O primeiro e principal mandamento que o Senhor nos deu exige que O amemos de todo o coração: “Amarás ao Senhor teu Deus, de todo o teu coração” (Dt 6,5). Já que Deus nos ama ternamente, deseja que também nós O amemos sinceramente; requer mesmo com instância o nosso amor e quer possuir todo o nosso coração: “Meu filho, dá-Me o teu coração” (Pr 23,26). “Que outra coisa deseja o Senhor teu Deus de ti, senão que O respeites, trilhes os Seus caminhos, O ames e O sirvas de todo o teu coração e de toda a tua alma?” (Dt 10,13).
No Antigo Testamento mandou o Senhor que o fogo em Seu altar fosse conservado sem interrupção. Esse altar — diz São Gregório — simboliza nosso coração, no qual deve arder continuamente o fogo do amor divino, conforme o preceito do Senhor. Por isso, ao preceito de amá-Lo de todo o coração, ajunta Deus a exortação: “E as palavras que hoje te dirijo devem viver em teu coração: deves meditá-las quando estiveres sentado em tua casa, e te achares em viagem, ao te deitares e ao levantares; deves trazê-las como um sinal em tuas mãos, devem pairar diante de teus olhos, escrevê-las nas portas e soleiras de tua casa” (Dt 6,5), para sempre te recordares delas e não deixares de orientar por elas as tuas ações. Como recompensa de nosso amor, Deus nos prometeu entregar-Se inteiramente a nós: “Eu sou teu protetor e tua recompensa imensamente grande” — disse Ele a Abraão (Gn 15,1). Os príncipes deste mundo recompensam seus vassalos fiéis com terras, honras e privilégios; Deus, porém, dá-Se a Si mesmo àqueles que O amam. Já seríamos suficientemente recompensados com a só certeza de que Deus ama os que O amam, como tantas vezes atesta nas Escrituras: “Eu amo os que Me amam” (Pr 8,17). “Quem permanece no amor, permanece em Deus, e Deus nele” (1Jo 4,16). “Quem Me ama é amado por Meu Pai, e Eu também o amarei” (Jo 14,21); e, afinal, Ele chega até ao ponto de Se dar todo a nós em recompensa.
Se soubéssemos que, em uma terra longínqua, vive um príncipe belo, santo, sábio, amável e misericordioso, certamente o amaríamos, mesmo que não nos tivesse feito bem algum. Que serão, porém, todas essas excelentes qualidades de um tal príncipe em comparação com as de Deus? Deus possui toda a perfeição em grau infinito. Haverá, talvez, um objeto mais nobre, mais magnífico, mais poderoso, mais rico, melhor, mais belo, mais terno, mais grato, mais amável e mais amoroso, mais digno do amor de nosso coração que nosso Deus? Quem é mais nobre que Deus? Os grandes deste mundo se ufanam se sua nobreza ascende a quinhentos ou mil anos; a nobreza de Deus, porém, é eterna. Quem é superior a Deus? Ele é o Senhor de todas as coisas; os anjos do Céu e os grandes da terra são, diante d’Ele, como uma gota de orvalho, como um exíguo pó (Is 40,15). O mundo recebeu o ser com um simples aceno Seu, e com outro será aniquilado. Quem é mais rico que Deus? Ele possui todos os tesouros do Céu e da terra. Quem é mais belo que Deus? Ante Sua magnificência desaparece toda a beleza das criaturas. Quem é mais benfazejo que Deus? Santo Agostinho diz que o empenho de Deus em nos fazer benefícios é maior que o nosso desejo de recebê-los. Quem é mais misericordioso que Deus? Mal um pecador se humilha diante d’Ele e se arrepende de seus pecados, já lhe perdoa e o recebe novamente, mesmo que tenha sido o homem mais abominável do mundo. Quem é mais reconhecido que Deus? Nunca deixa sem recompensa a mínima coisa que fazemos por Seu amor. Quem é mais amável que Deus? Só Sua vista já causa tal alegria aos santos no Céu, que por toda a eternidade se sentem plenamente felizes, sendo a maior pena dos condenados o não poderem amá-Lo, conhecendo a Sua amabilidade infinita.
Devemos, pois, amar a Deus de todo o coração, porque Ele é digno, por Si mesmo, de todo o amor. Donde se conclui ainda que Deus, pelo grande amor que nos consagra, merece toda a nossa gratidão. Se pudéssemos reunir em um só coração o amor de todos os anjos, santos e homens juntos, o amor desse coração não se poderia comparar com a mínima parcela do amor que Deus dedica a uma única alma.
São João Crisóstomo diz que Deus nos ama mais do que nós mesmos nos podemos amar. “Com amor eterno Eu te amei” (Jr 31,3) — diz Nosso Senhor a cada um de nós. Os que primeiro nos amaram foram nossos pais; eles, porém, começaram a amar-nos só depois que nós existimos. Deus nos amou já antes de possuirmos o ser; ainda não existiam nossos pais, e já Deus nos amava; amava-nos já antes de existir o mundo. E desde quando? Não podemos contar os anos e os séculos, porque nos amou desde toda a eternidade, desde que Ele é Deus, desde que ama a Si mesmo. Tinha, pois, razão de responder, aos que pretendiam o seu amor, a heróica Inês: “Um outro Amante já vos precedeu.” Não, ó mundo, não, ó criaturas, eu não posso vos amar; já que Deus me amou primeiro, é justo que eu Lhe consagre meu coração inteiro!
Deus nos amou desde que Ele é Deus. Por puro amor nos tirou do nada, nos escolheu e nos colocou no mundo, podendo dar a existência a uma infinidade de outras criaturas que não criou. Por nosso amor criou o céu, as estrelas, os montes, os mares, as fontes e todas as outras coisas que admiramos no mundo. Para nosso proveito foram todas essas criaturas tiradas do nada, para que possamos amar a Deus por gratidão. “Céus e terra” — exclama Santo Agostinho — “e todas as coisas que vejo na terra e no céu me falam e me convidam a amar-Te, ó Deus; todas me dizem que as criaste por meu amor.” O abade Rancé, fundador dos Trapistas, ao considerar de sua cela as colinas, as fontes, os pássaros, as estrelas, o céu, e ao pensar que Deus tinha criado tudo isso para lhe patentear o Seu amor, sentia seu coração todo inflamado de amor por Ele. Santa Maria Madalena de Pazzi ficava igualmente toda arrebatada de amor pela só vista de uma bela flor, e dizia: “O bom Deus pensou, desde toda a eternidade, em criar esta flor para conquistar meu amor.” Santa Teresa costumava dizer, à vista de árvores, fontes, lagos ou prados floridos, que essas belas coisas a acusavam de ingratidão e a repreendiam de seu fraco amor para com seu Criador, que as criara para que ela O amasse.
Deus não se contentou, porém, com dar-nos bens que jaziam fora d’Ele; Seu amor para conosco não se satisfez antes de Se dar a Si mesmo a nós: “Ele nos amou e Se entregou a Si mesmo por nós” (Ef 5,2). A isso O moveu a desgraça em que nos tinha lançado o pecado. O pecado nos havia privado da graça de Deus, excluído do Céu e feito escravos do inferno. Deus nos poderia remir de diversas maneiras; quis, contudo, descer pessoalmente à terra, fazer-Se homem, para nos livrar da morte eterna e nos reconquistar o Céu que perdêramos — certamente um milagre de amor, capaz de encher de pasmo o Céu e a terra. Como não ficaríamos admirados se um rei deste mundo se fizesse escravo por amor a um escravo! Que diríamos, então, se se fizesse um verme por amor a um verme? Ora, infinitamente maior é o amor que o Filho de Deus nos mostrou, fazendo-Se homem por amor de nós: “Ele Se aniquilou a Si mesmo, tomando a forma de escravo, fazendo-Se semelhante aos homens, e sendo reconhecido exteriormente como homem” (Fl 2,7). Tão grande foi o amor que nos teve, que O obrigou a revestir-Se de nossa carne: “E o Verbo Se fez carne” (Jo 1,14).
Maior deve ser ainda a nossa admiração ao vermos quanto fez e padeceu por nós, miseráveis vermes da terra, o Filho de Deus depois de encarnado. Uma única gota de sangue, uma única lágrima derramada por Ele, ou mesmo uma única súplica Sua bastaria para nossa Redenção, porque essa gota de sangue, essa lágrima, essa oração, oferecida pelo Homem-Deus pela nossa salvação, teria um valor infinito e suficiente para remir o mundo inteiro — e até infinitos mundos. Jesus Cristo, porém, não queria apenas remir-nos, mas também tornar-Se o único objeto de nosso amor, comprovando-nos o Seu amor infinito para conosco. Para isso escolheu para Si uma vida penosa e desprezada, que se findou com a mais amarga e ignominiosa morte: “Ele humilhou-Se a Si mesmo e fez-Se obediente até à morte, e mesmo até à morte da cruz” (Fl 2,8). Se o Salvador não fosse Deus, mas um simples homem como nós, e fosse nosso amigo, que mais poderia fazer do que dar a própria vida por nós? “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua vida por seus amigos” (Jo 15,13).
Que dizes a tudo isso, alma cristã? Crês que Jesus morreu por amor de ti? E, se crês, podes ainda amar outra coisa fora d’Ele? Um célebre escritor diz que o homem, antes da Encarnação, poderia duvidar se Deus o amava em verdade; depois, porém, que o Verbo Eterno Se fez homem e morreu por nós, não há mais lugar para essa dúvida, pois o Senhor não poderia patentear mais claramente Seu amor pelo homem do que padecendo tantas dores e desprezos e, finalmente, a morte mais atroz, para nos remir e salvar.
Ah! nós estamos demasiado acostumados a ouvir falar da Encarnação, da Redenção, do nascimento de um Deus em um estábulo, de Sua flagelação, coroação de espinhos, de Sua crucifixão e morte!
Ó santa fé, iluminai-nos e fazei-nos conhecer a grandeza do amor de que Deus nos deu provas, fazendo-Se homem e morrendo por nós!
Se Jesus Cristo não é amado pelos homens, provém isso de não refletirem no amor que lhes dedicou, porque seria impossível pensar nisso e viver sem amá-Lo. “O amor de Cristo nos constrange” — diz São Paulo (2Cor 5,14); isto é, uma alma que considera o amor de Jesus Cristo para com ela se sentirá constrangida a amá-Lo. Os santos, ao meditarem a Paixão do Salvador, abrasavam-se tanto em amor que, às vezes, ficavam fora de si, de pasmo e amor. Santa Maria Madalena de Pazzi, em um êxtase, tomou em suas mãos um crucifixo e exclamou: “Ó Jesus, Vós Vos tornastes louco de amor! Eu o digo e repetirei sempre: Vós Vos tornastes louco de amor, ó meu Jesus!”
Se a fé não nos convencesse da verdade do grande mistério de nossa Redenção, quem poderia julgar possível que o Criador do universo desejasse padecer e morrer por Suas criaturas? Se Jesus não tivesse morrido por nós, quem ousaria exigir de Deus que Ele Se fizesse homem e sofresse a morte para nos remir? Quem não teria por loucura só o pensar nisso? E, de fato, os pagãos, ao ouvirem a pregação da morte de um Deus feito homem, consideravam-na uma fábula e a denominavam incrível loucura. “Nós, porém, pregamos a Jesus Crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gentios” — dizia São Paulo (1Cor 1,23). Sim, diz São Gregório, isso lhes parecia uma loucura porque não podiam imaginar que um Deus, que de ninguém depende, que é infinitamente feliz em Si mesmo, tivesse querido descer à terra, tomar a natureza humana e morrer pelos homens — Suas criaturas miseráveis — a não ser que se afirmasse que tal Deus tinha enlouquecido. E, contudo, é uma verdade da fé que Jesus Cristo, o verdadeiro Filho de Deus, por amor de nós, homens pobres e ingratos, Se entregou aos tormentos, à ignomínia, à morte: “Ele nos amou e Se entregou a Si mesmo por nós” (Ef 5,2).
E por que Jesus Cristo fez tal? “Ele o fez para que o homem conhecesse o amor inefável que Lhe tem” — diz Santo Agostinho (De catech. rud., 4). O divino Salvador nos deu a entender a mesma coisa, dizendo: “Eu vim trazer o fogo à terra, e que desejo Eu senão que ele se inflame?” (Lc 12,49). Quero acender o fogo do amor divino na terra, e não tenho outro desejo senão que os corações dos homens se consumam por essas santas chamas. São Bernardo considera como Jesus Cristo, qual um criminoso, deixa-Se prender pelos soldados, e exclama: “Ó meu Jesus, que tem Vosso santo Corpo com essas cordas e cadeias, já que sois o Rei dos Céus e a santidade mesma? Nós, servos ingratos, nós merecemos ser ligados com elas. Quem Vos pôs em tal estado, qual um malfeitor desprezível e perverso? Quem fez isso? Foi o amor, que se esquece da dignidade quando se trata de ser correspondido.” Deus, pois, que não pode ser vencido por ninguém, foi vencido pelo amor. Seu amor para conosco levou-O a fazer-Se homem e a sacrificar Sua vida em um mar de opróbrios e dores. O mesmo São Bernardo, considerando o divino Mestre diante de Pilatos, dirige-Lhe as seguintes palavras: “Dizei-me, Jesus amado, Vós que sois a inocência mesma, que fizestes para merecer a cruel sentença que Vos condenou à morte da cruz? Ah! eu bem sei a causa de Vossa morte; conheço o crime que praticastes: é o Vosso amor para conosco; não foi Pilatos, mas sim Vosso amor que pronunciou a sentença e Vos deu o golpe mortal.” Com toda a razão, pois, São Francisco de Paula exclamava, à vista do crucifixo: “Ó amor, ó amor, ó amor!”
Oh! se ao menos pensassem os homens, à vista do Salvador crucificado, no amor que Ele lhes tem! “Em que amor não nos sentiríamos abrasar” — diz São Francisco de Sales — “se víssemos as chamas de amor que ardem no Coração do Salvador! Que felicidade para nós se fôssemos consumidos pelo mesmo fogo que devora o nosso Deus! Que alegria para nós se estivéssemos presos pelos laços do amor a nosso bom Deus!” As chagas do Redentor, como diz São Boaventura, deveriam comover os corações mais insensíveis e abrasar em amor as almas mais frias. Quantas setas de amor não partem dessas santas chagas e transpassam os corações mais duros! Quantas chamas não despede o Coração ardente de Jesus para inflamar os corações mais enregelados dos homens!
“Que é o homem, para que o eleves? Ou por que prendes teu coração nele?” — pergunta Jó. Ó meu Deus, que é o homem miserável, para que tanto o honres? Que bem recebeste dele, para estares assim disposto a fazer-lhe benefícios e demonstrar-lhe tanto amor? São Tomás afirma que o amor em que se abrasa o Coração de Deus nos leva quase a pensar que Ele considera o homem como seu deus, e que não pode ser feliz sem que o seja também o homem. Em verdade, alma cristã, se fosses o deus de Jesus, poderia Ele fazer mais por ti do que fez, levando por tantos anos uma vida tão penosa e suportando uma morte tão cruel? E se se tratasse de Jesus salvar a vida de Seu próprio Pai, poderia fazer mais do que fez por ti? Mas, ó meu Deus, onde está a nossa gratidão? Se o último criado nosso tivesse padecido por nós o que o nosso divino Esposo quis sofrer por nosso amor, poderíamos jamais esquecer-nos d’Ele? e viver sem amá-Lo? Ah! cada um de nós, ao considerar a morte de Jesus, deveria abrasar-se em amor e exclamar, sem interrupção, com São Pascoal: “Meu Amor foi crucificado por mim, meu Amor por mim morreu!”
O que deixamos de fazer até agora podemos ainda fazer no futuro, já que Deus nos dá tempo para isso. São Paulo diz que Jesus morreu por nós, para dominar soberanamente em nosso coração por meio de seu amor: «Por isso morreu Christo, para dominar sobre os mortos e sobre os vivos» (Rom. 14,9). «Christo morreu por todos — diz o mesmo Apóstolo — para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquelle que morreu por elles» (II Cor. 4,15). Os santos corresponderam perfeitamente a essa intenção do divino Salvador. Julgavam fazer muito pouco por elle, quando por seu amor sacrificavam tudo o que possuíam e até sua própria vida. Quantos grandes, quantos reis, rainhas e imperatrizes não renunciaram a suas riquezas, seus parentes e sua pátria, e mesmo ao throno, encerrando-se num claustro, para ahi se dedicarem totalmente ao amor de Jesus Christo. Quantos milhões de mártyres não julgaram uma grande felicidade poderem sacrificar sua vida no meio dos mais atrozes tormentos por Jesus Christo. Quantos jovens e donzellas ricas não renunciaram às mais invejáveis núpcias e, com júbilo, dirigiram-se à morte para corresponderem, ao menos de algum modo, ao amor de um Deus que se entregou à morte por amor delles.
E tu, que tens feito de grande até agora por amor de teu divino Salvador? Que provas de amor já Lhe tens dado? É certo que Jesus tão bem morreu por ti como por uma Santa Luzia, uma Santa Águeda, uma Santa Inês.
Quantos reis, príncipes e personagens altamente colocados nasceram em países heréticos ou pagãos? Quantos desses não hão de perder-se miseravelmente por estarem desprovidos dos sacramentos, da instrução religiosa e de outros meios de salvação, ao passo que tu tiveste a felicidade de nascer no seio da verdadeira Igreja e de uma família na qual podes operar a tua salvação com maior facilidade que inúmeros outros?
Pensa, além disso, na grande misericórdia que Deus te mostrou perdoando-te tantas ofensas que Lhe fizeste. Para movê-Lo a perdoar-te, bastou pedir-Lhe unicamente perdão. Infelizmente pagaste-Lhe com ingratidão e tornaste a ofendê-Lo. Ele de novo te perdoou e, com o mesmo amor, te cumulou de graças, luzes e inspirações, em vez de te castigar, como merecias.
Até no momento em que isto lês, continua o Senhor a convidar-te ao Seu amor. Eia, pois, que pretendes fazer? Não queiras resistir por mais tempo. Por que adias ainda? Queres, talvez, esperar até que Deus não mais te chame e te abandone?
Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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