Dos Objetos da Esperança

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A esperança é uma virtude sobrenatural, pela qual, firmados nas promessas de Deus, esperamos confiadamente a salvação eterna e todas as graças de que necessitamos para alcançá-la. Para nos persuadirmos do grande valor desta virtude e nos estimularmos à sua prática, consideremos os motivos, os objetos, as propriedades e os efeitos da esperança.

1) Objeto principal da esperança: a bem-aventurança eterna ou a posse de Deus.

O primeiro e principal objeto de nossa esperança é a posse de Deus no céu. Não devemos crer que a esperança de possuir a Deus no céu seja contrária ao amor de Deus; muito pelo contrário, a esperança da bem-aventurança eterna é inseparável do amor, visto que este só no céu encontra sua satisfação e perfeição. Segundo São Tomás, a comunicação de bens está contida na definição da amizade, pois esta nada mais é que afeição mútua; é preciso que os amigos façam tanto bem um ao outro quanto lhes for possível, para que exista verdadeira amizade entre eles, pois ela não pode existir sem essa comunicação de bens (I, II, q. 65, a. 5). Por isso Cristo declarou a seus discípulos que os denominaria amigos, porque lhes revelara todos os seus segredos: «Eu vos chamei amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai» (Jo 15, 15).

Segundo a doutrina de São Tomás, pois, o amor não exclui a esperança da recompensa que Deus nos preparou no céu, já que ela é o objeto principal de nossa esperança; essa recompensa nada mais é que o próprio Deus, cuja visão constitui a felicidade dos bem-aventurados. A amizade, diz o Doutor Angélico (In III Sent., dist. 29, q. 1, a. 4), exige que o amigo esteja na posse de seu amigo. Esta é aquela comunicação mútua ou entrega, da qual fala a Esposa dos Cânticos: «Meu Amado é meu e eu sou d’Ele» (Ct 2, 16). No céu, a alma se dá inteiramente a Deus, e Deus se entrega inteiramente à alma; porém, segundo a medida da capacidade e dos méritos de cada alma.

O amor tende naturalmente à união com o objeto amado, diz o Areopagita, ou antes, conforme Santo Agostinho, o amor é uma cadeia de ouro que une os corações da pessoa que ama e da pessoa amada. E como essa união não se pode efetuar de longe, quem ama deseja sempre a presença da pessoa amada. A Esposa Sagrada, vendo-se separada de seu divino Esposo, enlanguecia de amor e pedia a suas companheiras que o informassem de sua pena, para movê-lo a consolá-la com sua presença: «Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém: se encontrardes o meu Amado, dizei-lhe que desfaleço de amor» (Ct 5, 8). Uma alma que ama ardentemente a Jesus Cristo não poderá viver na terra sem um ardente desejo de unir-se brevemente a Ele, no céu, onde será Ele mesmo sua recompensa imensamente grande.

Enquanto nossa alma não estiver unida perfeitamente a Deus no céu, não encontrará inteiro repouso. É verdade que os que amam a Cristo encontram sua paz na conformidade com sua santíssima vontade, mas não inteira tranquilidade, que não é possível nesta vida, mas só na outra, na posse de nosso fim último, isto é, na visão de Deus face a face e no seu amor consumado. Enquanto a alma estiver separada desse seu fim último, estará inquieta e repetirá sem cessar, em soluços: «Eis que na paz encontro uma grande amargura» (Is 38, 17).
Meu Deus, vivo em paz neste vale de lágrimas, porque esta é a vossa vontade; mas não posso deixar de sentir uma inexplicável amargura, pensando que ainda não estou perfeitamente unido a vós, que sois meu centro, meu repouso, meu tudo.

Assim suspiravam os santos incessantemente pela pátria celeste, porque estavam abrasados no amor de Deus. Davi se queixava da duração de seu exílio: «Ai de mim, cujo exílio se prolonga tanto» (Sl 119, 5). Só o consolava a esperança da eterna felicidade: «Serei, porém, saciado, quando tua glória se me tornar visível» (Sl 16, 15). São Paulo desejava ansiosamente deixar o mundo e unir-se a Cristo: «Desejo ser dissolvido e estar com Cristo» (Fl 1, 23). São Francisco de Assis dizia: O bem que espero é tão grande, que toda a pena para consegui-lo se me transforma em um prazer.

Todas essas exclamações são outros tantos atos de amor perfeito. São Tomás ensina que o grau mais sublime da caridade que pode ser atingido por uma alma neste mundo é desejar ardentemente o céu, para aí unir-se intimamente com Deus, possuí-lo e gozar de sua presença por toda a eternidade.

A maior pena que as almas sofrem no purgatório provém do desejo que sentem de possuir a Deus. Essa pena aflige particularmente as almas que, nesta vida, tiveram pequeno desejo do céu. O cardeal Belarmino pensa mesmo que existe um lugar especial no purgatório (ao qual dá o nome de prisão honrosa), no qual as almas não são sujeitas a pena alguma dos sentidos, mas unicamente à privação da visão de Deus. São Gregório, São Vicente Ferrer, Santa Brígida, São Beda, o Venerável, apresentam diversos exemplos de penas impostas, não em razão dos pecados cometidos, mas por causa do pouco desejo do céu.

Muitas almas aspiram à perfeição, sem, contudo, desejar seriamente deixar a terra para poderem unir-se mais depressa a Deus. Ora, sendo a vida eterna um bem infinitamente precioso, adquirido à custa da morte do Salvador, todas essas almas devem ser punidas pelo fraco desejo que tiveram do céu durante a vida presente.

Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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