Santa Teresa diz que é uma graça extraordinária ser chamado ao amor perfeito de Deus. Ora, tu pertences ao número desses felizes. Para te consagrares, porém, ao inteiro amor de tão divino Esposo, deves usar magnanimamente dos meios de que necessitas para atingir esse fim.
O primeiro meio é um desejo ardente desse amor perfeito. Com esse desejo está dado um grande passo, pois Deus comunica suas graças com abundância só àqueles que delas sentem uma grande fome, como nos ensina a Santíssima Virgem no seu cântico admirável: «Encheu de bens os que tinham fome» (Luc. 1,53). Este desejo é-nos ainda imperiosamente necessário, porque, sem ele, não nos submeteremos com perseverança aos esforços que devemos fazer para adquirirmos o grande tesouro do amor divino; pois pouco nos esforçamos para conseguir uma coisa que pouco desejamos, ao passo que todo o trabalho nos parece leve e doce, quando desejamos ardentemente algum bem.
Por isso o Salvador denomina felizes os que têm fome, isto é, um grande desejo de santidade: «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça» (Mat. 5,6).
O segundo meio para alcançar o perfeito amor de Deus é renunciar a todo o outro amor que não se refere a Deus. Deus quer possuir sozinho o nosso coração e não tolera ninguém junto a Si. Santo Agostinho refere que o senado romano, sem dificuldade, aprovou o culto a trinta mil deuses, mas não quis reconhecer o culto ao Deus dos cristãos, por ser Ele, conforme afirmava, um Deus cioso, que quer ser adorado com exclusão de todos os outros deuses.
Ora, com toda a razão exige nosso Deus essa adoração exclusiva, porque é Ele o único e verdadeiro Deus, e também o único que nos ama verdadeiramente e, por isso, não é para admirar que exija que O amemos com amor indiviso. Se quisermos, pois, alcançar o perfeito amor de Deus, devemos expelir de nosso coração toda a afeição que não tenha a Deus por objeto. São Francisco de Sales, que vivia abrasado por completo no amor divino, dizia: «Se eu conhecesse uma única fibra de meu coração que não fosse de Deus, em Deus e para Deus, arrancá-la-ia imediatamente».
Enquanto nosso coração não estiver despojado de inclinações terrestres, não pode o amor de Deus nele se alojar; logo que se desprender, porém, das criaturas, acender-se-á nele o fogo do amor divino e aumentar-se-á de instante a instante. Santa Teresa costumava dizer: «Desapega teu coração das criaturas e procura a Deus, que imediatamente O encontrarás». O Senhor não pode retrair-se àquele que O busca. «Bom é o Senhor para a alma que O busca» (Jer. 5,25). «Ele se entrega totalmente àquele que deixa tudo por amor d’Ele» (Thren.). Ele mesmo disse um dia a Santa Teresa: «Agora, que és inteiramente minha, serei também totalmente teu». É o que dirá também a ti, alma cristã, se te desprenderes de tudo para pertenceres inteira e exclusivamente a Ele. O Padre Segneri, o moço, escreveu uma vez a uma pessoa piedosa: «A caridade divina é uma ladra bemfazeja que nos despoja de todas as inclinações terrestres, de tal forma que a alma pode dizer a seu amado Esposo: Que desejo eu fora de Ti?» São Francisco de Sales exprime-se de modo semelhante: «O amor puro de Deus consome tudo que não é Deus, para transformar tudo em amor, pois tudo que se faz por Deus é amor» (Cartas 131.203).
Quem, portanto, desejar ver seu coração cheio de amor divino deve, primeiramente, expelir dele todas as inclinações terrenas. Nisso deve imitar São Paulo, que considerava todas as coisas deste mundo como lôdo para alcançar o amor de Jesus Cristo: «Eu considero tudo como esterco, para ganhar a Cristo» (Fil. 3,8). Peçamos ao Espírito Santo que nos ilumine com sua graça, porque então desprezaremos todas as riquezas, alegrias, honras e dignidades deste mundo, que é a causa da perdição da maior parte dos homens e que, afinal, não passam de vaidades e ninharias.
O amor de Deus, apossando-se de um coração, este não aprecia mais o que o mundo preza. «Se o homem der todos os seus bens em troca do amor, reputar-se-á isso como nada» (Cant. 8,7). Quando uma casa se incendeia, diz São Francisco de Sales, joga-se tudo pela janela fora; isto é, logo que um coração se abrasa no amor divino, procura, por si mesmo, sem admoestação alheia, desprender-se de todas as coisas terrenas e não amar coisa alguma fora de Deus. Um coração que ama sinceramente a Deus acha duro e insuportável dividir seu amor entre Deus e o mundo, e não poderá amar ao mesmo tempo a Deus e às criaturas. Segundo São Bernardo, o amor divino é incompatível com qualquer outro amor, já que Deus não permite em um coração qualquer comparte de seu amor, mas quer possuí-lo sozinho. Porventura exige Deus muito, querendo ser amado exclusivamente? Não, responde São Boaventura: Deus, a suma amabilidade, a infinita bondade, que merece um amor infinito, exige, com todo o direito, que um coração, criado expressamente para amá-lo, lhe pertença de fato, sem restrição, tanto que Deus se sacrificou inteiramente por esse coração, para se tornar seu único possuidor.
Cuidemos, pois, de não prender nosso coração às criaturas, para que ele ame exclusivamente a Deus. Numa palavra, devemos nos tornar «jardins fechados», à semelhança da esposa dos Cânticos: «És um jardim fechado, minha irmã» (Cant. 4,12). Um jardim fechado é a alma que é inacessível a afeições terrenas. Grande é a felicidade de uma alma, diz São Gregório, que acha intolerável todo o amor que não é de Deus. Se uma certa criatura quiser arrebatar o nosso coração, devemos impedir-lhe a entrada e dizer a Jesus: Ó Jesus, vós só me bastais, não quero amar outra coisa fora de vós. «Deus de meu coração e minha partilha por toda a eternidade» (Sl. 72,26): vós deveis ser o único Senhor de meu coração e meu único amor.
Em terceiro lugar, para se alcançar o perfeito amor de Deus, é preciso abnegar-se a si mesmo, abraçando de boa vontade o que contraria ao amor-próprio e recusando-se-lhe o que ele deseja. Santa Teresa, achando-se doente, por todo um mês foi-lhe servida uma comida saborosa; ela, porém, a rejeitou e, instada pela enfermeira a prová-la, por estar muito bem preparada, respondeu-lhe a santa: Pois é justamente por isso que me privo dela. É o que devemos também fazer: rejeitar as coisas que nos agradam, exatamente por nos serem agradáveis. Por exemplo, devemos desviar nossos olhos deste ou daquele objeto, justamente por ser belo; abster-nos deste ou daquele divertimento, exatamente porque achamos gosto nele; prestar serviços a uma pessoa ingrata, precisamente por ser ela ingrata; tomar um remédio amargo, por isso mesmo que ele é amargo.
Segundo São Francisco de Sales, nosso amor-próprio deseja se ingerir em tudo, mesmo nas coisas santas; ele faz-nos crer que nada é bom se aí não encontrar satisfação. Por isso devemos amar a própria virtude sem apego, diz o mesmo Santo. Assim, devemos amar a oração e a solidão, mas, quando a obediência ou a caridade para com o próximo nos põem obstáculos a uma e a outra, não devemos nos inquietar com isso, mas, conformados com a vontade de Deus, aceitar tudo o que nos sucede contra as nossas inclinações. O venerável Padre Balthazar Alvarez costumava dizer que Deus permite muitas vezes que as criaturas nos desprezem e abandonem para que nos voltemos a Ele. Nós, porém, alma cristã, não queremos esperar até que as criaturas nos deixem; não, nós renunciamos a elas imediatamente e nos entregamos por completo a Deus.
O quarto meio para se adquirir um perfeito amor de Deus é a assídua meditação da Paixão de Jesus Christo. Santa Magdalena de Pazzi dizia que quem por completo se deu ao amor de Jesus Crucificado deve ter, em todas as suas ações, as vistas voltadas para a cruz, ocupando-se unicamente com a meditação do amor infinito que Jesus Christo lhe testemunhou. Se alguém tivesse suportado, por amor de seu amigo, injúrias, pancadas e prisão, que satisfação não sentiria, sabendo que seu amigo o reconhece e pensa muitas vezes nisso! Se, pelo contrário, esse amigo, todas as vezes que se tocasse nesse assunto, mudasse de conversa e nem sequer gostasse de pensar nessa prova de amor, que dor e desgosto não causaria a seu amigo e benfeitor uma tal ingratidão! Pois é exatamente o que fazem Jesus sofrer aquelas almas que pouco pensam nas dores e opróbrios que Ele sofreu por amor delas, ao passo que muita satisfação Lhe causam os que amiúde pensam e meditam na sua Paixão.
Parece que o divino Salvador quis padecer tantas e tão diversas penas e contumélias — como prisão, bofetadas, flagelação, coroação de espinhos, escárneos e crucificação — para oferecer às almas que Lhe são caras diversos mystérios à meditação. Por isso, vemo-Lo coberto de suor de sangue no jardim das Oliveiras, preso com cordas por soldados brutos, apupado e revestido de branco como louco, dilacerado pelos açoites, coroado de espinhos como um rei de zombarias e dôres, conduzido à morte com a cruz às costas, pregado nela com três cravos e ainda traspassado com uma lança depois da morte.
Contudo, não devemos meditar a paixão de Christo para haurir daí consolação e doçuras espirituaes, mas para nos inflammar no amor de nosso divino Salvador, e nos animar a fazer o que de nós exige, e declarar-nos promptos a soffrer tudo com paciência, por amor d’Elle, que tanto soffreu por nosso amor.
O Senhor revelou a um eremita que não há oração mais própria para accender o fogo do amor de Deus em nossos corações que a meditação de sua dolorosa paixão. Por isso, os santos tomaram por objecto de suas meditações contínuas os soffrimentos de Jesus, e com isso tornou-se, por exemplo, um S. Francisco de Assis, um seraphim. Encontrou-o uma vez alguém banhado em lagrimas e soltando sentidos suspiros e, perguntado pelo motivo de sua tristeza, respondeu: Choro por causa das dôres e injúrias irrogadas a meu divino Mestre; mais, porém, me afflige o pensar que os homens, por quem tanto padeceu, nem sequer cogitam em suas dôres. Ao dizer isto, mais abundantes correram-lhe as lagrimas, vendo-se a tal pessoa obrigada a chorar com elle. Ao ouvir o santo um cordeiro balar, ou vendo qualquer coisa que lhe trazia à memória seu Jesus padecendo, começava immediatamente a derramar lagrimas. Achando-se uma vez doente, e aconselhado a ler um livro edificante, respondeu: Meu livro é Jesus Crucificado. Exhortava continuamente a seus irmãos que meditassem na paixão dolorosa de Jesus. Quem não se sentir abrasado no amor de Deus, considerando a Jesus moribundo na cruz, nunca chegará a amal-o seriamente.
O quinto meio para alcançar o grande thesouro do amor de Deus é a oração. A alma christã deve, por isso, exclamar continuamente: Ó meu Jesus, dai-me o vosso santo amor. Ó Maria, alcançai-me o amor de Deus. Ó santo Anjo de minha guarda, ó meus santos Padroeiros, alcançai-me o amor de Deus.
Basta que pronuncies a palavra — amor —; Deus sempre a ouvirá com gosto e te inspirará sempre um pensamento piedoso, accenderá em teu coração uma nova chamma de amor e santos desejos. O Senhor é muito liberal na distribuição de seus dons; com gosto especial, porém, concede seu santo amor a quem o pede, já que seu mais ardente desejo é vê-lo arder em nossos corações. Devemos supplicar-lhe não tanto um amor terno, como um amor forte, um amor com o qual vençamos todo o respeito humano e toda a resistência do amor proprio, tornando-nos promptos a executar, sem demora, tudo o que lhe apráz.
Acostuma-te, portanto, alma cristã, a procurar em tudo, mesmo nas coisas mais insignificantes, o maior agrado de Deus, visto que, assim, te habilitas para grandes coisas. E, se temes não possuir força suficiente para te venceres em uma coisa grave, põe tua confiança em Deus e dize: “Tudo posso naquele que me conforta.”
Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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