Primeiro motivo: as promessas de Deus
A Sagrada Escritura oferece, a cada página, por assim dizer, os mais poderosos motivos para uma confiança inabalável em Deus. Aí vemos que Deus promete a cada um que Lhe pede e espera, a salvação eterna — assim como todos os auxílios necessários. “Todas as coisas que pedirdes, orando, crede que as recebereis, e elas vos serão concedidas” (Mc 11,24). “Todo aquele que pede, recebe” (Mt 7,8). “O Senhor é o protetor de todos aqueles que esperam n’Ele” (Sl 17,31). “Olhai para todas as nações e sabei que nenhum dos que esperam foi jamais confundido” (Eclo 2,11). “Aqueles que confiam em Vós não são confundidos” (Sl 24,3). “Em Vós, Senhor, esperei: não serei confundido eternamente” (Sl 70,1). “Porque esperou em Mim, Eu o livrarei… e glorificarei” (Sl 90,14). “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará” (Jo 16,23). Estas, como inumeráveis outras promessas, são dirigidas a todos os homens, sem exceção. E, como a Escritura atesta, passarão o céu e a terra, mas não passarão as promessas e palavras de Deus. “Retenhamos, indeclinavelmente, a confissão de nossa esperança, pois fiel é Aquele que nos prometeu” (Hb 10,23).
Segundo motivo: a vontade de Deus de salvar todos os homens — Deus ama todas as suas criaturas. “Vós amais tudo o que existe e não odiais nada do que criastes” (Sb 11,23). Ora, segundo Santo Agostinho (In Ps. 121), todo amor possui sua virtude e não pode ficar inativo, donde se segue que o amor contém em si mesmo, necessariamente, a benevolência, e que uma pessoa que ama não pode deixar de fazer o bem à pessoa amada, quando isso está em seu poder. “O amor se esforça em executar o que considera bem para a pessoa amada”, diz Aristóteles (Rhet. I, 2, c. 5). Se Deus, pois, ama a todos os homens, deve também querer que todos consigam a bem-aventurança eterna, que é o único e sumo bem do homem, já que ela é o único destino e fim para o qual fomos criados. “Agora… tendes por vosso fruto a santificação, e por fim a vida eterna” (Rm 6,22).
Calvino proferiu uma blasfêmia execranda, afirmando que Deus criou alguns homens expressamente para precipitá-los no inferno; chegou mesmo a dizer que o próprio Deus obriga tais homens a pecar, para poder condená-los. Deus quer, indubitavelmente, que “todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4). Ele declara que deseja a conversão e salvação dos mesmos ímpios que, certamente, mereceriam a morte eterna. “Vivo Eu, diz o Senhor, que não desejo a morte do ímpio, mas que se converta de sua via e viva” (Ez 33,11). Tertuliano faz observar que Deus, com as palavras — Vivo Eu — faz um juramento, para que creiamos n’Ele sem hesitação. Por isso o sábio Petávio se admira de que ainda se possa duvidar dessa verdade (De Deo, l. 10, c. 15). Se é lícito — diz ele — interpretar em outro sentido um texto tão claro da Sagrada Escritura, que é confirmado por um juramento do próprio Deus, que haveria então na mesma Escritura, em matéria de fé, que não possa sofrer uma outra explicação? Mas por que deseja Nosso Senhor tanto que os homens se salvem? Porque os criou por amor, e por um amor que lhes dedica desde toda a eternidade. “Eu te amei com um amor eterno, e por isso, compadecido de ti, te atraía a mim” (Jr 31,3).
Na Epístola de São Pedro lemos que o Senhor, conhecendo a fraqueza do homem, tem paciência com os pecadores e não quer que eles se percam, mas que façam penitência por seus pecados e se salvem: “O Senhor procede com paciência por causa de vós, não querendo que alguns se percam, mas sim que todos façam penitência” (2Pd 3,9). Numa palavra: Deus quer salvar a todos, e, se há infelizes que, por seus pecados, O obrigam a lançá-los no inferno, dirige-lhes esta queixa paternal, chorando de compaixão: “Por que quereis morrer, ó casa de Israel?… Convertei-vos e vivei” (Ez 18,32). Por que quereis perder-vos, meus filhos, e lançar-vos no suplício eterno? Se fostes tão infelizes por me abandonardes antes, voltai-vos agora contritos a Mim, que vos darei novamente a vida que perdestes.
Dize-me agora, alma cristã, se é ou não verdade que Deus deseja a tua salvação. Nunca, pois, deves deixar escapar de teus lábios palavras como estas: “Quem sabe se Deus quer que eu me salve? Quem sabe se é Sua vontade condenar-me por causa das ofensas que Lhe tenho feito?” Deves sempre rejeitar tais pensamentos, pois é certo que Deus te assiste com Sua graça e te convida encarecidamente ao Seu amor.
Terceiro motivo: os merecimentos de Jesus Cristo — Já antes de aparecer neste mundo o divino Redentor, n’Ele colocava Davi toda a sua esperança: “Em vossas mãos encomendo o meu espírito; vós me remistes, Senhor, Deus da verdade” (Sl 30,6). Com quanta maior razão devemos pôr nossa confiança em Jesus Cristo, depois de Ele ter vindo e consumado a obra da nossa Redenção. Cheio de confiança, cada um de nós deverá dizer — e não cessar de repetir com o Rei-Profeta: Senhor, em vossas mãos entrego o meu espírito; vós me remistes, Senhor, Deus da verdade.
Se temos justos motivos de temer a morte eterna por causa de nossos pecados, achamos razões ainda mais poderosas para esperar a vida eterna nos merecimentos de Jesus Cristo, que tem maior virtude para nos salvar do que nossos pecados para nos perder. Pelo pecado, merecemos a morte eterna, mas o Salvador veio em nosso auxílio — diz o profeta Isaías (Is 53,4) — e tomou sobre Si todas as nossas culpas, para satisfazer por elas por meio de Sua Paixão. “Em verdade, Ele sofreu as nossas enfermidades e Se sobrecarregou com nossas dores.”
No momento infeliz em que pecamos, escreveu Deus a sentença de morte eterna contra nós. Que fez, porém, Jesus Cristo? Tomou esse decreto de condenação — diz o Apóstolo — apagou-o com Seu Sangue, pregando-o na cruz, para que nunca o pudéssemos contemplar sem, ao mesmo tempo, vermos a cruz em que o destruiu, a fim de recuperarmos, por essa maneira, a esperança do perdão e de nossa eterna salvação. “Destruindo o quirógrafo do decreto que nos era adverso, pô-lo de lado, afixando-o na cruz” (Cl 2,14). “Aproximemo-nos, pois, com confiança do trono da graça, para alcançarmos misericórdia e obtermos graça” (Hb 4,16). O trono da graça é a cruz, sobre a qual Jesus Se assenta como sobre um trono, para conceder a todos que recorrerem a Ele graça e comiseração. Devemos recorrer a Ele agora, enquanto podemos achar os auxílios necessários para a salvação, porque, do contrário, chegaremos tarde e suplicaremos em vão. Corramos, portanto, à cruz de Jesus e abracemo-la com grande confiança; não nos aterrorizemos com a nossa miséria, pois em Cristo encontraremos todas as riquezas e graças. “Eu dou sempre graças a Deus por vós” — diz o Apóstolo — “porque em todas as coisas fostes enriquecidos n’Ele… de sorte que nada vos falta em graça alguma” (1Cor 1,4). Os merecimentos de Jesus nos abriram os tesouros de Deus, conquistando-nos um direito sobre todas as graças que podemos desejar.
São Leão nota que as vantagens que Jesus Cristo nos alcançou por Sua morte são muito maiores que os prejuízos que o demônio nos causou pelo pecado. São Paulo ensina igualmente que o dom que nos foi feito por meio da Redenção é muito maior que a perda que sofremos pelo pecado: “Não acontece, porém, com o dom o mesmo que com o delito… onde abundou o delito, superabundou a graça” (Rm 5,15). Por isso o Salvador nos exorta a esperarmos todas as graças por Seus merecimentos; Ele nos ensina o modo pelo qual poderemos obter tudo de Seu eterno Pai: “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará” (Jo 16,23). “Aquele que até a seu próprio Filho não poupou, mas O entregou por todos nós, como não nos deu também com Ele todas as graças?” (Rm 8,32). O Apóstolo afirma que Deus nos deu tudo, dando-nos Seu Filho, sem excetuar uma só graça: nem o perdão de nossos pecados, nem a perseverança final, nem o amor divino, nem a perfeição, nem o próprio Céu. É só pedir as Suas graças. “Deus é rico para todos os que O invocam” (Rm 10,12).
Não nos esqueçamos — diz o venerável João d’Ávila — que entre o Padre Eterno e nós existe um mediador: Jesus Cristo, ao qual estamos unidos por laços de amor tão fortes que nada nos pode separar d’Ele, a não ser que nós mesmos rompamos essa cadeia com um pecado mortal. O Sangue de Jesus clama e pede misericórdia por nós: Ele clama tão forte que o grito de nossos pecados não é ouvido.
Ninguém, pois, se perde por falta de satisfação, mas porque deixa de aproveitar a reparação feita por Jesus Cristo pela recepção dos santos sacramentos. Jesus Se encarregou de remediar os nossos males como se fossem Seus próprios. Ele, que era inocente, tomou sobre Si os nossos pecados e pediu perdão por eles — e isso fez com tanta instância como se rogasse por Si mesmo. Alcançou o que desejava. Deus quis que ficássemos tão intimamente unidos a Jesus, que não pudesse Ele ser amado sem que nós também o fôssemos, nem odiado sem que nós também o fôssemos igualmente. Ora, Jesus não pode ser odiado. Logo, nós também seremos amados enquanto estivermos unidos a Jesus pelo amor. Jesus pode merecer muito mais eficazmente o amor de Seu Pai do que os nossos pecados a ira de Deus, já que Nosso Senhor muito mais ama a Seu Filho do que odeia o pecador. Jesus disse a Seu Pai: “Pai, desejo que aqueles que Me deste estejam comigo onde Eu estiver” (Jo 17,24).
Visto que o amor é mais forte que o ódio, ele ganhou a vitória, e nós fomos perdoados e agraciados com o amor de Deus; e uma união tão forte de amor nos dá a certeza de que Deus nunca nos abandonará. “Poderá, talvez, esquecer-se uma mulher de seu filho?… e se ela o esquecesse, Eu não Me esquecerei jamais de ti”, diz o Senhor pelo profeta Isaías (Is 49,15). “Eis que te trago escrito em Minhas mãos.” O Senhor nos escreveu em Suas mãos com Seu próprio Sangue. Nada, pois, nos poderá inquietar, já que é com essas mãos que Ele ordena e dirige tudo — com essas mãos que foram pregadas no madeiro da cruz em testemunho de Seu amor para conosco.
Quarto motivo: a intercessão de nossa Mãe Maria Santíssima — São Bernardo diz que, assim como há um só acesso ao Pai, que é por Seu divino Filho, o mediador de justiça, assim há um só ingresso para chegar ao Filho, que é Sua Mãe Santíssima, a mediadora da graça, que, por sua intercessão, nos obtém as graças que Jesus Cristo nos mereceu. “Por meio de vós, que achastes a graça, ó Mãe da salvação, podemos encontrar acesso junto ao Filho, para que nos acolha Aquele que, por intermédio vosso, nos foi dado” (In Adventu Domini, s. 2). Assim, todos os bens que recebemos de Deus nos vêm por intercessão de Maria. E por que isso? São Bernardo responde: porque essa é a vontade de Deus. Santo Agostinho (De sancta virginitate, c. 6) nos indica a razão especial desse privilégio de Maria, dizendo que Ela pode ser chamada, com todo o direito, nossa Mãe, visto ter cooperado por seu amor para nos dar a vida da graça e fazer-nos membros de Jesus Cristo, nosso Chefe. Como Maria cooperou para o renascimento espiritual dos fiéis por meio de seu amor, é vontade de Deus que Ela, por meio de sua intercessão, concorra para que eles consigam a vida da graça neste mundo e a vida da glória no outro. É esta a razão por que a Igreja quer que A saudemos precisamente como nossa vida, nossa doçura, nossa esperança.
Seguindo este princípio, São Bernardo nos admoesta a recorrermos sempre a esta divina Mãe, visto que suas súplicas serão sempre atendidas: “Dirigi-vos a Maria” — são palavras suas (Serm. de aquaed.) — “eu o digo sem temor: o Filho atenderá, sem dúvida alguma, a Sua Mãe. Ó meus filhos, Ela é a escada da salvação para os pecadores, Ela é a minha maior esperança; Ela é o fundamento de toda a minha confiança.” Ele A chama escada dos pecadores, porque, assim como numa escada não se atinge o terceiro degrau sem tocar no segundo, e este sem servir-se do primeiro, também só se chega a Deus por meio de Jesus Cristo, e a Jesus Cristo por meio de Maria. Além disso, o Santo A chama sua única esperança e o fundamento de sua confiança, porque, segundo sua convicção, quer Deus que passem pelas mãos de Maria todas as graças que pretende conceder-nos.
Tende, pois, sempre confiança, ó filhos de Maria; sabei que Ela recebe por filhos todos aqueles que o desejam ser. Ânimo, portanto, e confiança; pois, como podeis temer perder-vos, se uma tal Mãe vos defende e protege? Quem ama a esta boa Mãe e se coloca sob Sua proteção, deve exclamar com São Boaventura: “Eu me rejubilo e alegro, pois minha sentença pende da de Jesus, meu Irmão, e de Maria, minha Mãe” (Orat. 51). O mesmo pensamento enchia de alegria e consolação a Santo Anselmo: “Ó feliz confiança! Ó seguro refúgio! A Mãe de meu Deus é também minha Mãe; com quanta segurança posso esperar, por conseguinte, minha salvação, já que ela depende da decisão de um bom Irmão e de uma Mãe misericordiosa.”
Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931.

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