A prova mais certa de amor que podemos dar a Deus está insinuada nas palavras de S. Paulo a Jesus Cristo, depois de sua conversão: “Senhor, que quereis que eu faça?” (Act. 9,6). É, pois, a conformidade de nossa vontade com a vontade de Deus, como já expusemos largamente no capítulo 1, § 2. Alguns querem amar a Deus, mas unicamente da maneira que apraz às suas inclinações; esses são escravos de seu amor-próprio e não possuem o amor de Deus. Tenhamos muito cuidado em querer sempre só aquilo que Deus quer, e poderemos então estar certos de que o amor de Deus habita em nossos corações.
Acostumemo-nos, antes de tudo, a submeter nossa vontade à de Deus nas contrariedadezinhas que ocorrem cada dia. Suportemos, por exemplo, pacientemente uma palavra ofensiva, uma mosca impertinente, o latir de um cão, o apagar da luz e coisas semelhantes. É da máxima importância que nos proponhamos suportar essas pequenas coisas com perfeita resignação à vontade de Deus, já por sobrevirem mais amiudadas vezes pequenos sofrimentos, já porque, de tal modo, adquirimos mais depressa o costume de nos submetermos também, nas coisas mais difíceis, à sua santíssima vontade.
Conformemo-nos, então, à vontade de Deus nos acontecimentos desagradáveis da natureza. Quando está fazendo calor ou frio, quando chove ou faz sol, em uma carestia ou peste, de forma alguma devemos dizer: “Que calor insuportável!”, “Que frio terrível!”, “Que desgraça!”, “Que infelicidade!”, “Que tristes tempos!” Evitemos tal modo de falar, que exprime nossa repugnância contra as determinações da Providência.
Sujeitemo-nos à vontade de Deus também no que se refere a nossos defeitos, quer corporais, quer espirituais: um entendimento vagaroso, memória fraca, miopia, surdez, etc. Se alguém te lançar em rosto tais defeitos, responde-lhe em conformidade com a vontade de Deus: “Foi o Senhor quem nos fez, e não nós a nós mesmos” (Sl 99,3). Nós somos pobres, e devemos nos contentar com a esmola que o Senhor nos dá. Que dirias de um mendigo que se queixasse de não ser tão bela quanto desejava a veste que se lhe deu, ou de não ser tão saborosa como queria a comida recebida? Fiquemos contentes com o que o Senhor nos deu, e não aspiremos a coisas mais altas, pois Deus poderia ter-nos deixado no abismo de nosso nada. Quantos não deveram a sua salvação à falta de agudeza de espírito, de beleza corporal e outros dotes naturais! Quantos, pelo contrário, não se tornaram criminosos e se perderam por causa de seus dotes extraordinários, beleza, nobreza e riqueza! Contentemo-nos com os bens que Deus nos deu — nada mais desejemos. “Prefiro ser o verme mais abjeto seguindo a vontade de Deus”, diz o piedoso Henrique Suso, “a ser um serafim seguindo a minha vontade própria.”
Pratiquemos a conformidade com a vontade de Deus também no tempo da doença e mau-estar. Quem deseja agradar a Deus deve suspirar pelas ocasiões de adquirir suas graças. Cristãos piedosos consideram graças o que o mundo chama desgraças, e tanto mais as prezam quanto mais duras e dolorosas forem essas tais desgraças. Os enfermos que têm de padecer muito e não se conformam com a vontade de Deus são os homens mais dignos de compaixão, não por padecerem, mas porque não sabem avaliar os grandes tesouros que Deus lhes oferece com os sofrimentos. Eles convertem em veneno o que devia servir-lhes de remédio, já que os males do corpo são os remédios mais eficazes para a cura da alma enferma, segundo a expressão do Sábio: “Os males são expelidos pelo livor das feridas” (Prov. 20,30). “Quem no tempo da tribulação e das dores se conforma com a vontade de Deus, caminha com passos ligeiros para a união com Deus”, diz o P. Balthazar Alvarez, “ou move a Deus a unir-se a ele”. Isto mesmo revelou Nosso Senhor a Santa Gertrudes, dizendo-lhe que, quando vê uma alma afligida, sente-se atraído por ela, experimentando uma grande alegria em estar com os doentes e com os que sofrem. Se, pois, estivermos doentes, podemos e até devemos usar dos remédios que o médico nos prescrever, porque Deus o quer, mas devemos igualmente entregar tudo à vontade de Deus. Podemos pedir-lhe a saúde, na intenção de empregá-la em seu serviço, mas com inteiro abandono em suas mãos, para que faça conosco o que lhe aprouver: é este o melhor meio de readquirir de Deus a saúde. Quem procura, em suas orações, a si mesmo em vez de Deus, não será atendido; quem, pelo contrário, só tem em vista, nas suas orações, Deus e sua vontade, obterá tudo. “Eu procurei o Senhor, e Ele me atendeu” (Sl 33,5). Possuímos um remédio excelente contra todas as enfermidades nas palavras: Senhor, faça-se a vossa vontade.
Submete-te, portanto, quando te sobrevier alguma doença, à vontade de Deus, e mostra-te pronto a sofrer tudo que Ele te enviar; une-te a Jesus na cruz e não queiras descer dela enquanto Lhe aprouver ver-te nela; resolve-te a morrer ali, se for essa a sua santíssima vontade. Deves ter sempre em vista teu Salvador crucificado; padecerás com muito maior resignação, pois, se comparares tuas dores com as que Jesus sofreu por teu amor, parecer-te-ão insignificantes e toleráveis.
Quanto se enganam os que dizem desejar a saúde, não para se verem livres de seus sofrimentos, mas para melhor poderem servir ao Senhor, para irem à igreja, receberem a comunhão, fazerem penitência, estudarem e trabalharem. Mas por que desejas fazer essas coisas? — pergunto-te. Para agradar a Deus, respondes. Mas, se não é vontade de Deus que te entregues à meditação, que recebas amiúde a santa comunhão, que pratiques obras de penitência, te consagres ao estudo ou te preocupes com qualquer outra coisa, mas sim que suportes paciente e resignadamente as doenças e dores que Ele te envia — que queres mais?
Se, presos ao leito de dores, quisermos agradar a Deus, digamos simplesmente estas palavras do Senhor: “Seja feita a vossa vontade”, e tornemos a repeti-las cem, mil vezes, ou, antes, sem interrupção, visto que assim agradamos mais a Deus do que praticando toda espécie de mortificações e devoções. O melhor modo de servir a Deus é conformar-se alegremente com sua vontade.
O tempo da doença é a pedra de toque dos espíritos, pois exatamente nesse tempo vem à luz quem possui, na realidade, a virtude. Se alguém suportar a enfermidade sem perder a tranquilidade, sem se queixar ou desejar alguma coisa, se obedecer ao médico e aos seus superiores, se se entregar inteiramente à vontade de Deus, pode-se dizer, sem perigo de errar, que possui verdadeira virtude. O contrário deve-se dizer do doente que se queixa ora do mau tratamento, ora de dores intoleráveis, ora da ineficácia dos remédios, ora da ignorância dos médicos e até do próprio Deus, que o trata mui rigorosamente.
Pode-se ouvir, às vezes, da boca de alguns cristãos palavras como estas: De boa vontade aceito todas as dores e cruzes que Deus me enviar por suas próprias mãos; mas como poderei suportar com ânimo tranquilo o mau trato da parte dos outros e suas injustas perseguições? É certo que quem me persegue peca, e Deus não quer o pecado. Logo, não é vontade de Deus que eu sofra isso! A isso respondo: Não sabes, querido amigo, que “tudo provém de Deus, os bens e os males, a vida e a morte, a pobreza e a riqueza?” (Eccl. 11,14). O Senhor não quer o pecado daquele que te persegue, mas quer que sofras essa perseguição injusta e, nesse sentido, é Ele mesmo quem ta envia.
Quando o piedoso Jó foi privado de todos os seus haveres, Deus não queria o crime dos ladrões, mas que Jó suportasse essa perda. Por isso exclamou Jó: “O Senhor mo deu, o Senhor mo tirou; como aprouve ao Senhor, assim se deu: bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1,21). A este respeito nota Santo Agostinho: “Jó não diz: o Senhor mo deu e o demônio mo tirou, mas o Senhor mo deu, o Senhor mo tirou”.
Da mesma forma, Nosso Senhor não queria o pecado dos judeus que crucificaram a Jesus e, afinal, disse o Salvador a São Pedro: “Não deverei beber o cálice que meu Pai me deu?” (Jo 18,11). Com isso deu a entender que a morte que os judeus haviam de infligir-Lhe era-Lhe enviada por Seu Eterno Pai.
São Doroteu diz que quem se vinga por causa de agravos sofridos, assemelha-se aos cães, que correm atrás da pedra que os feriu, sem olhar para a mão que a atirou. Nos ultrajes todos que recebemos dos outros, devemos olhar para a mão de Deus, que nolos envia para que nos conformemos com sua santíssima vontade.
De modo particular, devemos nos submeter prontamente à vontade de Deus no tempo da aridez espiritual. Se em tal estado não pudermos fazer coisa alguma, procuremos ao menos, nessas trevas espirituais, nos aniquilar diante de Deus e entregar-nos por completo em seus braços, confessando a nossa miséria, como uma pedra que se desprende de um monte para rolar morro abaixo, sem saber para onde vai. Quer envoltos em trevas, quer banhados em luz, devemos repetir sempre: Conduzi-me, Senhor, pela vereda que vos aprouver; fazei somente que eu cumpra a vossa vontade, e nada mais desejo.
O que se disse da aridez de espírito vale também das tentações. É verdade que devemos evitar, quanto está em nosso poder, as tentações; quando Deus, porém, permite que sejamos tentados a respeito da fé, da castidade ou de qualquer outra virtude, não devemos nos queixar disso, mas conformar-nos também então com a vontade divina. “Minha graça te é suficiente” (II Cor. 12,9), disse o Senhor a S. Paulo, quando lhe suplicou que o livrasse das tentações impuras. Digamos também, ao ver que Deus não atende às nossas súplicas: Fazei, Senhor, tudo, e tudo permiti que vos aprouver; assisti-me unicamente para não perder a vossa graça, que ela só me basta.
Não é a tentação, mas o consentimento nella que nos priva da graça de Deus. As tentações, quando lhes resistimos, tornam-nos humildes, aumentam nossos merecimentos e obrigam-nos a recorrer mais repetidas vezes a Deus, offendendo-o assim mais raras vezes, antes progredindo no seu santo amor.
Mesmo quanto à medida da graça e ao grau da glória futura, devemos nos conformar com a vontade de Deus. É verdade que devemos estar possuídos do desejo de amar mais a Deus que os mesmos serafins; mas, mesmo assim, devemos nos contentar de boa mente com o grau de amor que Deus nos destinou. Não resta dúvida que devemos empregar todos os nossos esforços para adquirir a perfeição; mas, novamente, se cairmos em alguma falta, não devemos perder a paz da alma e a conformidade com a vontade de Deus, que isso permitiu; antes, sem perder a coragem, devemos nos levantar incontinenti, arrepender-nos de nossos pecados, pedir a Deus maiores graças e continuar tranquilamente o nosso caminho.
Apesar de nos ser lícito desejar receber no céu um lugar entre os serafins, não para gozar de uma glória maior, mas para melhor amar e glorificar a Deus, contudo, devemos nos conformar com suas santas disposições quanto à medida do amor e grau de glória que nos caberá em partilha.
Alguns, que leram livros de mística, aspiram àquela união extraordinária com Deus, chamada união passiva; porém, eu desejaria muito mais que aspirassem à união ativa, isto é, à perfeita conformidade com a vontade de Deus, na qual se realiza a verdadeira união da alma com Deus, segundo Santa Teresa (Fund. c. 5). Se morrermos a nós mesmos, se renunciarmos satisfazer aos nossos próprios desejos, para que a vontade de Deus viva e impere soberana em nós, realizar-se-á em nós a palavra do Apóstolo: “Vivo eu, não porém eu, Cristo é que vive em mim” (Gal. 2, 20).
Seria uma grande falta desejar êxtases, visões, revelações e coisas semelhantes. Os mestres da vida espiritual chegam mesmo a dizer que quem se vê enriquecido com tais graças deveria pedir a Deus que lhas retirasse, para que o possa amar no caminho comum da fé, que é o mais seguro. Muitos santos alcançaram a perfeição sem essas graças extraordinárias; somente as virtudes e, em especial, a conformidade com a vontade de Deus nos tornam santos. Se, pois, não aprouver ao Senhor nos elevar a um alto grau de perfeição e glória, entreguemo-nos à sua santa vontade e roguemos-lhe que nos conceda a bem-aventurança ao menos por misericórdia. Se assim procedermos, não será pequena a recompensa que, em sua bondade, nos concederá, visto que Ele ama sobremaneira as almas que se conformam com sua santa vontade.
Assim também devemos suportar resignados, conforme a vontade de Deus, a morte de nossos pais, filhos, benfeitores e amigos. Se me disseres que isso muito te custa, por te parecer castigo de Deus, pergunto-te: não são talvez os castigos que Deus nos envia nesta vida outras tantas graças e favores? Se ofendemos a Deus de qualquer maneira, devemos satisfazer à sua justiça, ou nesta ou noutra vida. Digamos, pois, com Santo Agostinho: “Aqui queimai, aqui cortai, não me poupeis aqui, Senhor, mas na eternidade” (Serm. 70, c. 2, n. 2). Devemos, a exemplo do piedoso Jó, encontrar um objeto de consolação nos sofrimentos desta vida: “Esta seja a minha consolação: que me não poupe, afligindo-me com dores” (Jó 6,10). De fato, para quem mereceu o inferno, deve ser consolação ver que Deus o castiga desta maneira, podendo daí concluir, com toda a confiança, que Deus o quer preservar das penas eternas. Imitemos neste ponto o sumo sacerdote Heli, exclamando com ele: “Ele é o Senhor, faça o que parecer bem a seus olhos” (I Rs 3,18).
Finalmente, devemos aceitar das mãos de Deus, com toda a resignação, a nossa própria morte. O Venerável Luís de Blois nos assegura que quem faz um ato de perfeita conformidade com a vontade de Deus na hora da morte será preservado, não só do inferno, mas até do purgatório, mesmo que tivesse cometido todos os pecados imagináveis; pois quem aceita a morte com perfeita resignação alcança um mérito semelhante ao dos santos mártires, que sacrificaram voluntariamente sua vida por amor de Jesus Cristo.
Além disso, quem está inteiramente conformado com a vontade de Deus morre tranquila e alegremente, mesmo tendo de suportar as maiores dores.
Quanto à espécie de morte, devemos estar convencidos de que a que Nosso Senhor nos destinou é a melhor para nós. Todas as vezes que pensarmos na morte, devemos dizer: “Senhor, deixai-me morrer como vos aprouver; dai-me unicamente a bem-aventurança.”
Também quanto ao tempo de nossa morte, devemos nos submeter por completo à vontade de Deus.
Este mundo nada mais é que uma prisão, na qual padecemos e nos achamos a cada instante no perigo de perder a Deus. Por isso exclamava o Rei-Profeta: “Arrancai do cárcere a minha alma” (Sl 141, 8).
Compenetrada dos mesmos sentimentos, sem interrupção suspirava Santa Teresa pela morte e, ouvindo o relógio dar as horas, alegrava-se, pensando que passara mais uma hora de sua vida e, com isso, mais uma hora de perigo de perder a Deus.
Segundo o Venerável João d’Ávila, deve desejar a morte cada homem que de algum modo está preparado para ela, visto que nos achamos continuamente em grande perigo de perder a graça de Deus. Por uma morte feliz, alcançamos a certeza de não perdermos jamais a amizade de Deus. Ora, que coisa existe mais preciosa e desejável que essa certeza?
Talvez digas: Eu, porém, nada fiz até agora, nada adquiri para a minha alma. Respondo: Se Deus quer que morras agora, que bem poderás fazer se viveres contra sua vontade? E quem sabe se, depois, terás uma morte tão feliz como podes atualmente esperar ter? Quem sabe se não mudarás de sentimentos, caindo em muitos pecados e perdendo-te eternamente?
Devemos nos compenetrar da verdade de que tudo o que nos acontece e nos sucederá no futuro nos vem da mão de Deus. Em todas as nossas ações, devemos ter diante dos olhos, como nosso fim único, o cumprimento da santa vontade de Deus. Tudo o que fizermos deve ser feito unicamente porque Deus o quer. Se assim procedermos, certissimamente nos faremos santos.faremos santos.
Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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