TRANSLAÇÃO DA SANTA CASA DE NAZARÉ
A perda da Terra Santa e a notícia consoladora
Em fins do século XIII, a nova, súbita e terrível, de que a Terra Santa estava perdida para os cristãos espalhou uma profunda tristeza nas almas todas, piedosas. No entanto, outra notícia, silenciosa e calma, veio trazer alegria: a Santa Casa de Nazaré, onde a Virgem concebera o Verbo feito carne, fora transportada pelos anjos a Dalmácia, e de lá, por Ancona, para Recanati, Loreto.

Ano de 1291 — a ameaça aos Santos Lugares
Era no ano de 1291. Os Santos Lugares da Palestina eram invadidos. A Igreja magnífica, que a imperatriz Helena erigira em Nazaré, vinha de tombar sob o terrível martelo destruidor dos maometanos. O santo lar ia ter a mesma sorte, quando Deus ordenou aos anjos que o transportassem às terras felizes da fiel Dalmácia.
A deposição da Santa Casa em Tersatz
Estava-se a 10 de maio. E, à segunda vigília da noite, o santuário de Nazaré fora depositado às margens do Adriático, entre Tersatz e Fiume, num lugar vulgarmente chamado Rauniza pelos habitantes do país.
O Papa Nicolau IV governava então a Igreja, e Rodolfo de Habsburgo o império.
A cidade de Tersatz obedecia a Nicolau Frangipane, oriundo da antiga raça aniciens, cuja autoridade se estendia por terras da Croácia e da Esclavônia.
O espanto do povo diante do prodígio
Ao levantar da aurora, alguns habitantes se aperceberam, com espanto, do novo edifício, localizado num lugar onde jamais se vira casa alguma ou mesmo qualquer cabana. A bulha do prodígio bem cedo correu por toda a parte. E a concorrência foi tremenda. Donde viera aquela misteriosa construção, toda ela de pequenas pedras vermelhas e quadradas, ligadas por cimento? E a forma oriental, o estranho ar de antiguidade, a estrutura, tudo levava a interrogações sem fim. E o que mais desconcertava e a todos boquiabria, era o que se perguntavam, sem que pudessem explicar, de que maneira se sustinha a mole, uma vez que estava pousada sobre a terra nua, sem quaisquer fundamentos.

A surpresa, porém, e o estupor, seriam ainda bem maiores.
O interior da Santa Casa
Quando entraram e ganharam o interior, pasmaram. A câmara formava um grande quadrilátero. O teto, encimado por um pequeno campanário, era de madeira, pintado de azul e dividido em muitos compartimentos, juncado todo ele de estrelas douradas. Nas paredes e, abaixo dos lambris, notavam-se muitos semicírculos que se entremesclavam, dando ideia de vasos de formas variadas. As paredes, espessas dum côvado, erguidas sem regra e sem nível, não seguiam, exatamente, a linha vertical. Estavam cobertas dum reboco onde se viam, pintados, os principais mistérios daquele lugar sagrado.
A porta, a janela e o altar
Uma porta assaz larga, aberta numa das partes laterais, dava entrada ao misterioso prédio. À direita abria-se uma estreita e única janela. Em frente, erguia-se um altar construído de pedras quadradas, onde se elevava uma cruz grega antiga, ornada dum crucifixo pintado sobre uma tela colada à madeira, em cujo topo se lia o título de nossa salvação: Jesus Nazareno, Rei dos Judeus.
O mobiliário do santo lar e a imagem da Virgem
Perto do altar havia um pequeno armário duma simplicidade admirável, destinado a receber os utensílios necessários a um pobre lar, com tigelas e pratinhos, como se fora destinado a crianças. À esquerda, uma espécie de fogão ou lareira, com um nicho logo no alto, muito trabalhado e muito precioso, sustentado por colunazinhas ornadas de caneluras e de volutas, terminando por uma abóbada arredondada, formada por cinco luas que se juntavam, acorrentando-se mutuamente. Descansava ali, uma imagem de cedro, representando a Bem-Aventurada Virgem. Estava de pé, muito doce e muito linda, com o Menino Jesus ao colo. O rosto de Maria, suave e tranquilo, e o rostinho gorducho do Menino Deus eram pintados duma tinta que se assemelhava à prata, escurecidos ambos, talvez, pelo tempo ou pela fumaça dos círios que, porventura, houvessem acendido diante das santas representações. Uma coroa de pérolas, pousada na cabeça da Mãe dos homens, revelava-lhe a nobreza do semblante. O cabelos, à nazarena, caíam-lhe pelo pescoço, espargiam-se-lhe pelas espáduas. Vestida duma roupa dourada, apertada por um largo cinturão, aos pés lhe tombavam flutuante. Um manto azul lhe pousava nas costas sagradas. Tanto a Mãe celeste como o celeste Filho eram cinzelados e composto da mesma antiga madeira.
O Menino Jesus, Senhor do universo
O Menino Jesus, mais corpulento que as crianças ordinárias, com um rosto onde transparecia uma divina majestade, embelezado por cabelos também à nazarena, levantava a mão direita, os primeiros dedinhos erguidos como a abençoar, sustentando, na esquerda, o globo, símbolo do seu poder soberano sobre o universo. (1)
O estupor, pois era geral. E as perguntas que, ainda no dia seguinte se faziam, eram cada vez mais atormentadoras, e ficavam absolutamente sem resposta.
O Bispo Alexandre e o prodígio da cura
Eis senão quando surgiu a venerável figura do pastor da Igreja de São Jorge, o Bispo Alexandre, natural de Modruzia. E um murmúrio, febril e longo, encheu os ares — uma vez que o prelado jazia gravemente enfermo e sem esperanças de cura. Como aparecia ele, então, ali, cheio de viço e de disposição, no meio do povo? O rosto, trazia-o cheio de cor, não da cor doente da febre, e o corpo, antes fraco, movia-se com desembaraço.

A aparição da Santíssima Virgem
A noite, no leito de dor, sentira o mais ardente desejo de ir contemplar o prodígio, cujos rumores, como dum enxame de abelhas, cruzava por toda parte. Então, nervosamente, chamou por Maria, da qual lhe haviam descrito a imagem do santuário. E Maria, no mesmo instante, como Mãe carinhosa e solícita que é, lhe apareceu. Abriu-se-lhe o céu aos olhos, e a Santíssima Virgem, rodeada de anjos sem conta, sorrindo maravilhosamente, disse-lhe com uma voz, cuja doçura, sentia-o o bom Bispo, vinha toda do mais fundo do Sagrado Coração.
—Eis-me aqui, filho, que me chamastes. Vim dar-te um eficaz socorro e explicações sobre o mistério que teu coração deseja ver desvelado. Fica, pois sabendo que a santa morada trazida recentemente ao território é a casa mesma onde nasci e recebi quase toda a minha educação. Foi onde recebi a nova trazida pelo Arcanjo Gabriel, onde concebi por obra do Espírito Santo o Divino Menino. Foi lá, escuta, que o Verbo se fez carne! Os Apóstolos, depois de minha morte, consagraram esta casa ilustre pelos altos mistérios, disputando a honra de ali celebrar o Augusto Sacrifício. O altar é o mesmo que o apóstolo Pedro erigiu. O crucifixo, que lá se vê, foi colocado, outrora, pelos apóstolos. A estatueta de cedro é a minha imagem, feita pelo evangelista Lucas, que, levado pela afeição que por mim nutria, e pelo apego, exprimiu, por meio da arte, os meus traços, tão perfeitamente quanto possível a um mortal.
A confirmação divina da Translação
E, sempre muito doce e rodeada de anjos sem fim, continuou:
— Esta Casa, amada, muito amada do céu, cercada durante séculos de honras na Galileia, mas hoje desprovida de homenagens em meio ao desfalecimento da fé, passou de Nazaré para estas plagas.
E afirmou, peremptória:
— Aqui não há dúvida: o autor deste grande acontecimento é Deus, para quem nada é impossível.
A cura milagrosa do Bispo
E, olhando-o ternamente, tanto quanto poderia sê-lo a ternura mesma, finalizou:
— De resto, afim de que tu mesmo sejas testemunha e explicador de tudo o que te disse, fica curado. Tu, enfermo desde há muito, surgindo subitamente em toda a tua saúde, levarás a todos à crença deste prodígio.
E Maria, vagarosa, muito vagarosamente, subindo aos céus, sempre a sorrir e sempre rodeada de anjos infindos, foi desaparecendo das vistas do bom Bispo extasiado e curado, deixando no quarto um celeste perfume desconhecido na terra.
O Bispo Alexandre sentiu-se remoçado. Fora-se-lhe a febre atormentadora, renasceram-se as forças que haviam desertado desde muito tempo. Então, todo apressado, deixou a cama, pôs-se de joelhos, bendisse a benfeitora sublime, correu ao augusto santuário para ali apresentar ações de graça, e, a todos, fez ver que tudo era obra de Deus. Curado, saudável, levava a todos a crença de que a visão sobrenatural que tivera não podia ser a quimera dum cérebro desvairado pela dor, tomado pela febre.
A ausência de Nicolau Frangipane e o retorno para averiguação
Nicolau Frangipane, que então governava aquelas terras, estava ausente: seguira Rodolfo de Habsburgo, ao encontro da guerra.
Um dia, recebendo a notícia do prodigioso evento. E o príncipe deu-lhe permissão para deixar o campo da luta e ir assegurar-se da verdade. E, tanto quanto lhe era possível, apressou-se, todo cheio duma curiosidade que lhe consumia a alma e mais o impelia para Tersatz. E viu. Viu e quis informações, as mais minuciosas.

A comissão enviada a Nazaré para examinar as circunstâncias
Logo escolheu quatro homens de confiança homens atilados e prudentes, entre os quais estava o Bispo Alexandre, para correr a Nazaré e examinar e esmiuçar as circunstâncias do extraordinário fato. Sigismundo Orsich, João Gregoruschi e outro, do qual se não guardou o nome, compunham a comissão.
Em Nazaré, na Galileia, a casa natal da Santíssima Virgem não era mais vista. Fora desligada das bases, que ainda existiam, e desaparecera. Nenhuma diferença havia entre as pedras que ali se achavam e aquelas que compunham o santo edifício que então se assentava na Dalmácia. As dimensões eram perfeitamente iguais: conformavam-se largura, comprimento e, pois, a área quadrada.
A confirmação escrita e o aumento das peregrinações
Tudo confirmado, por escrito e por solenes juramentos, a concorrência a Tersatz foi incrível. Gente de toda parte ali acorria, sôfrega e curiosa. As províncias de Bósnia, da Sérvia, da Albânia, da Croácia, dir-se-ia, ficaram desertas, que toda a população abalara ao território que fora favorecido pelo céu.
Para facilitar a atividade dos peregrinos, Frangipane tomara todas as medidas. E, segundo o gosto do país, gravuras enchiam as dependências todas da casa.
Três anos e meio depois — a ida para Loreto e a capela comemorativa
Três anos e meio depois da chegada a Tersatz, a casa de Nazaré, transportada pelas mãos dos anjos, novamente elevou-se nos ares e desapareceu das vistas do povo desolado, assentando-se em Loreto.
O príncipe erigiu, mais tarde, no mesmo lugar em que estivera a doce morada, e sobre os mesmos vestígios, uma capela, onde se lia: “Aqui é o lugar onde outrora esteve a Santíssima Casa da Bem-Aventurada Virgem de Loreto, que agora é honrada sobre as terras de Recanati”. No caminho que levava aos local do prodígio, gravou-se esta inscrição em italiano: “A Santa Casa da Bem-Aventurada Virgem veio a Tersatz no ano de 1291, a 10 de maio, e retirou-se a 10 de dezembro de 1294”.

O hino da Dalmácia
Os Soberanos Pontífices concederam muitas graças à capela comemorativa de Tersatz, e o clero e o povo continuavam a cantar este hino:
“Ó Maria,
aqui viestes com vossa casa,
a fim de dispensar graças como piedosa
Mãe de Cristo,
Nazaré foi vosso berço,
mas Tersatz foi vosso primeiro refúgio,
quando procuráveis uma nova pátria.
Vós levastes além vossa Sagrada Morada,
mas não deixastes de conosco ficar,
ó Rainha de clemência.
Nós nos felicitamos:
não fomos considerados dignos,
ó sim!
de conservar vossa presença maternal?”
A dor do povo e as peregrinações a Loreto
Depois da ida do santo lar de Maria, o povo da Dalmácia, atravessando aos bandos, o Adriático, ia a Loreto, mais para deplorar a perda do que para venerar o berço da Mãe de Deus. E da boca de todos não saíam outras palavras senão estas: “Voltai para nós, Maria, voltai para nós!”
Em 1559, mais de trezentos peregrinos, com as mulheres e os filhos, chegaram a Loreto, levando archotes acesos, prosternaram-se à entrada para implorar o socorro de Deus e da Santa Mãe, depois do que, de joelhos, entraram todos, em fila, no templo, a suplicar, em altas vozes, em coro: “Voltai, voltai para nós, ó Maria! Maria, voltai, voltai!”
A dor era tão viva, a súplica tão ardente, que a testemunha que escreveu a história, procurou impor silêncio à massa, temendo, diz ele, que tão ardentes rogos fossem atendidos, e que a Santa Capela não fosse arrebatada da Itália para ir a Tersatz, onde então estivera.
Com o tempo, uma hospedaria foi construída, hospedaria que se destinava a abrigar o povo da Dalmácia, que não queria retornar à terra, abandonando a Virgem de Nazaré.
A nova Translação segundo Paulo Della Selva (carta ao Rei de Nápoles)
Quanto à história da nova Translação vejamos em que termos um velho ermitão do tempo e do país, Paulo Della Selva, escreveu ao Rei de Nápoles, Carlos II:
“Em nome de Deus. Assim seja.
Rei: para satisfazer a vossa piedosa curiosidade sobre o grande milagre da translação feita pelos anjos da Casa da Santa Virgem, transportada para a Itália, na província de Ancona, ao território de Recanati, entre os rios Áspis ou Moscios e Potência, eis como foi, segundo ouvi contar por homens dignos de fé e originários de Recanati, a saber: Francisco Petri, Cônego daquela cidade, e Uguccion, eclesiástico exemplar, bem como Cisco de Cischis e Francisco Percivalino, distintos jurisconsultos, que, todos, com muitos dos cidadãos, viviam no tempo do milagre, dos quais li com igual atenção a narração nos registros públicos.”

10 de dezembro de 1294 — luz, harmonia e o voo da Casa
“No ano da encarnação do Senhor, 1294, 10 de dezembro, quando tudo estava mergulhado no silêncio, e a noite, no seu curso, ia pelo meio da rota, uma luz se espargiu do céu e intensa, veio ferir o olhar de muitos habitantes das praias do mar Adriático, ao mesmo tempo que uma divina harmonia, despertando os mais adormecidos, arrancou a todos de casa, levando-os a presenciar uma grande maravilha, superior a todas as forças da natureza.
Viram todos, então, e contemplaram à vontade uma casa toda cercada de celeste esplendor, sustida por mãos de anjos que se não poderiam contar, viajando através dos ares da noite.
Os camponeses e os pastores ficaram estupefatos diante de tão grande maravilha, e caíram de joelhos, em veneração, aguardando o fim, pensando onde iriam, afinal, descer os anjos com a sagrada carga.
O Bosque dos Loreiros e a origem do nome Loreto
Foi a Santa Casa depositada no meio dum bosque, um bosque enorme, onde as árvores mesmas, inclinando-se, reverentes, para o chão, veneraram-na, porque, venerando-a, veneravam a Rainha do céu. Ainda hoje, vemo-las inclinadas, como para testemunhar a alegria de acolher tão venerável morada.
Diz-se, Rei, que naquele lugar, outrora, se adorava uma falsa divindade, num templo, no meio duma floresta de loreiros, daí o nome de Loreto, como agora se chama o dito lugar. (2)
A notícia em Recanati e a alegria do povo
Assim que a manhã despontou, os camponeses e os pastores abalaram para Recanati, a dar a nova. Então, todo o povo acorreu ao Bosque dos Loreiros, para assegurar-se da verdade, da narração que, ansiados, faziam os que viram a maravilha.
Todos, Rei, todos, nobres e gente do povo, ficaram mudos de espanto, e muitos, tal a admiração, não sabiam se deviam crer no que os olhos viam. Os mais religiosos, esses, choravam de alegria.
Penetrando na pequena casa, com devoção, renderam homenagens à imagem de madeira da Divina Virgem Maria, que tinha o Menino nos braços. E, de volta a Recanati, encheram a cidade duma santa alegria. O povo deixava constantemente a cidade e ia venerar a santa capela. E os que iam e vinham, apinhando o caminho, cantavam de puro contentamento.
Milagres, afluxo de peregrinos e a profanação do bosque
Entretanto, a Bem-Aventurada Virgem Maria multiplicava os prodígios e os milagres. A bulha de tão grande maravilha estendia-se nos lugares mais afastados, e, das províncias vizinhas, todos acorriam ao Bosque dos Loreiros, que logo se encheu de casinhas de madeira, para abrigar os peregrinos.
Enquanto isto se passava, o leão infernal, que rodeia, e espreita e atenta, encontrando presas para devorar, fez com que surgissem ladrões e gente baixa, com cujas mãos ímpias profanaram o bosque sagrado, saqueando peregrinos e matando-os, de sorte que a devoção de muitos veio a esfriar, temerosos que ficaram todos dos malfeitores.

O segundo prodígio — a colina dos dois irmãos condes
Ao cabo de oito meses, o primeiro milagre foi confirmado por um segundo prodígio. A Santa Casa deixou o bosque profanado e foi colocar-se, pelo ministério dos anjos, numa colina, pertencente a dois nobres irmãos, os condes Estevão e Simão Rainaldi de Antioquis, de Recanati. A devoção voltou, e os fiéis novamente iniciaram as peregrinações. Os nobilíssimos irmãos piedosos tornaram-se os depositários da Santa Casa de Nazaré. Infelizmente, porém, os dois, com o passar do tempo, desentenderam-se. A Santa Capela, enriquecida de dádivas, levou-os à avareza, as escandalosas discussões para saber qual dos dois a dominaria.
O terceiro milagre — a via pública e o testemunho do ermitão
Então, Rei, o Santo Lar retirou-se novamente, quatro meses depois de ter chegado à colina dos dois irmãos condes. E, por um terceiro milagre, sempre levada pelos anjos, a casa foi depositada no meio da via pública, que conduz de Recanati às praias do mar, onde a vi eu, Paulo Della Selva, com meus próprios olhos. Lá, as graças continuam a ser outorgadas aos que vão rogar a Maria, contrito e sempre admirados.
Nova comissão para exame e declaração de conformidade
Todavia, embora os prodígios celestes demonstrassem que o Lar modesto era a residência da Mãe de Deus, o lugar onde o Verbo se fez carne, para encontrar mais claramente a verdade, os habitantes de Recanati reuniram-se. E a assembleia compôs-se dos principais senhores da província. Decidiu-se, então, que dezesseis homens, todos ilustres e conceituados, fossem a Tersatz para examinar as medidas da Santa Casa, bem como a Nazaré, onde fora erigida primitivamente e estivera por longos anos. Entre os ilustres membros da comissão encarregada dos estudos, contavam-se Politos, filho do Conde Mateus de Politis, que ia em nome do lugar de Santa Maria; pelo de São Flaviano, Marchio, o Jovem, Conde de Mateus, filho do Conde Simeão Rainaudi de Antioquis; pelo lugar de Santo Anjo, o célebre doutor em direito, Cicotos, filho de Monaldutius, dos monalducianos; estes personagens distintos, acompanhados pelos colegas, foram viram, examinaram, voltaram e declararam que haviam achado tudo absolutamente conforme.
Conclusão da carta e atestação oficial
Recebei, Príncipe, esta curta narração, em testemunho da realidade do Santuário miraculoso e de meu respeitoso devotamento para com Vossa Majestade. E, para que tenhais certeza de vossas esmolas são fielmente entregues, eu vos atesto ter recebido as dádivas, das quais, um dia, recebereis a recompensa no céu. Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Assim seja. Próximo da Santa Morada, no ano do Salvador, 1297, a 8 de junho. Paulo, servidor de Jesus Cristo, Senhor Nosso.”
Pouco mais abaixo, lia-se:
“As orações do povo da cidade de Recanati levam a crer que o que acima ficou dito é verdadeiro e conforme aos nossos anais e aos arquivos públicos. Em testemunho e em fé, ordenamos que esta peça fosse sinalada com o nossos selo, e subscrita pelo notário público, estabelecido pela autoridade imperial o mestre dos atos, a 12 de junho do ano da circuncisão de Nosso Senhor Jesus Cristo, 1297. Francisco Jacobi, mestre dos atos.” (3)

A fragilidade das Santas Paredes e a decisão de construir muralha
Os cidadãos de Recanati viam, com ansiedade, a fragilidade das Santas Paredes. Pousada sobre a terra, a Casa de Nazaré não tinha fundamentos. Como, com o correr do tempo, com a ação do tempo mesmo, subsistir? Privar-se-ia, então, a cidade do mais belo ornamento? E o próprio lugar em que os anjos a depositaram era motivo para mais aumentar a ansiedade. Com efeito, ali estava exposta a ventos violentos, a frequentes tormentos e impetuosas enxurradas. Assim, decidiram elevar ao redor do frágil edifício uma forte muralha estabelecida sobre bases sólidas e construída com tijolos cozidos ao fogo. Mais ainda: para fixar indelevelmente a história e os milagres do Santo Lar, contrataram hábeis pintores, aos quais incumbiram de cobrir as paredes, principalmente a que olhava para o norte, com todos os detalhes do prodígio, a fim de dar a toda gente, e sobretudo aos ignorantes, a facilidade de compreender a maravilha e de render graças à Santíssima Virgem.
O testemunho do Padre Riera e a separação das paredes
Eis, agora, o que nos conta um historiador, o Padre Riera:
“O ruído do povo propagou-se nas províncias de Ancona, como uma grande milagre, quando se terminavam as obras das paredes que se levantavam estreitamente unidas às da Santa Casa. O Prodígio calou fundo no espírito do povo. É que, concluídas as ditas paredes, dias depois, de unidas que estavam, sem que entre elas fio de cabelo passasse, viram-nas separadas, tanto que um menino podia facilmente andar entre ambas. Aquilo era, certamente, para mostrar que as augustas paredes da Casa de Loreto não tinham, absolutamente, necessidade de arrimo, do humano, arrimo. Queria a Virgem, assim, dar a entender que o Céu a sustentava, porque, que maior arrimo há que o de Deus? Muitas pessoas ainda hoje vivem, que foram testemunhas do admirável espetáculo, já que o viram com os próprios olhos.
Assim, quando, em tempos do Papa Clemente VII, Rainero Nerucci, arquiteto da Santa Capela, e que depois para mim foi uma doce amizade, quis, por ordem do Pontífice abater aquelas paredes de tijolo, que o tempo já quase havia arruinado, para elevar em seu lugar um magnífico monumento de mármore, notou, não sem grande espanto, que, contra as regras da arquitetura e os planos da arte humana, todas as pedras estranhas à Santa Casa estavam afastadas como para lhe render justas homenagens.
O mesmo Rainero, bem como muitos outros, contaram-me, igualmente, que aquelas paredes afastadas, depois de muitos anos , racharam-se e de tal modo, que se podia facilmente contemplar a antiga casa e regozijar-se com as delicias que de toda a sua santidade parecia emanar.” (4)

O templo em Loreto e os favores pontifícios
Em princípios do século XIV, os habitantes de Recanati elevaram em Loreto um templo para encerrar a Santa Capela. Uma cidade formara ao redor, cidade a que os Soberanos Pontífices não cessavam de prodigalizar favores espirituais e temporais.
1464 — Pio II e Paulo II (Bula de 15 de outubro)
Em 1464, o Papa Pio II ofereceu a Nossa Senhora de Loreto um cálice de ouro, para obter a cura duma doença, o que então obteve. No mesmo ano, o sucessor, Papa Paulo II, erigiu uma nova Basílica em torno da Santa Capela, dizendo, numa Bula de 15 de outubro:
“Não se pode duvidar que Deus, aos rogos da Santíssima Virgem, Mãe do Divino Filho, não conceda todos os dias os fiéis que lhe dirigem piedosamente os votos, graças singulares, e que as Igrejas dedicadas em honra de seu nome não mereçam ser veneradas com a maior devoção. Entretanto, devem receber homenagens mais particulares, aquelas pelas quais o Altíssimo, pela intercessão da Augusta Virgem, opera milagres mais evidentes, maiores e mais frequentes. Ora, é manifesto, pela experiência, que a Igreja de Santa Maria de Loreto, na diocese de Recanati, dados os grandes, inauditos e infinitos milagres que ali fez fulgir o poder daquela Virgem Bem-Aventurada, e que nós aprovamos em nossa própria pessoa, atraia para si os povos de todas as partes do mundo.” (5)
Sisto IV e a organização do Santuário
O Papa Sisto IV, sucessor do Papa Paulo II, declarou Loreto propriedade da Santa Sé. Todas as pessoas ligadas ao serviços da Igreja dele dependerão imediatamente, e serão isentas de toda e qualquer jurisdição. Dois personagens capazes serão nomeados pelo Soberano Pontífice: um, para incumbir-se das coisas espirituais, sob a denominação de Vigário, e outro, para velar pelos interesses temporais, com o título de governador.
O Vigário instituíra oito Capelães encarregados de cantar todos os dias uma Missa Solene, depois chamada Missa Votiva; os penitenciários juntaram poderes de absolver já concedidos os de dispensar votos, ou pelo menos de os substituir por boas obras e auxílios aplicados às necessidades da Santa Capela. Os Carmelitas, encarregados da guarda dos lugares santos da Palestina, foram chamados para velar pelo Santo Quarto da Mãe de Deus.

Leão X — privilégios, indulgências e fortificações
O Papa Leão X renovou todos os privilégios passado. As indulgências das estações apostólicas de Roma foram estendidas ao Santuário de Loreto, onde se ganhavam com a visita duma só igreja o que não se poderia obter senão com a visita de muitas igrejas na capital do mundo cristão. Os mercados de outono em Ancona, em Pisaura e outros lugares, foram suprimidos, para dar mais movimento ao que se tinha em Recanati pela época da Natividade, onde se viu, não somente católicos, mas gregos e armênios, embora cismáticos, a disputar a devoção a Maria com as fiéis crianças da Igreja Católica.
O voto de fazer uma peregrinação a Loreto foi reservado ao Papa, como os de visitar as tumbas dos Santos Apóstolos ou o Sepulcro de Jesus Cristo. O famoso Santuário Sansovino foi encarregado de circundar dum magnífico trabalho de mármore branco de Carrara o precioso Santuário. O governador recebeu o privilégio de celebrar a Missa com hábitos Pontificais, e dar ao povo a benção episcopal. Ordens foram dadas para fortificar o castelo e construir avenidas, bastiões e fossos defendidos por grandes peças de artilharia, a fim de por o templo ao abrigo de surpresas e de ataques.
Clemente VII — inquérito e decoração do exterior
O Papa Clemente VII executou o plano do Papa Leão X. Deu novo relevo e uma certeza no que dizia respeito à translação da miraculosa Capela, enviando três dos camareiros a Loreto, depois a Dalmácia e afinal a Nazaré, para examinar cuidadosamente os lugares e consultar as tradições populares.
As lágrimas dos da Dalmácia, as declarações dos orientais, a exatidão das medidas, a semelhança das pedras, tudo, enfim, veio confirmar a prodigiosa translação e tranquilizar a piedade dos povos.
Foi igualmente ao Papa que Loreto ficou devendo o saneamento da cidade. Seu primeiro pensamento era, porém, o de realizar o sublime plano do predecessor e parente o Papa Leão X, qual seja o de decorar magnificamente o exterior das paredes da Santa Casa com esculturas em mármore branco. Grandes artistas foram convocados. E, como arquiteto-chefe, foi nomeado o famoso Nerucci.
O plano das portas e a consternação do povo
Depois de vários dias de observação e estudo, ciente de que a Casa estava somente assentada no chão irregular, como que suspensa, propôs-se a recomeçar o trabalho. O Papa Clemente VII queria que a única porta da Santa Casa fosse murada e três novas se abrissem num dos lados, para permitir fácil entradas e saída de fiéis.
Diante disto, o povo ficou consternando, e um rumor encheu a cidade. Quem ousaria, com golpes, violar as paredes que os próprios séculos haviam respeitado? A ordem, contudo, vinha do Papa, era preciso dar execução às obras: a beleza do plano urgia imperiosamente.
Nerucci, o desmaio e a invocação à Senhora de Loreto
Nerucci armou-se de coragem e do malho. Ergueu o instrumento e foi desferir a primeira malhada. Sentia-se mal, suava, empalidecia e tremia, sentindo-se sem forças, o cérebro num turbilhão: desmaiou, caiu por terra. Levado às pressas para casa, constatou-se que o perigo era iminente. Nerucci estava com a vida seriamente comprometida.
A esposa, mulher piedosa, vendo-o entre a vida e a morte, invocou a Augusta Senhora de Loreto. E, à medida que, confiantemente, ia rogando, o esposo, a pouco e pouco, ia readquirindo as cores, reanimando-se, até que se sentiu perfeitamente bem.
Logo, do sucedido, fizeram referência ao Pontífice. Que fazer?
O Papa Clemente VII respondeu nestes termos:
“Não temais: o trabalho de ir avante. As portas precisam ser abertas: assim ordenava o Papa Clemente VII.”
A recusa do arquiteto e a coragem de Ventura Perini
Uma ordem tão formal não demoveu Nerucci, que decidira não mais agir. Nem mesmo a autoridade da Sé Apostólica conseguiu dissipar o medo que do arquiteto se apoderou, levando-o a desobedecer. Em vão tentaram persuadi-lo: tudo fora inútil.
O povo, esse, estava, suspenso. A ordem do Papa, quem a discutiria? Mas, quem teria, aquela altura, a suficiente coragem de reiniciar os trabalhos? Foi quando surgiu um homem que se propunha levar avante obras tão perigosas: Ventura Perini, clérigo que pertencia ao coro do Santuário.
Preparação, oração e o primeiro golpe
Ventura ficou três dias preparando-se para a empresa, a orar fervorosamente, rigorosamente a jejuar. No último dia, principiava a tarde, dirigiu-se ao Santo Lugar, seguido duma multidão que nervosamente comentava. Diante de todos, ajoelhou-se o clérigo, e reverentemente, pôs-se a beijar e rebeijar as paredes do Santo Lar de Maria, depois do que, com confiança, disse:
— Peço-te, ó Santa Casa da mais pura das virgens, que me perdoeis! Não é por mim que te martelarei as Paredes Sagradas, mas a mando de Clemente, Vigário de Jesus Cristo, todo ele no ardor que o anima de te embelezar! Permite, ó Maria, que possa desincumbir-me do que for necessário!
O povo, suspenso, mudo, respirava curta, nervosamente. E quando Perini se levantou e tomou do malho, a ansiedade foi tremenda. Que teriam agora?
Ventura desferiu o primeiro golpe, o segundo e muitos outros, sem que nada lhe acontecesse. Os demais operários, encorajados pelo sucesso, alegremente entraram a trabalhar, cada qual no setor que lhe competia.
O povo desafogado, dava vasão à tensão reprimida. E falava, e comentava, e observava o labor dos homens desanuviados.
Sisto V — catedral e bispo

Sisto V, eleito Papa em 1585, considerando que Loreto era célebre por toda a terra, que abrigava uma igreja sob a invocação da Bem-Aventurada Virgem Maria, no meio da qual se elevava a Casa Consagrada pelos Divinos Mistérios, onde aquela Virgem pura nascera e fora saudada pelo Arcanjo, onde, por obra do Espírito Santo, concebera o Salvador do mundo, Casa que para ali fora transportada pelos Anjos, pródiga em milagres, resolvia dar à Igreja o título de Catedral e estabelecer um Bispo.
Clemente VIII, Inocêncio XII e Bento XIV
O Papa Clemente VIII, em 1667, ordenou, depois dum severo exame da Congregação dos Ritos, por um Decreto solene, que se consignasse no Martirológio Romano, a 10 de dezembro, a história do grande prodígio de Loreto:
“Em Loreto, diz, no território de Ancona, translação da Santa Casa de Maria, Mãe de Deus, na qual o Verbo se fez Carne.”
Em 1691, o Papa Inocêncio XII, assinalou um ofício e uma Missa particular para esta grande solenidade, e fez consignar no breviário romano, no fim da sexta lição, a história do milagre.
O Papa Bento XIV, zelosamente, defendeu-a das críticas dos protestantes, de Casaubon, principalmente, e embelezou-a mais ainda. O mais importante foi a restauração do pavimento da Capela e as consequências que resultaram do exame feito naquela época.
Ano de 1751 — escavações, testemunhos e a terra virgem
Era no ano de 1751. João Batista Stella, bolonhês, governava a cidade. Antes do início das obras, julgou necessário valer-se de testemunhos respeitáveis. Assim, solicitou a Monsenhor Alexandre Bórgia que o assistisse naquela importante ocasião, pedindo o comparecimento de mais quatro prelados: os Bispos de Iesi, de Ascoli, de Macerata e de Loreto. Em seguida, enviou ofícios a um arquiteto e a quatro mestres pedreiros, aos quais se juntaram três outros arquitetos estrangeiros que haviam vindo para venerar a Santa Casa.
Tudo organizado, principiaram as escavações, logo chegando ao fim das santas paredes, mergulhadas a menos de um pé do pavimento. Os arquitetos e os mestres pedreiros deram os primeiros a descer pela abertura, tirando a terra superficial e seca, misturada a pequenos seixos meio achatados, semelhantes aos que se encontram nos caminhos batidos e nas vias públicas.
O Arcebispo e os Prelados, próximos, acompanhavam atentamente os movimentos todos dos homens a trabalhar. Olhavam, examinavam e viam, com admiração, que as Paredes Benditas pendiam um pouco para o ocidente.
O Bispo de Loreto colheu, com um punhado de terra, uma casca de caracol e uma noz inteira mas ressecada, testemunhas sagradas, que resolveu guardar no palácio, como lembrança e prova da realidade do Augusto Santuário.
Entrementes, um dos hábeis arquitetos quis aprofundar-se mais, desejo de ver onde principiava a terra virgem, sobre a qual costumavam assentar-se os fundamentos para dar-lhe solidez. Estava, então, penetrando por um dos lados, quando desapareceu inteiramente na escavação. De repente, do fundo, ouviram-no gritar:
— A terra virgem, a terra virgem!

E, pouco depois, aparecendo aos assistentes preocupados, mostrou-lhes, trazido de oito ou nove pés de profundidade, um punhado de terra. Era, pois unicamente a mão de Deus que sustentava a Casa, contra todas as leis da arquitetura, depois de tantos séculos.
Conclusão: materiais, objetos e confirmação do Santo Lar
Finalizando, a Santa Casa era construída com materiais desconhecidos na Itália e comuns em Nazaré. Todos os objetos que encerrava eram antigos e caracteristicamente orientais; no ocidente não se conseguiu fixar-lhes a origem. Continuava firme ao lado de edifícios já arruinados e mais novos, conformando-se com os restos da Galileia, a veneranda Morada de Maria, a Casa em que viveu parte da sua vida, recebeu a visita do Arcanjo São Gabriel e a nova de que iria conceber, do Espírito Santo, a Deus feito homem, Jesus Cristo Nosso Senhor, era, de fato, a verdadeira de Maria, Mãe de Jesus e dos homens.
Fonte principalROHRBACHER, Padre. Vidas dos Santos.
(Obra de referência histórica e hagiográfica utilizada como fonte-base do texto.)Bibliografia e referências históricas
TURSELL. Historia Lauretana.
Livro II, capítulo I.
(Referência à nota 5.)CAILLAU, A. B. Histoire Critique et Religieuse de Notre-Dame de Lorette.
Paris, 1843.
(Referência às notas 1 e 3.)RIERA. Historia Lauretana.
Capítulo VII.
(Referência à nota 4.)Nota etimológica:
- (2) Do italiano Laureto, bosque de loureiros.
