusão, considerando ser insignificante tudo o que faz por um Senhor tão grande».

Oh si todos os homens comprehendessem esta grande verdade: «Uma só coisa é necessária» (Luc. 10. 42). Não é necessário possuir riquezas, ser considerado aos olhos do mundo, levar uma vida agradavel, occupar cargos honoríficos, ter fama de sá­bio; a unica coisa necessária é amar a Deus e cumprir com a sua santa vontade. Unicamente para este fim fomos creados e Deus conserva a nossa vida, só sob esta condição poderemos conseguir a salvação, a perfeição e o céu. A cada alma que deseja unir-se a elle e tornar-se sua esposa, dirige o Senhor estas palavras: «Imprime-me como um sinete sobre teu coração, como um sinete sobre teu braço» (Cant. 8. 6), para que a mim dirijas todas as tuas acções e desejos; sobre o teu coração para que nenhum outro amor, além do meu, delle se apodere; sobre teu braço, para que em todas as tuas acções a nenhum outro alvo vises fóra de mim. Oh como se chega brevemente á perfeição quando em todas as acções se tem em mira a Jesus Crucificado e só a elle se procura agradar.

Ninguém nos mostra melhor a excellencia do amor de Deus do que S. Paulo, o grande panegyrista desta rainha das virtudes: «Si eu falasse as linguas dos homens e dos anjos, mas não tivesse a caridade, seria como o metal, que sôa, ou como o cymbalo, que tine… E si tivesse toda a fé, até a ponto de transportar montes, e não tivesse a caridade, nada seria. E si distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres e entregasse meu corpo para ser queimado e não tivesse a caridade, nada disto me aproveitaria». E em seguida dá elle os caracteres da verdadeira caridade e ao mesmo tempo indica as virtudes que implanta nos corações. «A caridade é paciente, é benigna; a caridade não é invejosa, e não opera levianamente, não se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca os seus interesses,’ não se irrita, não suspeita mal, não folga da injustiça, mas alegra-se com a verdade, soffre tudo, tudo espera, tudo supporta» (l Cor. 13. 1-7).

Do sobredito deduz-se que a perfeição consiste no amor de Deus. Note-se, porém, que o amor admitte vários gráus. O infimo gráu, segundo Sto. Thomaz (11. II. q. 184. a. 3., ad 2), consiste em não preferir ou mesmo igualar a creatura ao Creador. E’ este o amor daquelles que observam os mandamentos de Deus que obrigam debaixo de peccado mortal. O mais alto gráu do amor consiste no consumir-se no exercício ininterrupto da caridade pela applicação intensiva de todas as faculdades da alma. Não nos é dado, porém, alcançar esse gráu de amor sobre a terra: é elle prerogativa do céu. O gráu medio consiste não só na subordinação de todas as inclinações do coração á caridade, mas também no aproveitamento das mesmas na sua pratica. Quem conseguir chegar a este ponto cumprirá perfeita, facil e alegremente, em todas as suas obras,o preceito do santo amor. E’ esta a mais alta perfeição possível aqui na terra e possúe-a aquelle cuja vontade está tão conforme com a de Deus quese torna uma com ella.

II – A perfeição do amor divino consiste na conformidade com a vontade de Deus

Toda a nossa perfeição consiste em amar nosso Deus amabilissimo. A perfeição desse amor, porém, consiste na união da nossa vontade com a vontade de Deus, pois como Dionysio o Areopagita (De div. nom. 4) o declara, a acção principal do amor consiste em unir do modo o mais estreito possível os corações amantes de tal fórma que só disponham de um só querer ou não querer. Como o odio divorcia as vontades dos inimigos, assim o amor une as dos amantes. Assim diz S. Jeronymo que, quando uma pessoa só quer o que deseja a outra, ellas se amam de facto mutuamente. Isso leva o Sabio a dizer: (Sab. 3. 9): «Os que são fieis em seu amor, obedecerão a elle». Almas que adherem a Deus com fidelidade, estão de accordo com tudo que é da vontade de Deus. Disso deprehende-se a justeza da asserção de S. Francisco de Sales que a piedade consiste na vontade firme de fazer tudo que se saiba ser agradavel a Deus. O mesmo ensina Sto. Thomaz (II. II. q.82, a í): a piedade consiste na promptidão em fazer tudo que Deus de nós exige.

Para que uma coisa seja bôa e perfeita é preciso corresponder ao fim para que foi feita. Um instrumento só é bom quando serve ao operário em seu officio, do contrario para que prestaria? Que faria um pintor com um pincel que resistisse á sua mão, seguindo para a esquerda quando o pintor o manejasse para a direita, elevando-se quando elle o abaixasse? Não seria elle immediatamente inutilizado? O homem foi collocado neste mundo unicamente para servir a Deus e glorifical-o. Ora, só fazendo a vontade de Deus poderá o homem attingir esse sublime destino; para que elle, pois, seja bom e perfeito deve empregar sua existência em executar o que Deus quer. Fazer a própria vontade e seguir sua inclinação não é servir a Deus. Supponhamos que certa pessoa tem dois creados, dos quaes um trabalha constantemente o dia todo, mas executando tudo conforme sua vontade, ao passo que o outro se esforça menos, mas obedecendo pontualmente ás ordens recebidas. Qual dos dois será mais estimado? Toda a perversidade do peccado consiste justamente em se querer o que Deus detesta; é elle, no dizer de Sto. Anselmo, uma tentativa de roubar a Deus sua coroa imperial. «Quem segue sua própria vontade contra a de Deus, rouba-lhe, por assim dizer, a coroa, diz o Santo, pois como a coroa só compete aos reis, assim só a Deus compete seguir sua vontade independentemente de outros». Não querer se dirigir segundo a vontade de Deus, é mesmo uma especie de idolatria, conforme as palavras de Samuel a Saul. «Não querer obedecer é como um crime de idolatria» (I Re. 15. 23). E com razão, pois um tal homem adora sua própria vontade em vez da vontade divina. Ora, como toda a malicia da creatura consiste em oppôr-se a Deus, assim também toda a sua bondade está em fazer a sua s. vontade. No propheta Isaias Nosso Senhor dá o nome de «minha vontade» a uma alma que procura exclusivamente a sua complacência. «Serás chamada minha vontade nella» (Is. 62. 4). Esta denominação é plenamente justificada, pois é só a vontade de Deus que vive naquelle que renunciou á sua pró­pria vontade. Quem desejar ser um christão segundo o coração de Deus, deve executar sempre sua santa vontade. «Achei a David, homem segundo o meu coração, diz o Senhor, (Act. 13. 22), quefará todas as minhas vontades». De facto, este grande rei, como elle mesmo o assegura, estava sempreprompto a executar a vontade de Deus. «Prompto está o meu coração, ó Senhor, prompto está omeu coração» (Ps. 56. 8). Não deseja outra coisa de Deus si não que o ensine a cumprir com sua s.vontade. «Ensinae-me a fazer vossa vontade» (Ps. 142. 10). Feliz daquelle que com a Esposa dos Cânticos puder dizer: «Minha alma se liquefez quando elle falou» (Canl: 5. 6). Como os corpos líquidos não têm fórma própria, mas tomam a do vaso em que estão encerrados, assim as almas que amam a Deus não possuem mais vontade própria, mas se conformam em tudo com a de seu amado, ou antes, ellas possuem um coração docil, disposto a fazer tudo o que agrada a seu Senhor, em contraste com aquelles que a elle se oppõem por disporem de um coração duro e resistente.

Como poderão nossas obras dar honra a Deus si não forem feitas segundo sua s. vontade? «Por acaso deseja o Senhor holocaustos e victimas? e não antes que se obedeça á voz do Senhor?» (I Reg. 15. 22). Conforme essas palavras do propheta a Saul, a maior honra que podemos prestar a Deus é cumprir com sua vontade em todas as coisas. Foi, também, o que nos quiz ensinar o Salvador com sua vinda a esta terra, onde veiu estabelecer a gloria de seu Pae: «Rejeitastes as hóstias e oblações, porem preparastes-me um corpo… Eis que venho, ó Deus, para fazer a vossa vontade» (Hebr. 10. 5-7). As victimas que vos offereciam os homens vós as rejeitastes; quereis que vos sacrifique o corpo que me déstes: eis-me, pois, prompto a cumprir vossa vontade. Nosso divino Salvador declarou repetidas vezes que viera ao mundo somente para fazer a vontade de seu Pae. «Eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquelle que me enviou» (Joa. 6. 38). Além disso asseverou reconhecer por seu irmão aquelle que como elle fizer a vontade de seu Pae: «Todo aquelle que esse é meu irmão…» (Math. 12. 50). Os santos seguindo o exemplo de seu divino Mestre não tinham outro intento em todas as suas acções, sinão executar a vontade de Deus, sabendo que nisso consistia toda a perfeição. O b. Henrique Suso dizia: «Deus não exige que tenhamos abundantes luzes, mas que nos sujeitemos em tudo á sua s. vontade». Sta. Teresa: «Na meditação não se deve procurar outra coisa que conformar a nossa vontade com a de Deus, inteiramente convencidos de que nisso está a summa perfeição; quem mais se assignalou neste ponto receberá de Deus as maiores graças e fará os maiores progressos na vida interior» (Castd’ahn. irab. 2). A b. Estephania de Soncino, dominicana, tendo sido uma vez elevada em espirito ao céu, viu entre os seraphins diversas santas que conhecera no mundo, e foi-lhe então revelado que alcançaram tão grande gloria por terem perfeitamente exercido a conformidade com a vontade de Deus.

Devemos aprender dos habitantes do céu como devemos amar a Deus. O amor puro e perfeito de que estão possuídos para com Deus consiste na conformidade completa de sua vontade com a de Deus. Si soubessem os seraphins ser vontade de Deus que durante toda a eternidade recolham a areia da praia do mar ou arranquem as hervas más de um jardim, fal-o-iam com a maior alegria; precipitar-se-iam mesmo no inferno, caso fosse essa a vontade de Deus. Por isso ensina-nos Jesus Christo pedir a graça de cumprirmos com a vontade de Deus aqui na terra como os anjos a cumprem no céu: «Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu» (Math. 6. 10).

Como nada possuímos que nos seja mais caro que a nossa vontade própria, o sacrifical-a é a coisa mais agradavel que podemos offerecer ao Senhor, é justamente esse sacrifício que Deus sem cessar e tão encarecidamente exige, de cada um de nós, quando diz: «Meu filho, dá-me o teu coração» (Sab. 5. 9), isto é, a tua vontade. Sto. Agostinho diz: «A coisa mais agradavel que podemos offerecer a Deus é dizer-lhe sinceramente: Tomae-nos a nós mesmos em possessão, a vós nós consagramos toda a nossa vontade; dae-nos a conhecer o que de nós exigis: estamos promptos a tudo executar». Quando a Deus se consagra a própria vontade, entrega-se-lhe tudo. Quem o faz senhor de seus bens dando esmolas, quem lhe dá seu sangue pelas disciplinas, seu sustento pelo jejum, dá-lhe só uma parte do que é seu; quem, porém, a Deus entrega sua vontade, dá-lhe tudo o que possúe e póde dizer-lhe: Senhor, eu sou pobre, mas dou-vos tudo que tenho para dar; entregando-vos minha vontade, nada mais me fica de que possa dispôr.

Para que, porém, este sacrifício seja completo deve ter duas propriedades: deve ser inteiro e, além disso, constante. Pessoas ha que dão a Deus sua vontade, mas com certa restricção: tal dadiva não agrada muito a Nosso Senhor. Outros consagram-lhe sua vontade para mais tarde retoma-la; estes expõem-se a um grande perigo de serem abandonados por Deus. Para desviar de nós uma tal infelicidade, todos os nossos esforços, todas as nossas aspirações e orações devem visar a perseverança para que sempre queiramos o que Deus quer. Renovemos cada dia a consagração de todo o nosso sêr a Deus e guardemo-nos de desejar qualquer coisa contraria aos desejos de Deus; desta maneira nos livraremos de toda a paixão, de todo o desejo e temor e de toda affeição desregrada. Um só acto de conformidade perfeita com a vontade de Deus basta para nos elevar á santidade. Olhemos para S. Paulo. Na occasião em que pretende perseguir a Egreja, é illuminado e convertido por Jesus Christo. Que faz então Saulo? que diz elle? Uma só coisa: empenha-se em executar a vontade de Deus: «Senhor, que quereis que eu faça?» (Act. 9. 15) e desde logo chama-o o Senhor um instrumento escolhido para levar seu nome diante dos gentios.

Só poucos christãos comprehendem o que seja a verdadeira piedade. A maior parte segue suas inclinações: quando melancólicos, procuram a solidão; quando sentem-se attraidos por uma vida activa, se dedicam só ás obras da salvação das almas; quando inclinados a uma vida austera, dão-se á penitencia e mortificação; quando dispostos á generosidade, não poupam esmolas. Outros dedicam-se como todo o afinco á oração vocal ou pias romarias e fazem consistir nisso toda a santidade. Ora, todos estão enganados: as obras externas são realmente fructos do amor de Jesus Christo, não constituem, porém, a essencia da caridade, que está toda na inteira conformidade com a vontade divina: ella requer que se renuncie a si mesmo e em tudo se busque aquillo que mais agrada a Deus, e isso mesmo só porque Deus o merece e quer. Os que fazem consistir a santidade no accumulo de penitencias, na recepção frequente da santa communhão, na recitação frequente de ora­ ções vocaes, enganam-se peremptoriamente. A perfeição e santidade, mais uma vez, não consiste nessas coisas. Segundo Sto. Thomaz (II. 11. q. 81. a 1), ella está toda na sujeição á vontade de Deus: submettendo-lhe o nosso espirito, honramo-lo summamente e nisso consiste a nossa perfeição. Penitencias, orações, communhões são coisas bôas só porque Deus as quer; não sendo conforme a sua s.vontade, longe de lhe serem agradaveis, detesta-as e pune-as. Essas coisas todas são, portanto, só meios que nos unem á vontade de Deus e não a mesma santidade e perfeição, que consiste toda na pratica daquillo que Deus de nós exige, seja o que fôr. Numa palavra: a vontade de Deus é a norma de todo o bem e de toda a virtude; já que ella é santa, santifica tudo, mesmo as acções mais indifferentes, comtanto que sejam praticadas com o fito de agradar a Deus. Com toda a razão, pois, disse um grande servo de Deus que devemos antes nos empenhar em fazer a vontade de Deus que em procurar a honra e gloria de Deus, porque cumprindo com sua santa vontade procuramos também sua gloria, ao passo que querendo trabalhar para a honra de Deus, muitas vezes nos enganamos a nós mesmos, fazendo nossa própria vontade sob o pretexto de procurar a gloria de Deus.

Do sobredito deduz-se facilmente que si quizermos nos fazer santos devemos empregar todas as nossas forças em executar a vontade de Deus e não a nossa própria, pois todos os mandamentos e conselhos de Deus têm por fim mover-nos a fazer e padecer tudo o que Deus quizer e do modo que elle quizer. Logo, toda a perfeição póde ser resumida nas seguintes palavras: Fazer tudo o que Deus quer, querer tudo o que Deus faz e com a unica intenção, de contental-o. Não é, pois, verdade que todos pódem se tornar santos, quer homens, quer mulheres, quer jovens, quer anciãos, quer virgens, quer mães de familia, quer ricos, quer pobres, quer reis, quer súbditos, quer patrões, quer operários e creados, quer negociantes, quer soldados, quer senhores, quer empregados públicos?

Si quizermos, portanto, agradar por completo ao coração de Deus, procuremos não só nos conformar em tudo com sua santa vontade, mas nos unificar mesmo com ella. Tornamo-nos «conformes» com a vontade de Deus si dermos á nossa vontade a mesma direcção que a da vontade divina; tornamo-nos «um» com ella si de ambas as vontades fizermos uma só, querendo exclusivamente o que Deus quizer, ou antes, renunciando por inteiro á nossa vontade própria de tal fórma que só a vontade de Deus fique em pé, tornando-se ella a nossa. Esta é a summa perfeição que devemos aspirar incessantemente e deve ser o fito de todas as nossas obras, desejos, meditações e orações. Para que essa nossa aspiração seja, porém, efficaz, devemos invocar a assistência de nossos santos Padroeiros, dos Anjos Custodios, de S. José e principalmente da divina Mãe. A Ss. Virgem foi a mais perfeita creatura dentre todos os santos, porque foi a que cumpriu sempre com a vontade de Deus do modo mais perfeito possível.

O P. João Tauler narra a seguinte historia occorrida com elle mesmo: Durante muitos annos pedira fervorosamente ao Senhor que lhe enviasse alguém que o instruísse na vida espiritual. Um dia ouviu uma voz que lhe dizia: Dirige-te a tal egreja: lá encontrarás o que desejas. O padre obedeceu e á porta de egreja indicada encontrou um mendigo, descalço, envolto em trapos, a quem saudou dizendo: Bom dia, amigo. Obrigado, sr., respondeu-lhe o mendigo, não me lembro, porém, de ter jámais tido um máu dia. — Pois então, conceda-lhe Deus uma vida feliz. — Nunca fui ‘infeliz, graças a Deus. Ouça-me, Padre. Não foi sem razão que eu disse nunca ter tido um máu dia, pois si tenho fome, louvo ao bom Deus; si chove ou neva, bemdigo-o; si alguém me despresa, me despede, ou si tenho de supportar outros padecimentos, louvo por isso o Senhor. Disse também que nunca fui infeliz, o que é igualmente verdade, já que estou acostumado a querer incondicionalmente o que Deus quer. Tudo o que vem sobre mim, seja agradavel ou desagradável, recebo com alegria de suas mãos como a coisa melhor para mim, e isso constitue minha felicidade. — Mas si Deus quizesse condemnar-te, que dirías então? — Si Deus assim o quizesse, com humildade e amor prender-me-ia tão estreitamente a elle que precipitando-me no inferno arrastal-o-ia commigo e junto delle achar-me-ia tão feliz no inferno como sem elle infeliz no céu. — Onde encontraste a Deus? — Achei-o quando abandonei as creaturas. — Quem és tu? — Um rei. — Onde tens teu reino? — Em meu coração, onde reina a ordem, pois minhas paixões obedecem á razão e minha razão a Deus. — Como conseguiste tal perfeição? — Calando-me diante dos homens para mé entreter com meu Salvador e conservando-me continuamente unido a Deus, em quem acho meu descanso e toda a minha felicidade. Assim, por sua conformidade com a vontade de Deus, conseguira esse mendigo uma grande perfeição e apesar de sua pobreza sentia-se mais rico que todos os príncipes do mundo e não obstante seus padecimentos mais feliz que todos os mundanos na posse das alegrias terrestres.

O’ meu Deus, eu vos agradeço haverdes-me feito tão fácil o caminho da perfeição. Estou resolvido d’ora avante a caminhar por elle ajudado com vossa graça. Com esta intenção me uno sem reserva á vossa vontade que, é toda santa, toda bôa, toda bella, toda perfeita, toda amavel. O’ vontade de meu Deus, como me és cara!. Unido a ti quero viver e morrer. O que te agrada deve também agradar-me, teus desejos devem ser também os meus. Meu Deus, meu Deus, ajudae-me, fazei que d’ora avante só viva para querer o que quereis, para executar unicamente a vossa amavel vontade. Maldigo os dias em que, com vosso desgosto, fiz a minha vontade. Amo-te, ó vontade de meu Deus, amo-te tanto quanto ao proprio Deus, já que és o mesmo Deus.


Fonte: Escola de Pefeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931










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