1) A esperança nos obtém tudo — Parece-nos, algumas vezes, que Deus não quer atender às nossas orações; apesar disso, devemos continuar a orar e esperar sempre, e exclamar, em tais circunstâncias, com o paciente Jó (Jó 13,15): “Se chegar a matar-me, ainda assim esperarei n’Ele.” Meu Deus, se me expulsásseis de Vossa presença, ainda assim não deixaria de Vos suplicar e esperar em Vossa misericórdia. Se assim procedermos, obteremos do Senhor tudo o que desejamos.
Foi o que experimentou a Cananeia. Essa mulher, que era uma estrangeira, pagã, pediu ao Senhor que Se compadecesse dela e livrasse sua filha do poder do demônio: “Compadecei-Vos de mim, que minha filha é muito atormentada pelo demônio” (Mt 15,22). Respondeu-lhe o Senhor que não tinha sido enviado aos pagãos, mas aos judeus. Ela, porém, não perdeu a esperança, mas continuou a pedir, cheia de confiança: Senhor, ajudai-me; Vós podeis consolar-me; consolai-me, portanto. “Não é justo tomar o pão dos filhos” — disse-lhe Jesus — “e lançá-lo aos cães.” Ao que replicou: “Assim é, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus senhores.” Comovido por uma confiança tão grande, louva-a o Senhor e concede-lhe a graça desejada, dizendo: “Mulher, grande é a tua fé; faça-se contigo como desejas.” “Quem jamais O invocou” — pergunta o Eclesiástico (Eclo 2,12) — “e foi por Ele desprezado?”
Santo Agostinho diz que a oração é uma chave que abre o Céu. No mesmo instante em que nossa oração se eleva a Deus — diz ele — desce-nos a graça que pedimos (Serm. 47). O Profeta-Rei nos dá a entender que nossa oração e a misericórdia de Deus são inseparáveis: “Bendito seja Deus, que de mim não retirou minha oração nem Sua misericórdia” (Sl 65,20).
Devemos nos convencer — diz Santo Agostinho — de que o Senhor nos atenderá logo que nos dermos à oração. Quanto a mim, devo confessar a verdade: nunca me sinto mais consolado, e em nenhuma ocasião tive mais segura esperança de minha salvação, do que quando rezo e me recomendo a Deus. Julgo que com os outros se dará o mesmo.
Todos os outros sinais de nossa salvação são incertos e podem nos enganar; mas que Deus atende todo aquele que ora é uma verdade tão certa como a de que Deus não pode deixar de cumprir Suas promessas.
2) A esperança vence tudo — Se nos sentimos fracos e incapazes de resistir a uma tentação, ou de vencer uma grande dificuldade ou paixão que nos impede no exercício dos mandamentos de Deus, digamos então corajosamente com o Apóstolo: “Tudo posso n’Aquele que me conforta” (Fl 4,13).
Santa Teresa tinha uma confiança tão grande em Deus, que tudo o que empreendia para a glória de seu divino Esposo lhe saía bem — donde proveio o costume de chamarem-na: Teresa, a todo-poderosa. As dificuldades só aumentavam a sua coragem. “Sei por experiência que o verdadeiro meio para não cair é abraçar a cruz e confiar n’Aquele que nela Se deixou pregar” — escreve ela. “Só Ele é meu verdadeiro Amigo, e minha confiança n’Ele dá-me uma tal força que julgo-me capaz de lutar contra o mundo inteiro.”
Cheia dessa confiança no Senhor, não temia nem sequer o inferno, e ela mesma confessou que os demônios não lhe causavam maior inquietação que as moscas.
Não imitemos os que dizem: “Eu não posso, não tenho forças para tanto.” Com nossas próprias forças, é verdade, nada podemos; mas tudo nos é possível com a assistência de Deus.
Se o Senhor dissesse a alguém: “Toma essa montanha sobre teus ombros e transporta-a para tal lugar, que Eu te ajudarei” — não seria loucura e impertinência dizer: “Não posso tomá-la sobre mim, porque não tenho a força necessária para carregá-la”?
Não percamos a coragem se sentimos nossa miséria e fraqueza, e somos atacados por fortes tentações; elevemos então nossas vistas para o Céu e digamos com Davi: “O Senhor é minha ajuda, e eu desprezarei os meus inimigos” (Sl 117,7); com o auxílio de Deus, repelirei todos os seus ataques.
E, se estivermos em perigo de ofender a Deus ou se, num passo importante, não soubermos o que devemos fazer, lancemo-nos nos braços do Senhor, dizendo: “O Senhor é minha luz e minha salvação; a quem temerei?” (Sl 26,1).
Tendo o Padre Hipólito Durazzo resolvido deixar sua posição de dignitário da Igreja Romana para se dar totalmente a Deus na Companhia de Jesus — o que fez pouco depois — dirigiu a Deus a seguinte súplica, por temer tornar-se infiel por fraqueza humana: “Senhor, agora que me entreguei a Vós sem restrição, tende a bondade de não me abandonar.” Ao que se seguiu a voz de Deus, ouvida no interior: “Com muito maior razão posso pedir-te que tu Me não abandones.” Então, cheio de confiança na bondade e auxílio do Senhor, exclamou: “Pois bem, Senhor, nesse caso, Vós nunca me abandonareis, nem eu a Vós.”
3) A esperança conduz à perfeição — A esperança aumenta a caridade, na qual consiste toda a perfeição. A esperança na bondade de Deus aumenta, sem dúvida alguma, o amor de Jesus em nossos corações, pois, quando esperamos alcançar de alguém alguma coisa — diz São Tomás (I-II, q. 40, a. 7) — nos sentimos levados ou atraídos para ele e começamos a amá-lo. São João diz que quem em Deus põe sua confiança infalivelmente se santifica: “Todo aquele que põe sua confiança n’Ele, faz-se santo como Ele, que é santo” (1Jo 3,3).
Rápidos progressos faz no caminho da perfeição todo aquele cujo coração se dilata pela confiança em Deus; não só corre, mas voa, porque, posta sua confiança em Nosso Senhor, desaparece sua fraqueza e faz-se forte no Senhor, isto é, participa da virtude de Deus, dessa força que Ele comunica a todos os que n’Ele esperam: “Os que esperam no Senhor, mudarão de forças; tomarão asas como as águias, correrão e não se fatigarão, andarão e não desfalecerão” (Is 40,31).
4) A esperança dulcifica tudo — Todos os santos deviam à sua confiança em Deus a paz inalterável que gozavam, mesmo no meio das maiores tribulações. Porque amavam a Deus e sabiam quão generoso Ele é para com os que O amam, colocavam n’Ele toda a sua confiança, achando nisso a sua paz. Eis a razão por que a esposa dos Cânticos gozava de tanta paz: não amando a ninguém fora de seu Amado, n’Ele se apoiava por inteiro e sentia-se continuamente feliz, sabendo como Ele remunera liberalmente o amor que se Lhe dedica: “Quem é esta que sai do deserto, cercada de delícias e apoiada em seu Amado?” (Ct 8,5).
Se aqui na terra nos sentimos oprimidos pelo peso da cruz e dos sofrimentos, ergamo-nos e reanimemos a nossa esperança, procurando, por meio da esperança no Céu, suportar pacientemente todas as tribulações. O abade Zózimo, tendo perguntado a Santa Maria Egipcíaca como pudera passar tantos anos no deserto, respondeu-lhe: “Por meio da esperança no Céu.” Ao se oferecer a São Filipe Néri o chapéu cardinalício, atirou seu barrete ao ar, exclamando: “O Paraíso! O Paraíso!” Ao ouvir o nome Paraíso, o irmão Egídio, franciscano, sentia-se arrebatado em êxtases. Portanto, quando nos sentirmos abatidos pelas fadigas desta vida, elevemos nossas vistas para o Céu e procuremos nossa consolação na esperança dos bens eternos. Pensemos que, se permanecermos fiéis a Deus, todas essas penas, todas essas tribulações e angústias terão um fim, e que nos espera aquela Pátria na qual gozaremos uma felicidade perfeita enquanto Deus for Deus. Os santos do Paraíso já nos esperam, assim como a Santíssima Virgem e Jesus, que têm nas mãos a coroa que nos destinaram desde toda a eternidade em Seu Reino feliz.
Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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