Da Natureza e Importância do Amor de Deus

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1) A caridade é uma virtude sobrenatural infusa, pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas, como ao Sumo Bem, por causa d’Ele mesmo. A razão pela qual devemos amar a Deus é Sua perfeição infinita, que por si só merece todo o nosso amor, mesmo que não houvesse recompensa para os que O amam, nem castigo para os que deixam de amá-Lo. Quem ama a Deus por achar n’Ele sua felicidade própria tem um amor interesseiro, que não pertence propriamente à caridade, mas à esperança. Quem ama a Deus, porém, porque Ele merece ser amado por Si mesmo, ama-O com amor verdadeiro, amor de amizade. Os companheiros de São Luís, rei de França, encontraram uma vez uma senhora que levava um facho numa das mãos e, noutra, um jarro d’água. Interrogada sobre o que significava isso, respondeu: “Com este facho desejaria incendiar o Céu, e com esta água extinguir o fogo do inferno, para que os homens não mais amassem a Deus em razão das recompensas do Céu e das penas do inferno, mas exclusivamente porque Ele merece ser amado.”

Contudo, a caridade perfeita não exclui a esperança do Céu. Amamos a Deus porque Ele merece ser amado por Si mesmo, e O amaríamos também mesmo que não houvéssemos de ser, por isso, recompensados; mas, como sabemos que Ele nos quer dar uma recompensa — e até exige que a esperemos — é nosso dever aspirá-la e esperá-la com toda a confiança. Desejar o Céu para possuir a Deus e amá-Lo mais perfeitamente é verdadeira e perfeita caridade, já que a glória eterna é o complemento desse amor. Só os santos do Céu, esquecidos de si mesmos e livres de todo o amor próprio, amam a Deus com o mais puro amor, e, por isso, se diz deles que estão imersos em Deus.

2) No amor de Deus consiste toda a perfeição, já que a caridade é a virtude que nos une mais intimamente a Deus (cf. Introdução). Todas as outras virtudes não têm valor se não forem acompanhadas da caridade. Esta traz, porém, em sua companhia todas as outras virtudes, como ensina São Paulo: “A caridade é paciente, é benigna, não é invejosa, não obra levianamente, não se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo oculta, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,4). “A caridade é o complemento da lei” (Rm 13,10). Isso levou Santo Agostinho a dizer: “Ama e faze o que queres” (In Ep. ad Parth.). Quem ama a alguém evita causar-lhe o menor incômodo; antes, faz tudo quanto o pode satisfazer. Assim também quem ama a Deus tem a maior aversão a tudo que O possa ofender e procura agradar-Lhe o mais possível.

Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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