É impossível amar a Deus sem amar ao mesmo tempo ao próximo. O mesmo mandamento que nos obriga ao amor de Deus nos impõe o amor do próximo. “Temos este mandamento de Deus, que quem ama a Deus, ame igualmente a seu próximo” (I Joa. 4, 21).
São Tomás de Aquino conclui dessas palavras do Apóstolo que a única virtude da caridade abrange não só o amor de Deus, como também o amor do próximo, já que a única e mesma caridade faz que amemos não só a Deus, como também o próximo por amor de Deus (IIa-IIae, q. 25, a. 1).
Assim se explica o que S. Jerônimo (In ep. ad Gal., c. 6) narra de S. João Evangelista. Perguntado por seus discípulos por que recomendava tão repetidas vezes a caridade fraterna, respondeu: Porque é o preceito do Senhor, e a sua observância só basta para a bem-aventurança eterna.
Santa Catarina de Gênova disse certa vez ao Senhor: “Ó meu Deus, Vós me mandais amar o meu próximo, mas eu não posso amar senão a Vós”; ao que lhe respondeu o Senhor: “Minha filha, quem Me ama, ama também tudo o que Eu amo”. De fato, quando se ama uma pessoa, amam-se igualmente seus parentes, seus servos, seu retrato e até mesmo suas vestes, porque tudo isso é estimado pela pessoa amada.
Por que devemos amar a nosso próximo? Porque é amado por Deus. Com toda a razão o Apóstolo S. João chama de mentiroso quem diz que ama a Deus e, entretanto, odeia a seu próximo.
Jesus Cristo disse que há de olhar como feito a si mesmo o bem que fizermos ao mínimo de seus irmãos: “Em verdade vos digo, o que fizestes a um de meus irmãos mais pequenos, a mim o fizestes” (Mat. 25, 40).
Do que conclui Santa Catarina de Gênova que, para se conhecer quanto alguém ama a Deus, basta examinar-se quanto ama ao próximo.
A caridade cristã é um dos frutos mais preciosos da Redenção. O profeta Isaías a predisse com as palavras: “Então habitará o lobo com o cordeiro e o leopardo se alojará junto ao carneiro… e não prejudicará um ao outro, nem o matará” (Is. 11, 6).
Com isso queria dizer que os futuros discípulos de Jesus Cristo, ainda que tendo inclinações e caracteres diversos e pertencendo a várias nacionalidades, haveriam de viver em toda a paz uns com os outros, já que cada um cuidaria em se amoldar, pela caridade, à vontade e inclinação do outro.
E, na realidade, assim viviam os primeiros cristãos: “A multidão dos fiéis tinha um só coração e uma só alma” (Act. 4, 32).
Isso foi o resultado da oração do Divino Salvador dirigida a seu Eterno Pai antes de sua morte: “Pai santo, conservai em vosso nome aqueles que me destes, para que sejam um, como nós o somos” (Jo. 17, 11).
Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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