As Graças Necessárias à Salvação

10–14 minutos

De três coisas precisamos, de modo particular, para alcançarmos a salvação: do perdão dos nossos pecados, da vitória nas tentações, e da graça de uma boa morte, que é a coroa de todas as outras graças. Estas três coisas constituem o objeto remoto da esperança.

A) — O perdão de nossos pecados

Pecaste, alma cristã, e certamente desejas o perdão. Pois bem, não temas, te diz São João Crisóstomo (In Act. hom. 36), pois maior é o desejo de Deus de te conceder perdão do que o teu de o alcançares.

Vendo Deus que um infeliz vive no pecado, espera ocasião de poder socorrê-lo (cf. Is 30, 18). Algumas vezes mostra-lhe os castigos que merece, para que entre em si:

«Deste aos que vos temem um sinal, para que fujam da face do arco; e assim fiquem livres os que vós amais» (Sl 59, 6).

Outras vezes, bate à porta do coração do pecador, esperando que lha abra:

«Eis que estou à porta e bato» (Ap 3, 20).

Ora corre atrás dele e o chama como um pai misericordioso:

«Por que queres te perder? Por que queres morrer, casa de Israel?» (Ez 18, 31).

Ora chega até a pedir-nos que não nos percamos, segundo afirma Dionísio Areopagita.

E isto é confirmado pelo Apóstolo, quando pede aos pecadores, em nome de Jesus Cristo, que se reconciliem com Deus:

«Conjuramo-vos por Cristo: reconciliai-vos com Deus» (2Cor 5, 20).

Ao que nota São João Crisóstomo:

«Cristo em pessoa vos pede, e como soa a sua súplica? ‘Reconciliai-vos com Deus’» (In II Cor. hom. 11).

Se, apesar disso, existem corações endurecidos, que não se deixam mover, poderá ainda o Senhor fazer mais por eles? Certamente não. Contudo, estes mesmos não serão repelidos se se voltarem para Ele, pois está escrito: “Todo o que vier a mim, eu não o lançarei fora” (Jo 6, 37). Declara-se pronto a receber todo aquele que tornar a Ele: “Convertei-vos a mim, diz o Senhor dos Exércitos, e eu me converterei a vós” (Zc 1, 3). Promete perdoar a todo o pecador que desejar converter-se: “Se o pecador fizer penitência por todos os pecados que cometeu, e se observar todos os meus mandamentos… deverá viver, sim, viver e não morrer; não mais me recordarei de todas as iniquidades que ele operou” (Ez 18, 21). Ele vai tão longe, que chega a dizer: “Vinde e acusai-me: se vossos pecados forem como o escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve” (Is 1, 18). E o salmista atesta: “Ó Deus, vós não desprezais um coração contrito e humilhado” (Sl 50, 19). O evangelista nos descreve a grande alegria com que o Senhor abraça a ovelha perdida e o amor com que recebe o filho pródigo que se lança a seus pés, dizendo: “Maior júbilo, porém, haverá no céu por um pecador que fizer penitência do que sobre noventa e nove justos que não precisam dela” (Lc 15, 7). O motivo, segundo São Gregório, é que regularmente os pecadores arrependidos amam a Deus mais ardentemente que os justos, os quais muito facilmente tornam-se tíbios em seu serviço.

Sem dúvida alguma, devemos dar rigorosas contas a Deus de todos os nossos pecados. Mas quem será o nosso juiz? Consolemo-nos: “O Pai entregou ao Filho todo o poder de julgar” (Jo 5, 22). Será o próprio Salvador que nos há de julgar. Por isso, São Paulo nos anima, dizendo: “Quem nos há de condenar? Jesus Cristo, que morreu… e que intercede por nós” (Rm 8, 34). O divino Redentor nos há de julgar, Ele que, para não se ver obrigado a condenar-nos à morte eterna, entregou-se a si mesmo à morte e, ainda não contente com isso, quis ser nosso intercessor permanente junto a seu Pai. “Que tens, pois, a temer, ó pecador”, pergunta São Tomás de Villanova, “se te arrependeres de teus pecados? Como te poderá condenar aquele que, para não te condenar, condenou-se a si mesmo à morte?” São João Crisóstomo diz que cada uma das chagas de Jesus é uma boca que fala sempre, pedindo a Deus o perdão de nossas culpas.

Lê-se nas revelações de Santa Maria Madalena de Pazzi que Nosso Senhor lhe dirigiu um dia estas palavras: “Minha justiça transformou-se em clemência, pela vingança que tomou na carne inocente de meu Filho. Seu sangue não clama por vingança, como o de Abel; só pede misericórdia, e minha justiça não pode resistir à sua voz. O sangue de meu Jesus me liga as mãos, de forma que não posso levantá-las para castigar os pecadores, como fazia antes.”

Os santos Padres ensinam que quem detestar o mal que praticou pode estar certo do perdão de seus pecados. Ora, conforme as palavras de Santa Teresa, pode-se afirmar de cada um que está pronto a antes morrer do que ofender novamente o Senhor, que ele detesta sinceramente os seus pecados. Se, portanto, estiveres animada de tais sentimentos, alma cristã, por que te deixas ainda atormentar pelo temor e pela desconfiança? Reanima-te à vista de tantos santos que, tendo sido por algum tempo inimigos de Deus, a Ele se voltaram mais tarde, arrependidos e certos de mais detestarem uma nova ofensa de Deus que a própria morte, e cheios de confiança esperavam o perdão de seus pecados.

Santa Afra, de Augsburgo, sendo ainda pagã, era tão imoral, que fez de sua casa um prostíbulo, onde tinha a seu serviço três criadas para seduzir os rapazes. Mais tarde, converteu-se com toda a sua família. Vê-se nos Actos dos Mártires de Ruinart que tinha sempre diante dos olhos a hediondez de seus crimes, dos quais sentia uma dor imensa. Logo depois de abraçar o cristianismo, cuidou em distribuir aos pobres tudo o que ganhara. Quando os cristãos recusavam aceitar esse dinheiro pecaminoso, adquirido à custa de ofensas a Deus, com lágrimas nos olhos suplicava-lhes que não o desdenhassem e a recomendassem a Deus, para que Ele se dignasse perdoar-lhe os pecados.

Reinava então a perseguição de Diocleciano. A santa foi presa e conduzida ao juiz, de nome Caio, que assim lhe falou: “Sacrifica aos deuses, porque isso é melhor que morrer entre tormentos.” A santa respondeu: “Nada mais quero saber de pecado; infelizmente, já cometi muitos antes de conhecer o verdadeiro Deus, e por isso não posso de forma alguma fazer o que dizes e ofender novamente a meu Deus.” O juiz de novo lhe disse que fosse ao templo sacrificar. Ao que ela respondeu: “Meu templo é Jesus Cristo, que me está sempre presente, ao qual confesso quotidianamente os meus pecados. E já que não posso oferecer-lhe outro sacrifício, desejo ardentemente sacrificar-me a mim mesma em sua honra, para que este corpo, com o qual tantas vezes o ofendi, seja purificado pelo martírio, que com toda a alegria sofrerei.”

“Mas nada tens a esperar do Deus dos cristãos”, replicou-lhe Caio, “já que levaste uma vida tão torpe; sacrifica, por conseguinte, aos deuses.” A santa respondeu: “Meu Salvador Jesus Cristo declarou que desceu do céu para salvar os pecadores. Lemos no Evangelho que uma pecadora, depois de lavar com suas lágrimas os pés de Jesus, alcançou o perdão de todos os seus pecados. Nunca o Salvador repeliu os pecadores públicos; antes, com eles convivia e comia.” Vendo baldados todos os seus esforços, disse-lhe Caio: “Se não sacrificares, mandarei martirizar-te e queimar viva.” A santa respondeu corajosamente: “De boa vontade submeto a qualquer espécie de martírio este corpo, que foi instrumento de tantos pecados; nunca, porém, hei de manchar minha alma sacrificando ao demônio.”

Condenou-a então o juiz à morte. Afra, elevando os olhos ao céu, fez a seguinte oração: “Meu Senhor Jesus Cristo, que não viestes chamar os justos, mas os pecadores à penitência, e que nos asseverastes que ao pecador perdoais todas as suas iniquidades se ele se voltar a vós, recebei também a mim, pobre pecadora, que, por vosso amor, me sujeito a estes tormentos, e fazei que este fogo, que vai consumir meu corpo, preserve minha alma do fogo do inferno.” Terminada esta oração, ao se cruzarem as chamas sobre sua cabeça, ainda rezou: “Agradeço-vos, Senhor, por vos haverdes, tão inocente, sacrificado pelos pecadores; a vós, ó amado do Pai, que quisestes morrer por nós, miseráveis, carregados de pecados e maldições, agradeço e sacrifico-me a mim mesma por vós, que viveis e reinais com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.” Com estas palavras, terminou sua oração — e sua vida.

B — A vitória sobre nossas tentações
Para perseverarmos no bem, não devemos colocar nossa confiança em nossas próprias resoluções. Se contarmos com as nossas próprias forças, estaremos perdidos. Para nos conservarmos na graça, devemos pôr nossa confiança nos merecimentos de Jesus Cristo; com sua assistência, perseveraremos até a morte, ainda que combatidos por todos os poderes terrenos e infernais.

Sem dúvida alguma, seremos assaltados, algumas vezes, por tantas e tão fortes tentações, que nossa queda nos parecerá inevitável. Guardemo-nos, porém, de perder então a coragem e de nos entregar ao desespero; recorramos com toda a pressa a Jesus Crucificado, e Ele impedirá a nossa queda. O Senhor permite que até aos santos sobrevenham tais tempestades, como a São Paulo, que afirma de si: “Nós fomos excessivamente oprimidos acima de nossas forças, a ponto de nos aborrecermos da própria vida” (2Cor 1, 8). O Apóstolo aqui mostra o que ele podia por própria força e, com isso, nos quer ensinar que Deus, de vez em quando, nos deixa ver a nossa fraqueza, para que, melhor inteirados de nossa miséria, não confiemos em nós mesmos, mas em Deus, que ressuscita os mortos (2Cor 1, 9), e humildemente peçamos o seu auxílio para não sucumbirmos.

Ainda mais claramente disso fala o Apóstolo em outro lugar, dizendo: “Em tudo sofremos tribulações, porém não desanimamos; somos embaraçados, porém não desesperamos” (2Cor 4, 8). Sentimo-nos oprimidos pela tristeza e aflitos pelas paixões; contudo, não desesperamos. Somos lançados num mar tempestuoso e não vamos ao fundo, porque o Senhor nos concede, com sua graça, a força de resistir a todos os nossos inimigos. Mas, ao mesmo tempo, o Apóstolo nos exorta a que não nos esqueçamos de que somos homens fracos e frágeis, que mui facilmente podemos perder de novo o tesouro da graça divina, que só poderemos conservar pela virtude divina e não pela própria força: “Nós, porém, possuímos esse tesouro em vaso de barro, para que a sublimidade seja da virtude de Deus e não de nós” (2Cor 4, 7).

Ainda que, conforme o sobredito, não possamos achar em nós a força necessária para evitar o pecado, mas exclusivamente na graça de Deus, devemos empregar todo o cuidado em não nos tornarmos, por culpa própria, ainda mais fracos do que já somos. Certas faltas, das quais não fazemos caso, podem ser a causa de Deus nos negar a luz sobrenatural, tornando-se assim o demônio mais forte contra nós.

Tais faltas são: o desejo de passar por sábio ou nobre aos olhos do mundo; a vaidade no vestir; a busca de comodidades supérfluas; o costume de se dar por ofendido com qualquer palavra picante ou com uma simples falta de atenção; o desejo de agradar a todo o mundo à custa do bem espiritual; a negligência das práticas de piedade por respeito humano; as pequenas desobediências; pequenas aversões contra alguém; pequenas murmurações; pequenas mentiras ou caçoadas; o tempo perdido em conversas ou curiosidades inúteis — em uma palavra, todo o apego às coisas criadas, toda a satisfação do amor-próprio podem oferecer ao nosso inimigo ocasião para nos precipitar no abismo. Estas faltas, cometidas com deliberação, nos roubarão, pelo menos, os socorros abundantes do Senhor, que nos preservam, sem dúvida alguma, da queda no pecado.

C — A graça de uma boa morte

Grandes são as tribulações que nos esperam na nossa última hora; só Jesus Cristo nos pode conceder a graça de suportá-las com paciência e proveito espiritual. Ao aproximar-se a morte, devemos temer mais do que nunca os assaltos do inferno; ele se esforçará tanto mais para nos perder quanto mais perto nos vir de nosso último fim.

São Eleázaro, que havia levado uma vida extraordinariamente pura, sendo em sua última hora fortemente tentado pelo demônio, dizia aos circunstantes: “Os esforços do inferno são neste momento muito grandes, mas Jesus Cristo lhes tira toda a força pelos merecimentos de sua Paixão.”

Por isso, na hora de sua morte, São Francisco pediu que se lesse a história da Paixão de Jesus, e São Carlos Borromeu mandou que colocassem sobre sua cama várias imagens representando o Salvador em sua Paixão e, enquanto as contemplava, entregou sua alma ao Criador.

São Paulo diz que Jesus Cristo quis padecer a morte “para que, por meio de sua morte, destruísse aquele que possuía o império da morte, a saber, o demônio, e libertasse os que, pelo temor da morte, estavam debaixo da escravidão” (Hb 2, 14). Por isso, continua o Apóstolo, teve de se tornar em tudo semelhante a seus irmãos, para que se tornasse misericordioso para conosco.

O Senhor quis tomar sobre si a natureza humana, exceto a ignorância, a concupiscência e o pecado, para experimentar em si mesmo a nossa miséria e ter, assim, compaixão de nós; pois muito melhor se aprende a conhecer a miséria alheia sofrendo-a pessoalmente do que apenas considerando-a nos outros. O divino Salvador devia, assim, tornar-se mais disposto a socorrer-nos em todas as tentações que temos de suportar durante a vida — e mais ainda na hora de nossa morte.

Se o demônio, pois, nos inquietar em ambas essas ocasiões, pondo diante de nossos olhos os pecados de nossa mocidade, devemos dizer-lhe com São Bernardo (In Cant. s. 61): “O que me falta para poder entrar no Céu, eu mo aproprio dos méritos de Jesus Cristo, que quis precisamente sofrer e morrer por mim, para me alcançar a glória eterna, que eu não merecia.”

Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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