Da Maneira de Exercer o Amor de Deus

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Quem ama, alegra-se com a felicidade da pessoa amada. É esse o amor chamado de complacência. Regozija-te, pois, muitas vezes, alma cristã, da felicidade infinita de teu Deus, mesmo mais do que se fosse tua, já que deves amar o teu divino Esposo mais que a ti mesmo. Tua maior alegria deve consistir em pensar que nada falta a teu divino Salvador para ser infinita e eternamente feliz. Alegra-te também com o pensamento de que tantos milhões de anjos e santos, no Céu, o amam do modo mais perfeito possível. Compraze-te igualmente ouvindo que uma alma tem um grande amor a Jesus Cristo.

Quem ama, deseja que o objeto de seu amor seja por todos amado. É o amor de benevolência, que, igualmente, deves exercer, desejando ardentemente que Jesus seja amado por todos os homens. Para isso, deves falar muitas vezes do amor de Deus, para acender o fogo do amor divino nos corações das pessoas com quem falas. Deves desejar que teu divino Esposo seja conhecido e amado por todos os que ainda não o conhecem nem o amam. Deves sentir grande dor ao ver que Ele é tão desprezado por tantos infelizes. Será uma esposa amante a que insensivelmente vê seu esposo injuriado e maltratado? Quanto, pois, não te devem afligir e doer as ofensas pessoais que cometeste contra teu Deus? Continuamente deves te arrepender disso, com o que exercerás o amor chamado doloroso.

Quem ama, prefere o objeto de seu amor a todas as outras coisas. Este é o amor de preferência, que Deus de nós exige de modo especial. Devemos estar prontos a sermos antes despojados de todos os bens que perder a graça divina. Exige, talvez, Deus muito, se requer que o prefiramos a todos os bens deste mundo? Que são eles em comparação com Deus? Deveríamos propriamente nos envergonhar de dizer: Senhor, eu vos amo mais que todas as outras coisas, já que isso é o mesmo que declarar: Senhor, eu vos tenho em maior consideração que a palha e o lodo. E, contudo, Nosso Senhor contenta-se se o amamos mais que às criaturas, apesar de serem elas, a Ele comparadas, ainda inferiores à palha e ao lodo. O Padre Vicente Carafa, da Companhia de Jesus, dizia que, se possuísse o mundo inteiro, só o nome de Jesus bastaria para movê-lo a tudo renunciar incontinenti. De nossa parte, devemos estar sempre prontos a antes sacrificar tudo que possuímos — nossos bens, nossa honra, nossa própria vida — que perder a Deus. Com São Paulo devemos dizer: “Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a força, nem o que há de mais sublime ou de mais profundo, nem outra criatura alguma nos poderá separar do amor de Deus, que é em Jesus Cristo, Senhor Nosso” (Rom. 8,38).

Quem ama, não recusa padecer pela pessoa amada; antes, alegra-se com isso, dando-lhe assim uma prova certa de seu amor. É este o amor de sofrimento ou padecente, de que o divino Salvador é o modelo mais perfeito. Quem possui este amor suspira sempre pelas ocasiões de padecer alguma coisa por Deus. As tribulações abrem às almas amantes o caminho da união com Deus e aumentam o amor que a Ele as prende. “Quem se entrega à vontade de Deus, no tempo das aflições, se aproxima d’Ele com passos acelerados”, diz o Padre Balthazar Alvarez. Tudo o que sobrevém às almas amantes de Deus, quer seja alegre, quer triste, serve para uni-las mais estreitamente a Ele. “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus” (Rom. 8,28). Disse uma vez o Senhor a Santa Gertrudes: “Com o mesmo amor com que criei o homem, dirijo tudo o que lhe envio para o seu maior bem, quer seja felicidade, quer infelicidade.” Ama, pois, alma cristã, a teu divino Esposo, tanto nos acontecimentos tristes como nos alegres. Segundo São Francisco de Sales, é o Senhor tão amável e amoroso quando te envia aflições como quando te envia consolações, visto que em tudo visa unicamente teu maior bem. Em particular, deves cuidar em te conservar unido a Deus no tempo da enfermidade; precisamente nessa ocasião deve mostrar-se se alguém possui em verdade o amor de Deus.

Quem ama, pensa sempre no objeto amado. É o amor afetivo. Uma alma que ama a Deus entretém-se ininterruptamente, em seus pensamentos, com Ele, e patenteia a todo instante o seu amor para com Ele por meio de suspiros amorosos e ferventes jaculatórias. Cuida, pois, de dia como de noite, em dizer a teu Salvador, quer estejas só ou em companhia de outrem: “Ó meu Deus, nada desejo fora de Vós; sacrifico-me inteira e irrevogavelmente a Vós. Quero tudo o que quereis. Fazei de mim o que Vos aprouver.” Basta dizeres: “Meu Deus, eu Vos amo”, ou: “Meu amor, meu tudo.”

Quem ama, trabalha incessantemente pela pessoa amada. É o amor afetivo ou operativo. O amor não se contenta com simples afetos do coração, mas exige obras. Alguns são só amigos de nome; dizem sempre: “Meu amigo, és senhor de tudo o que eu tenho”; mas, na realidade, nada dão, ou só muitíssimo pouco. Outros, que são realmente amigos, dão antes o que possuem de melhor e ainda oferecem o restante.

Se quisermos nos entregar sem restrição a Deus, devemos nos despojar de todas as coisas terrenas em que se prende o nosso coração, e formar o propósito de submeter a Deus todas as nossas inclinações, renunciar à nossa própria honra e consentir que sobre nós venham desprezos e zombarias. Uma alma assim disposta caminha com segurança: toda a sua confiança está em Deus, e está pronta a suportar todas as contrariedades; tudo faz com pura intenção, sentindo-se sempre levada a implorar o auxílio de Jesus e Maria para a execução de seus propósitos, tendo só em vista, em todas as coisas, a complacência e o agrado de Deus.

Se no caminho encontra dificuldades, sua resolução dá-lhe ânimo para exclamar: “Só uma coisa desejo: o que agrada a Deus, ainda que isso me custe a vida.” Se cai em alguma falta, essa sua disposição a reergue e a anima pela esperança de proceder melhor outra vez. Uma tal resolução, porém, de tantas consequências, deve ser renovada muitas vezes, por exemplo: de manhã, depois da meditação, da santa comunhão, durante a visita ao SS. Sacramento.

De manhã, ao levantar-se, diga-se:
“Ó meu Deus, eu me entrego de novo inteira e irrevogavelmente a Vós; prometo-vos fazer sempre o que me pareça ser-Vos mais agradável. Uno este meu sacrifício ao que fizestes de vossa própria pessoa a vosso Pai celestial; dai-me a graça de vos permanecer inviolavelmente fiel; vossa paixão é minha esperança; deponho toda a minha confiança em vossas promessas e em vosso amor.
Ó Maria, minha Mãe, rogai a Jesus por mim; alcançai-me a perseverança no amor de vosso divino Filho.”

Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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