I — Da natureza e do grande valor da fé
A fé é uma virtude infusa por Deus em nossa alma, pela qual cremos em tudo quanto Ele revelou à sua Igreja, e que esta nos propõe a crer. São Paulo define a fé como “a substância das coisas que se esperam, e a demonstração das que não se veem” (Heb. 11, 1).
Com efeito, a fé é o fundamento de nossa esperança; sem ela, seria impossível ter esperança, sendo também argumento firme daquilo que não vemos.
Ela possui um lado obscuro e outro claro: clara é quanto aos sinais que nos demonstram a certeza das verdades da fé; obscura, quanto às próprias verdades da fé, que permanecem veladas aos nossos olhos.
As provas da verdade de nossa fé são tão claras que, segundo as palavras de Pico della Mirandola, não é apenas imprudência, mas verdadeira loucura não querer aceitá-las. “Vossos testemunhos, Senhor, são dignos de toda fé” (Sl 92, 5).
Por isso, os incrédulos não têm desculpa ao recusarem submeter seu entendimento aos ensinamentos da fé. “Quem não crê, já está condenado” (Jo 3, 18), diz o divino Salvador.
Por outro lado, quis Deus que as próprias verdades da fé permanecessem envoltas em mistérios, a fim de que, pela fé, adquiríssemos merecimentos.
A fé é, pois, uma ciência que sobrepuja imensamente todas as demais ciências. “Vede quão grande é Deus, que excede toda a nossa ciência”, exclama Jó (Jó 36, 26).
A santa fé é, para nós, um tesouro de valor inestimável, pois nela possuímos, antes de tudo, uma luz divina que nos serve de guia seguro no caminho do Céu.
Aquilo que percebemos por meio de nossos sentidos, ou que conhecemos pelo nosso entendimento, pode muitas vezes induzir-nos ao erro.
As verdades da fé, porém, foram-nos reveladas por Deus, o qual não pode enganar-Se, nem enganar-nos.
A fé nos oferece, em segundo lugar, um meio excelente de prestar a Deus a devida veneração.
É conveniente e justo que sujeitemos a Deus não apenas a nossa vontade, pelo amor, observando os seus mandamentos, mas também o nosso entendimento, pela fé, crendo em suas palavras.
Se o homem acreditasse somente naquilo que vê e compreende, não prestaria verdadeira honra a Deus.
Ao contrário, honra-O de modo especial quando aceita como certas verdades que não vê nem entende, unicamente porque Deus as revelou.
A fé é para nós uma fonte de merecimentos.
Se todas as verdades propostas à nossa fé fossem claras e evidentes, não poderíamos deixar de lhes dar nosso assentimento; e, assim, a aceitação dessas verdades não seria uma obra meritória, pois o mérito está justamente em anuir à doutrina proposta, não por necessidade, mas livremente.
É o que expressa São Gregório nas seguintes palavras: “A fé perde o seu merecimento, se a razão humana fornece os argumentos” (In Evangelio, hom. 26).
O divino Salvador considera bem-aventurados os que abraçam as verdades da fé sem as compreender plenamente: “Bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20, 29).
A fé nos serve de defesa eficaz contra os inimigos de nossa salvação. São João afirma: “Esta é a vitória que vence o mundo: a vossa fé” (1Jo 5, 4).
Deus Nosso Senhor criou-nos unicamente para que trabalhemos pela salvação de nossa alma e nos santifiquemos. “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1Ts 4, 3).
Todos os nossos atos, pois, devem convergir para este fim.
Ora, é a fé que nos torna capazes de vencer todos os impedimentos que o mundo nos opõe no caminho desse alvo, como o respeito humano, a concupiscência da carne ou as tentações do demônio.
O demônio é muito forte, e suas tentações são bem próprias para nos infundirem temor; porém, quem possui a fé triunfa de todos os seus assaltos. “O demônio vos rodeia como um leão que ruge, procurando a quem devorar; resisti-lhe, firmes na fé”, diz São Pedro (1Pd 5, 8).
E São Paulo, no mesmo sentido, escreve: “Sobretudo, tomai o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno” (Ef 6, 16).
Assim como o escudo protege o corpo dos projéteis do inimigo, assim também a fé resguarda a alma dos ataques do inferno.
“Meu justo vive da fé”, diz o Senhor (Hb 10, 38); isto é, conserva-se na vida da graça pelas máximas da fé.
Enfraquecendo-se a fé, enfraquecem-se também as virtudes; perdida a fé, desaparecem igualmente as virtudes.
Por isso, logo que formos acometidos por uma tentação de orgulho, de concupiscência ou de qualquer outra espécie, devemos armar-nos sem demora com as máximas da fé, para nos defendermos.
Devemos, então, voltar o olhar para a onipresença de Deus, para as tristes consequências do pecado, para o juízo a que todos seremos submetidos, para as penas eternas que aguardam os pecadores, e para as grandes obrigações que temos para com nosso divino Salvador.
De modo especial, devemos refletir nesta grande verdade de fé: todo aquele que recorre a Deus obterá a vitória.
“Invocarei o Senhor, louvando-O, e serei salvo de meus inimigos” (Sl 17, 4).
A fé conserva-nos a paz do coração no meio de todas as adversidades, porque nos dá a certeza de que, sofrendo com paciência as penas desta vida, alcançaremos seguramente a salvação eterna.
É isso que leva São Pedro a afirmar: “Se credes, exultareis com uma alegria inefável e alcançareis o fim da vossa fé: a salvação das vossas almas” (1Pd 1, 8-9).
Agradeçamos, pois, do fundo de nossa alma, a Deus por nos ter concedido o precioso dom da santa fé.
São Francisco de Sales dizia: “Ó meu Deus, imensamente grandes são os benefícios com que me cumulastes; como, porém, poderei jamais agradecer-Vos suficientemente por me terdes iluminado com a luz da santa fé?”
E ainda: “A sublimidade de nossa fé é tão grande, que desejaria de boa mente dar a vida por ela. Ao menos quero conservar em meu coração, abrasado de devoção, este tão precioso dom que o Senhor me fez.”
Santa Teresa encontrava tal consolação no pensamento de pertencer à Igreja Católica, que não cessava de repetir, na hora da morte: “Enfim, eu sou filha da santa Igreja. Enfim, eu sou filha da santa Igreja.”
Agradeçamos também nós, incessantemente, ao Senhor por tão grande graça, e recordemo-nos sempre das palavras do Salmista: “Ele não fez semelhante benefício a todas as nações” (Sl 147, 20).
II — Do sacrifício do entendimento que a fé exige
Deus Nosso Senhor quer que usemos de nosso entendimento para reconhecermos com certeza que foi Ele quem falou; não, porém, para compreendermos o que nos propõe a crer.
A razão, por assim dizer, toma-nos pela mão e conduz-nos ao santuário da fé, permanecendo, contudo, nos umbrais do mesmo.
Logo que nos convencemos de que a doutrina cuja aceitação se exige de nós provém, de fato, de Deus, devemos submeter nosso entendimento e ter por verdade tudo quanto nos é proposto a crer — ainda que nada compreendamos.
Essa é a humilde simplicidade das crianças de que fala São Pedro: “Como meninos recém-nascidos… desejai ardentemente o leite espiritual, para que por ele cresçais para a salvação” (1Pd 2, 2).
Os mistérios da fé não estão em contradição com a nossa razão, embora excedam o seu alcance e compreensão.
Por isso, não devemos perscrutá-los com o intento de averiguar sua exatidão, pois poderia acontecer-nos o que se deu com aqueles espíritos orgulhosos que, tentando penetrá-los, viram seu fraco entendimento enredar-se numa multidão de dúvidas, das quais só com grande dificuldade conseguiram libertar-se.
“A fé não é para os orgulhosos, mas para os humildes” (Serm. 115, n. 2), afirma Santo Agostinho.
Quem é verdadeiramente humilde não encontra dificuldade em crer.
Santa Teresa dizia: “O demônio jamais conseguiu tentar-me de forma alguma contra a fé; parece-me até que mais fácil me é dar o assentimento às verdades da fé que, em si, são as mais incompreensíveis.”
Se alguém, pois, for tentado pelo inimigo contra alguma verdade da fé, não se detenha nas dificuldades que o demônio apresenta, mas faça um ato de fé e proteste diante de Deus que está pronto a dar a sua vida pela santa fé.
Como narra São Luís, rei de França, certo sábio teólogo foi um dia assaltado por fortes tentações contra a presença real de Jesus no Santíssimo Sacramento.
Recolheu-se, então, ao bispo de Paris, revelou-lhe suas dúvidas e pediu-lhe, com lágrimas, que o ajudasse.
O bispo limitou-se a perguntar-lhe se renunciaria à sua fé por qualquer coisa deste mundo.
O teólogo, com lágrimas nos olhos, protestou que por nada deste mundo sacrificaria sua fé.
Então o bispo tranquilizou-o e mostrou-lhe o grande fruto espiritual que poderia advir daquelas tentações.
Achando-se, certa vez, enfermo, São Francisco de Sales foi assaltado por fortes dúvidas quanto ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia.
Não entrou, porém, em discussão alguma com o demônio a esse respeito, vencendo tais tentações pela simples invocação do santíssimo Nome de Jesus.
Em tentações dessa ordem, o entendimento deve dar-se por vencido, sujeitar-se humildemente à doutrina da Santa Igreja, e combater o demônio com suas próprias armas, dizendo: “Estou pronto a dar mil vezes a minha vida pela santa fé.”
Se assim procedermos, aquilo mesmo com que o demônio intenta perder-nos, tornar-se-á para nós uma fonte de merecimentos.
Dirijamo-nos, pois, muitas vezes ao divino Salvador, repetindo aquela súplica dos apóstolos: “Senhor, aumentai-nos a fé” (Lc 17, 5).
III — Quão razoável é essa submissão do entendimento
Do que foi exposto, facilmente se deduz que devemos submeter nosso entendimento às verdades da fé que excedem sua compreensão, “reduzindo-o à sujeição… em obséquio a Cristo” (2Cor 10, 5), como diz São Paulo.
Isso, contudo, não impede que consideremos as razões que demonstram a veracidade de nossa santa religião; pelo contrário, Deus quer que empreguemos nossa inteligência natural para nos convencermos da razoabilidade de nossa fé.
Assim, auxiliados pela graça divina, tenhamos por certo tudo quanto a Igreja nos propõe a crer, oferecendo-lhe, assim, um obséquio racional (cf. Rm 12, 1).
A credibilidade de nossa santa religião está provada, como já se expôs acima, por argumentos tão claros, que todo aquele que não tiver perdido o bom senso deverá necessariamente abraçá-la.
Apontaremos aqui apenas alguns desses argumentos:
1) Em primeiro lugar, falam em favor da veracidade de nossa fé as profecias que foram escritas nos Santos Livros muitos séculos antes, e que se cumpriram à risca posteriormente.
Por exemplo, a morte de nosso divino Salvador fora predita por diversos profetas e descrita com exatidão, não apenas quanto ao tempo, mas também quanto às circunstâncias que a acompanhariam.
Fora igualmente profetizado que os judeus, em castigo pelo deicídio, seriam expulsos de seu templo e de sua pátria e, obstinados em seu pecado, seriam dispersos por todo o mundo — profecia esta que vemos cumprida ao pé da letra.
Fora também anunciado que, após a morte do Redentor, o culto dos falsos deuses cederia lugar ao culto do Deus verdadeiro; e isso, de fato, se realizou por meio dos apóstolos, os quais, apesar de sua falta de instrução e de recursos humanos, e a despeito de todos os obstáculos imagináveis, conquistaram o mundo para a fé do verdadeiro Deus.
2) Em segundo lugar, prova-se a veracidade de nossa santa fé pelos milagres que, para confirmá-la, foram operados por nosso Salvador e pelos santos da Igreja Católica.
Os milagres excedem as forças da natureza; somente o poder de Deus, ao qual toda a criação está sujeita, os pode realizar.
Donde se vê claramente que uma religião capaz de apresentar verdadeiros milagres em confirmação de sua doutrina deve, por isso mesmo, ser divina, pois Deus jamais poderia favorecer com a operação de milagres uma religião falsa.
Nem os judeus, nem os pagãos, nem os maometanos, nem os hereges podem nomear um único milagre verdadeiro que tenha sido realizado em favor de sua doutrina.
Para enganar o povo, recorreram a certas ilusões, que apresentaram como milagres; porém, em pouco tempo, descobriu-se o engano.
Inúmeros, ao contrário, são os milagres que Nosso Senhor operou ao longo dos séculos, por meio de seus servos, na Igreja Católica.
Nela se cumpriu, e continua a cumprir-se, a palavra do divino Salvador: “Aquele que crê em Mim, também fará as obras que Eu faço, e fará ainda maiores” (Jo 14, 12).
Não negamos que, nos primeiros séculos do Cristianismo, houve mais numerosos milagres do que em nossos dias; contudo, em tempo algum faltaram milagres na Igreja, pois sempre foram necessários à conversão dos pagãos.
Assim, São Francisco Xavier, São Luís Bertrand e outros grandes missionários operaram numerosos milagres nas Índias, confirmando, com sinais extraordinários, a verdade da fé que anunciavam.
Se alguém ousasse rejeitar os fatos notáveis que os anais da história eclesiástica e as biografias dos santos nos relatam, perguntar-se-ia com razão: por que motivo recusa crer em um São Basílio, São Jerônimo, São Gregório e tantos outros escritores eclesiásticos, ao passo que dá inteiro crédito a autores pagãos como Suetônio ou Plínio?
Além disso, aprouve ao Senhor conservar constantemente na Igreja alguns milagres notórios, para mostrar quão fútil é a incredulidade dos ímpios.
Citemos aqui apenas o insigne milagre do sangue de São Januário, em Nápoles: esse sangue, que se encontra geralmente em estado sólido, liquefaz-se diversas vezes ao ano ao ser aproximado da cabeça do mesmo santo — fato este que qualquer pessoa pode comprovar com os próprios olhos.
Os incrédulos, em vão, tentaram apresentar uma explicação científica ou natural para esse milagre; até hoje, porém, não conseguiram fornecê-la.
3) Uma terceira prova da veracidade de nossa fé é a fortaleza dos mártires — prova esta ainda mais resplandecente que a dos próprios milagres.
Quinze imperadores romanos, durante muitos anos, empregaram todos os seus recursos para exterminar a religião cristã.
Sob o império de Diocleciano, que promoveu a nona perseguição, foram trucidados, em apenas um mês, dezessete mil cristãos, sem contar os milhares e milhares que foram lançados ao exílio.
Segundo o cômputo de Genebrardo, o número dos mártires que perderam a vida nas dez grandes perseguições eleva-se a onze milhões, de modo que, distribuindo-os proporcionalmente pelos dias do ano, teríamos trinta mil mártires por dia.
Apesar de submeterem esses confessores de Cristo a todos os tormentos imagináveis — dilacerando-os com unhas de ferro, queimando-os em grelhas incandescentes, aplicando tochas ardentes aos seus corpos e atormentando-os com inúmeros outros horrores — o número dos que estavam prontos a morrer por sua fé não diminuía; ao contrário, crescia cada vez mais.
Tibério, governador da Palestina, escreveu ao imperador Trajano informando que tantos cristãos se ofereciam ao martírio, que era impossível aplicar suplício a todos.
Diante disso, Trajano publicou um édito ordenando que deixassem os cristãos em paz.
Pergunto agora: se não fosse verdadeira essa fé professada pelos mártires e, até hoje, pela santa Igreja — e se Deus não os tivesse assistido com sua graça — como poderiam eles suportar tão horrendos tormentos e submeter-se a uma morte tão cruel?
Mas que mártires, porém, podem apresentar as seitas separadas da Igreja Católica?
Acaso possuem elas um São Lourenço, que, enquanto era assado numa grelha, transbordava de alegria e oferecia por gracejo ao tirano seus membros assados pelo fogo?
Possuem talvez um São Marcos ou Marcelino, cujos pés foram trespassados com cravos, e que responderam ao juiz, que os exortava a renunciar à fé para se verem livres daquele tormento: “Falas em tormento, e nós jamais experimentamos tão grande alegria como agora, que padecemos por Jesus Cristo”?
Possuem talvez um São Processo ou Martiniano, cujos corpos foram queimados com chapas de ferro em brasa e dilacerados com pentes de ferro, e que, apesar de tudo, cantavam sem cessar os louvores de Deus, exprimindo ainda um ardente desejo de morrer por amor de Jesus Cristo?
A estes mártires da Antiguidade se associaram, como gloriosos émulos, inumeráveis homens e mulheres dos tempos mais recentes, que ofereceram sua vida pela fé, entre os mais atrozes tormentos que a ferocidade humana pôde conceber.
Quantos não foram os que morreram, no século XVI, no Japão?
Entre os fatos memoráveis da horrenda perseguição ocorrida naquele país, contam-se os seguintes:
Uma mulher chamada Mônica, desejosa do martírio, exercitou-se de antemão na tolerância de todos os suplícios que os algozes pudessem infligir-lhe.
Certa vez, tomou nas mãos um ferro em brasa e, ao ser interpelada por sua irmã — “Mônica, que fazes?” — respondeu: “Preparo-me para o martírio. Já combati contra a fome e venci; agora experimento o fogo, para que possa suportar seus horrores, caso um dia me sejam impostos.”
Outra mulher, resoluta, disse a suas companheiras: “Estou firmemente decidida a dar a minha vida pela santa fé. Mas, se me virdes hesitar diante da morte, arrastai-me à força perante os carrascos, para que eu possa também participar de vossa coroa.”
Um menino, chamado Antônio, respondeu aos seus pais — que, entre lágrimas, procuravam induzi-lo a renunciar à fé — com estas palavras: “Deixai de me atormentar com vossas palavras e lamentos, pois estou resolvido a morrer por amor de Jesus Cristo.”
E, suspenso na cruz, a exemplo de seu divino Mestre, entoou o salmo: “Louvai, meninos, ao Senhor”, cantando-o até o Gloria Patri, e rendendo o espírito em seguida, para terminá-lo no Céu.
Outro menino, igualmente heroico, disse a seu pai: “Prefiro sofrer a morte pelas mãos do carrasco — ou até mesmo pelas tuas — a faltar com a obediência devida a Deus. Não quero lançar-me no inferno para agradar aos homens.”
Um criado disse a seu senhor: “Eu sei quanto vale o Céu, e, já que o martírio é o caminho que mais diretamente a ele conduz, escolho-o com alegria, e faço tão pouco caso de minha vida como do pó que calco aos pés.”
Uma mulher, chamada Úrsula, tendo visto morrer mártires seu esposo e dois de seus filhos, exclamou, com lágrimas nos olhos:
“Agradeço-Vos, meu Deus, porque me julgastes digna de Vos oferecer este sacrifício. Concedei-me também a coroa que orna os meus. Agora só me resta esta inocente filhinha que trago nos braços; eu Vo-la ofereço juntamente com minha própria pessoa. Recebei benignamente este último sacrifício que Vos apresento.”
Dizendo isso, estreitou a filha contra o coração e, como por um só golpe, caíram as cabeças da mãe e da filha.
Outra mãe repetia sem cessar a seu filho, que com ela estava amarrado na cruz:
“Coragem, meu filho, estamos no caminho do Céu. Repete sempre: Jesus! Maria!”
Um fidalgo, chamado Simeão, exclamou:
“Que felicidade a minha poder morrer por meu Salvador! Como mereci eu tamanha graça?”
Uma menina de apenas oito anos, cega, agarrou-se fortemente às saias de sua mãe, a fim de morrer com ela na fogueira.
Um pequeno de cinco anos foi despertado do sono para ser conduzido à morte.
Sem demonstrar a mínima inquietação, vestiu sua melhor roupinha e foi levado pelos carrascos ao patíbulo.
Lá chegando, ofereceu ele mesmo o pescoço ao carrasco.
Este, porém, à vista do menino, ficou tão comovido que não pôde cumprir o encargo.
Veio então outro, que, somente após vários golpes, lhe tirou a vida.
Todos esses fatos foram confirmados por testemunhas idôneas e, em muitos casos, até mesmo por inimigos declarados de nossa santa Igreja.
4) Em quarto lugar, a verdade de nossa santa fé se prova, da maneira mais evidente, por sua imutabilidade desde o tempo dos Apóstolos até o presente.
Os Apóstolos e seus sucessores preocuparam-se seriamente em conservar, sempre e em toda a sua pureza original, a doutrina do divino Salvador.
O próprio Senhor lhes recomendou expressamente tal missão, dizendo: “Ide por todo o mundo e ensinai a todas as nações… ensinando-as a observar tudo o que vos tenho mandado” (Mt 28, 19-20).
Por isso, São João admoesta os fiéis: “O que ouvistes desde o princípio, permaneça entre vós” (1Jo 2, 24).
E o Apóstolo São Judas escreve: “Rogo-vos encarecidamente que batalheis pela fé que uma vez foi entregue aos santos” (Jd 3).
Semelhante é a exortação de São Paulo aos Efésios: “Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito” (Ef 4, 3); e aos Coríntios: “Rogo-vos… que não haja entre vós cismas, mas que sejais perfeitos num mesmo sentir e num mesmo pensar” (1Cor 1, 10).
Essas admoestações foram seguidas com fidelidade pelos pastores da Igreja em todos os tempos.
Eles transmitiram, como diz Santo Agostinho (Contra Juliano, l. II, c. 10), “o que receberam de seus pais como herança espiritual para seus filhos, conservando fielmente aquilo que encontraram na Igreja”.
Por isso, a Igreja Católica permaneceu a mesma em todos os tempos.
A doutrina que ela hoje prega — como a presença real de Jesus no Santíssimo Sacramento, a invocação dos Santos, a veneração das relíquias e a existência do purgatório — é a mesma que foi crida e professada desde os primeiros tempos de sua existência.
As diversas seitas, porém, que se separaram da Igreja Católica, jamais permaneceram firmes em suas doutrinas.
Leia-se, por exemplo, a História das Variações das Igrejas Protestantes, escrita por Bossuet.
O mesmo orgulho que levou os fundadores dessas seitas a negarem a obediência à verdadeira Igreja, afastou também os seus próprios seguidores e deu origem a novos sistemas contraditórios.
Por essa razão, é de suma importância termos sempre diante dos olhos a história das heresias.
Tal consideração apresenta a nossa fé sob a mais esplendorosa luz, pois ela permaneceu, em todos os tempos, a mesma e imutável.
Além disso, alimenta em nós o espírito de submissão à santa Igreja, e nos estimula a agradecer a Deus por nos ter feito nascer e viver na verdadeira religião católica.
Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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