Das Propriedades de Nossa Esperança

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1) Nossa esperança deve ser firme e certa. — A esperança da eterna bem-aventurança é, segundo São Tomás (II. II. q. 18, a. 4), a firme expectação da mesma. É essa também a doutrina do Concílio de Trento, que diz: Todos devem esperar confiadamente o socorro de Deus, pois, como Ele começou em nós a boa obra, também a completará, produzindo em nós o querer e o executar, se soubermos aproveitar-nos de Sua graça (Sess. 6, c. 18).

Já o Apóstolo disse: «Eu sei em quem eu cri, e estou certo que Ele é bem poderoso para conservar meu depósito naquele dia» (II Tim. 1, 12).

Justamente aí é que está a diferença da esperança cristã da esperança puramente humana. A esta está unido inseparavelmente o temor de mudança de opinião ou vontade naquele que prometeu alguma coisa. A esperança cristã, pelo contrário, não tem dúvida alguma a respeito de Deus. O Senhor pode e quer inalteravelmente conceder-nos a bem-aventurança eterna, e a prometeu a todos que observarem os seus mandamentos; e, para esse fim, promete também a todos que suplicarem as graças necessárias para a observância de seus preceitos.

É verdade que mesmo esta esperança é acompanhada de certo temor; mas, como São Tomás ensina, nada temos a temer da parte de Deus, mas unicamente da nossa parte, já que podemos deixar de corresponder à graça e pôr-lhe entraves com nossas faltas.

Com muita razão, pois, o Concílio de Trento condenou os inovadores que negavam a liberdade do homem, afirmando que todo o indivíduo deve ter uma certeza infalível quanto à sua perseverança na graça de Deus e à sua eterna salvação. Essa doutrina foi condenada porque, como dissemos, requer-se a nossa cooperação para a consecução da bem-aventurança, que é sempre incerta.

O Senhor quer, pois, que, de um lado, tenhamos sempre receio, para não cairmos em presunção, confiando em nossas próprias forças; e, de outro lado, que estejamos sempre certos de que Deus nos quer salvar e conceder-nos as graças necessárias para isso, se Lhas pedirmos — e, por isso, que nossa confiança em Sua bondade seja inabalável. São Tomás diz que, com toda a certeza, devemos esperar do poder e da misericórdia de Deus a bem-aventurança eterna, crendo firmemente que Deus pode e quer salvar-nos.

Às vezes acontece que nós, em razão de aridez espiritual ou por inquietação causada por alguma falta cometida, perdemos aquela confiança sensível que tanto desejamos na oração. Não devemos, contudo, deixar então de orar, pois Deus nos atenderá ainda mais depressa, já que, nesse caso, oramos com mais desconfiança de nós mesmos e maior confiança em Sua bondade e fidelidade. Oh! como agradamos a Deus nas nossas inquietações, ânsias e tentações, se esperamos n’Ele contra toda a esperança — n’Ele confiando, apesar do sentimento de desconfiança nascido de algum embaraço ou pena interior — a exemplo do santo Patriarca Abraão, que o Apóstolo louva por “ter esperado contra toda a esperança” (Rm 4,18).

2) Nossa esperança deve apoiar-se unicamente em Deus — O Senhor proibiu-nos colocar nossa esperança nas criaturas: “Não confieis nos príncipes” (Sl 145,2), e: “Maldito o homem que confia no homem” (Jr 17,5). Deus não quer que ponhamos nossa confiança nas criaturas, porque não quer que as amemos com amor desordenado. São Vicente de Paulo nos recomenda que não contemos muito com a proteção dos homens, para que o Senhor não Se retire de nós, pois tanto mais nos adiantamos no amor de Deus, quanto mais n’Ele confiamos. “Corri pelo caminho de teus mandamentos, logo que libertaste o meu coração pela esperança” (Sl 118,32).

Mas, se só Deus é nossa esperança, como pode a Igreja saudar Maria como “a nossa esperança”? A isso responde São Tomás: de dois modos podemos colocar em alguém a nossa esperança. Quem espera algum favor de um rei, espera dele como do soberano, e de seu ministro ou favorito, como do intercessor. Se este lhe concede o favor impetrado, é evidente que o deve ao rei, que lho outorgou por intermédio de seu ministro. Logo, o suplicante tem razão de chamar o intercessor de sua esperança. Sendo o Rei do Céu a Bondade infinita, deseja enriquecer-nos de graças; mas, como para alcançá-las é preciso uma grande confiança, quis dar-nos, para aumento de nossa esperança, Sua própria Mãe por intercessora toda-poderosa — e, por isso, é desejo Seu que n’Ela ponhamos a esperança de nossa salvação e de todos os bens que podemos desejar.

Com razão são amaldiçoados os que colocam na criatura, sem atenção a Deus, suas esperanças — como fazem os pecadores que O ofendem para alcançar as boas graças e a amizade dos homens. Os que, porém, confiam em Maria como na Mãe de Deus, já que Ela tem o poder de lhes obter todas as graças e a vida eterna, são antes abençoados por Nosso Senhor. Estes causam-Lhe uma grande alegria, porque Ele quer ver honrada aquela sublime criatura que O amou e glorificou aqui na terra mais que todos os anjos e homens juntos. Com toda a razão, pois, damos a Maria o título de “nossa esperança”, porque esperamos, por Sua intercessão, obter o que não alcançaríamos por nossas orações. “Pedimos a sua intercessão” — diz Suárez — “para que sua dignidade supra o que nos falta.” Pondo em Maria nossa confiança, não desconfiamos de modo algum da misericórdia de Deus; só tememos a nossa própria indignidade. “A Igreja tem, por conseguinte, toda a razão de aplicar a Maria as palavras do Eclesiástico” (Eclo 24,24): “Mãe da santa esperança”, querendo com isso exprimir que Ela desperta a esperança nos bens eternos.

3) Nossa esperança deve ser operosa — Para que nossa esperança não seja vã, deve ser operosa; isto é, devemos unir a uma confiança ilimitada em Deus o uso dos meios de salvação e santificação que a divina Providência nos dá; de outro modo, pertenceremos ao número das almas ociosas, que tentam a Deus. Devemos agir de tal modo como se a consecução de nossa salvação dependesse só de nós. Não obstante isso, devemos pôr toda a nossa confiança em Deus e ficar convencidos de que somos totalmente incapazes de praticar o bem por nossas próprias forças. Deus opera tudo por meio de Sua graça, mas exige também a nossa cooperação. Se essa cooperação — por menor que seja — faltar de nossa parte, Deus Se retirará e nos tratará como servos inúteis, que para nada servem senão para serem lançados às trevas exteriores e consumidos pelo fogo do inferno. “Por isso, irmãos, esforçai-vos de mais a mais em assegurar a vossa vocação e eleição pela prática de boas obras” (2Pd 1,10).

Que devemos fazer para isso? Antes de tudo, rezar. E por quanto tempo? Até que ouçamos a sentença favorável — diz São João Crisóstomo — que nos certifique de nossa salvação eterna, isto é, até a morte. E ele ajunta que quem diz: “Não cessarei de orar até que me veja salvo”, salvar-se-á com toda a certeza. “Não sabeis que aqueles que correm no estádio, todos correm, na verdade, mas um só é que obtém o prêmio? Correi, pois, de tal modo que o obtenhais” (1Cor 9,24).

Para a salvação, portanto, não basta que oremos: é preciso que perseveremos na oração até nos vermos na posse de Deus, que é prometida só aos que perseverarem até ao fim. Se quisermos, pois, ser salvos, devemos imitar a Davi, que tinha seus olhos continuamente voltados para o Senhor, a fim de implorar Seu socorro e não ser vencido por seus inimigos: “Meus olhos estão continuamente voltados para o Senhor, porque Ele desvencilhará meus pés do laço” (Sl 24,15).

O demônio não se cansa de nos armar laços e procurar nos perder: “Vosso inimigo, o demônio, vos circunda como um leão que ruge, procurando a quem devorar” (1Pd 5,8). Por isso devemos conservar sempre as armas nas mãos para nos defendermos contra tal inimigo, dizendo com o rei-profeta: “Perseguirei os meus inimigos e prendê-los-ei, e não desistirei até exterminá-los” (Sl 17,38).

Como, porém, alcançarmos essa vitória tão importante e ao mesmo tempo tão difícil? Unicamente com a oração — diz Santo Agostinho — e só com a oração perseverante. Mas por quanto tempo devemos perseverar na oração? Enquanto durar o combate. E, como este jamais terminará, nunca devemos cessar de pedir o socorro de Deus, de que necessitamos para não sucumbir — diz São Boaventura (Serm. 27 de Conf.): “Ai daqueles que perderam a constância nesse combate e deixaram a oração.”

O Apóstolo nos assegura que só nos salvaremos se conservarmos a confiança e a gloriosa esperança até ao fim, isto é, até a morte.

Com o socorro que a oração nos obtém, devemos procurar cumprir os preceitos de Deus e nos violentar para não sucumbirmos às tentações do inferno. “O Reino dos Céus padece força, e os violentos o arrebatam” (Mt 11,12). Violência nos devemos fazer nas tentações, vencendo-nos e mortificando os nossos sentidos, para não sermos superados pelo inimigo de nossa alma.

Quando nos reconhecermos culpados de alguma falta — diz Santo Ambrósio — façamos violência a Deus por meio da oração e de lágrimas, para obtermos o perdão. Para nos animar, ajunta o mesmo Santo: “Oh! feliz violência, que Deus não pune com Sua cólera, mas que acolhe e recompensa com Sua misericórdia.” Quanto maior for essa violência, tanto mais agradável será a Jesus Cristo.

Devemos nos violentar, quer para podermos suportar as contrariedades e perseguições, quer para vencer as tentações e maus hábitos; sem violência, porém, não conseguiremos nem um, nem outro.

4) Nossa esperança deve ser animada pela caridade — A esperança pode existir numa alma que vive em pecado mortal; para que ela seja, porém, meritória e perfeita, é preciso que a caridade a acompanhe, isto é, que seja animada pela caridade, a qual, além disso, também a aumenta. A caridade nos faz filhos de Deus e participantes da natureza divina, como diz claramente São Pedro (2Pd 1,4).

Segundo a nossa natureza, somos obra de Suas mãos; segundo a graça, isto é, pelos méritos de Jesus, somos filhos de Deus e participantes de Sua natureza divina, e “herdeiros de Seu Reino” (Rm 8,17), pois é direito dos filhos habitar a casa de seu Pai e d’Ele receber a herança. A caridade, pois, aumenta nossa esperança dos bens eternos.

É razão pela qual as almas que amam verdadeiramente a Deus não cessam de pedir: “Venha a nós o Vosso Reino.” Deus ama aqueles que O amam (Pr 8,17) e enche de graças os que O buscam com amor (Lm 3,25); por isso, quanto mais amarmos a Deus, tanto mais confiadamente poderemos pôr n’Ele nossa esperança.

Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931.

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