III – Da Confissão
A acusação dos pecados na Confissão deve ser inteira, humilde e sincera.
1) Inteira. Para quem ofendeu a Deus com um pecado mortal, não há outro meio de escapar à condenação eterna senão a confissão de seus pecados. E, ainda que alguém deles se arrependesse de todo o coração e fizesse penitência por toda a vida, se vivesse num deserto, alimentando-se exclusivamente de legumes e dormindo sobre a terra nua… nem assim obteria o perdão.
Faze o que quiseres, porém o perdão não alcançarás jamais se não te confessares dos pecados de que te lembras; digo: dos pecados de que te lembras, porque, se te esqueceres de algum sem culpa tua, ser-te-á perdoado indiretamente com os outros, contanto que te arrependas de todos eles. Se, mais tarde, porém, te recordares dele, estarás obrigado a confessá-lo.
Se voluntariamente calaste um pecado, deverás acusar-te então não só desse pecado, mas de todos os pecados já mencionados na confissão ou confissões feitas nesse estado, porque foram sacrílegas.
Quantas almas não se perdem eternamente por não terem feito uma confissão completa! Santa Teresa não cessava de repetir aos pregadores: “Pregai, pregai contra as confissões mal feitas, pois é em consequência delas que a maior parte dos cristãos se condena.”
2) Humilde. O cristão que vai se confessar deve considerar-se como um criminoso condenado à morte, carregado de tantas cadeias quantos são os seus pecados. Que compareça, pois, diante de seu confessor — que ocupa o lugar de Deus — e fale com ele com toda a humildade, já que é a única pessoa que o poderá libertar de suas cadeias e arrancá-lo das portas do inferno.
O imperador Fernando II, desejando um dia confessar-se em seu próprio quarto, foi pessoalmente buscar uma cadeira para seu confessor, o qual, admirado de tão grande humildade, ouviu as seguintes palavras de sua boca: “Meu pai, agora sou eu vosso súdito e vós meu superior.”
Há pessoas que ousam disputar com o confessor e falar com tal arrogância, como se o confessor tivesse que se submeter a elas. Que proveito poderão tirar de tal confissão? Devemos testemunhar ao confessor o maior respeito, falar-lhe humildemente e executar com toda submissão o que ele nos prescrever. Se nos repreender, devemos aceitar humildemente seus conselhos e também, com toda a humildade, aplicar o remédio que nos indicar.
3) Sincera. Deve-se confessar os próprios pecados sem ofender, de nenhum modo, a verdade, e também sem apresentar desculpas.
a) Sem mentir. Mentiras, mesmo em matéria leve, na confissão, são sempre mais graves do que fora dela, ainda que não constituam pecado mortal. Mentiras graves, naturalmente, constituem pecado grave. Se o penitente se acusasse de um pecado mortal que não cometeu, ou se calasse um pecado grave cometido e ainda não confessado, ou se negasse ter o hábito de cometer determinado pecado mortal, enganaria o representante de Deus em matéria grave, e a confissão seria incompleta, incorrendo ele em pecado grave.
b) Sem desculpar-se. No tribunal da penitência não há desculpas, pois o culpado deve ser seu próprio acusador, e não seu defensor. Quem se confessar sinceramente, sem diminuir sua culpa, alcançará perdão e maior misericórdia. Oh! Quantos se acusam mal na confissão! Uns contam ao confessor o pouco bem que praticam e nada dizem de seus pecados: “Sr. Padre, eu vou todos os dias à Missa, rezo o terço, não blasfemo, não juro, não roubo…” Mas por que dizes isso? Para seres louvado pelo confessor? — Teus pecados é que deves contar. Examina-te, e encontrarás mil coisas para acusar: calúnias, palavras levianas, mentiras, pensamentos maus ou invejosos, etc., etc.
Outros não podem confessar um pecado sem apresentar imediatamente uma desculpa: “Sr. Padre, eu blasfemei porque tenho um amo insuportável. Tive aversão a uma vizinha porque falou mal de mim.”
Que adianta uma tal confissão? Que pretendes com isso? Talvez que o confessor aprove o teu pecado? Escuta o que diz São Gregório: “Se te desculpas, Deus te acusará; se te acusas, Deus te desculpará.” O Senhor queixou-se um dia a Santa Maria Madalena de Pazzi daqueles que, na confissão, desculpam suas faltas, lançando a culpa em outros, dizendo: “Tal pessoa deu ocasião a isso; esta outra tentou-me e eu caí.” Com semelhantes confissões, só aumentam o número de seus pecados, porque, para desculpar-se, atacam sem necessidade a honra do próximo.
Toma, pois, a resolução, alma cristã, de nunca falar das faltas alheias, mas restringir-te à confissão de teus próprios pecados, dizendo: “Padre, não foi nem a má companhia, nem a ocasião, nem o demônio a causa dos meus pecados: eu ofendi a Deus por própria maldade.”
Algumas vezes, porém, devemos revelar ao confessor os pecados de nosso próximo, quer para declarar a espécie de nossas culpas, quer para que o confessor conheça melhor o perigo em que nos achamos e, assim, possa aconselhar-nos sobre o que devemos fazer. Se, em tal caso, puderes encontrar um confessor que não conheça o teu cúmplice, deves procurá-lo; não se podendo, porém, fazer isso sem grande incômodo, ou se julgares que teu confessor ordinário poderá dar-te melhores conselhos, por conhecer mais de perto teu estado de consciência, não estás obrigado a buscar um confessor estranho; deverás, contudo, poupar o mais possível o teu cúmplice.
De resto, evita toda conversa inútil. Que adianta relatar ao confessor todas as pequenas contrariedades que te sucederam e falar tanto de tuas enfermidades e tribulações? Se deixares todas essas coisas de lado, alguns minutos te bastarão para tua confissão. Considera e aproveita-te da confissão como do meio mais próprio para te corrigires de algum mau hábito e para te adiantares na perfeição. Muitos repetem sempre a mesma história, em todas as confissões, de cor e salteado, e isso durante um quarto de hora: “Eu me acuso de ter tido pouco amor a Nosso Senhor, de não ter cumprido conscienciosamente com meu dever”, etc. Essas palavras inúteis são só para encher o tempo e devem ser postas de lado. Confessa os pecados dos quais verdadeiramente queres te emendar.
Que adianta dizer: “Eu me acuso de todas as mentiras que disse, de todas as conversas contra a caridade”, se não se está resolvido a deixar essas faltas, afirmando até ser isso impossível? Isso é zombar de Jesus Cristo e do confessor.
Trata, portanto, de fazer um firme propósito de não recair nos pecados, ainda que veniais, dos quais te acusas em tuas confissões.
Finalmente, não deves interromper o confessor quando ele estiver tratando de assuntos que dizem respeito à direção de tua alma; antes, ouve com atenção o que ele te diz, e não te distraias com outra coisa. Há aqueles que falam continuamente e prestam pouca ou nenhuma atenção às palavras do confessor. São Francisco de Sales recomenda que se dê grande valor às palavras que nos são dirigidas pelo confessor, pois ele ocupa, no tribunal da penitência, o lugar de Deus, que o ilumina de modo particular para que nos diga aquilo que mais convém ao nosso bem espiritual.
4) Em muitos casos, a confissão é defeituosa, porque o penitente se envergonha de confessar com sinceridade os seus pecados. Detenhamo-nos, pois, em algumas palavras sobre a falsa vergonha.
Tendo alguém a infelicidade de cair em pecado mortal, o demônio logo lhe fecha a boca, sugerindo-lhe a ideia de que a acusação desse pecado será motivo de grande vergonha. Quantas almas, chamadas à perfeição, não ardem neste momento no inferno — e ali continuarão a arder por toda a eternidade — unicamente por causa dessa miserável vergonha!
Infelizmente, esse caso não é raro, pois quem se deixou uma vez levar pelo respeito humano continua, com facilidade, a fazer, durante meses e anos inteiros, confissões e comunhões sacrílegas.
Já que cometeste um pecado, por que recusas confessá-lo, alma cristã? “Eu me envergonho”, dizes. “Ouve, desgraçada!” — exclama Santo Agostinho — “pensas unicamente na vergonha, e não pensas na condenação eterna que te espera se não te confessares?” Envergonhas-te, dizes. Mas por quê? Que loucura! — continua o mesmo Santo — não te envergonhas de ferir mortalmente tua alma, e envergonhas-te de deixá-la examinar para que seja curada? Se o médico não vê a ferida e não conhece bem o mal, não poderá curá-lo.
Um discípulo de Sócrates entrou certa vez na casa de uma mulher de má vida. Querendo sair, avistou o mestre, que por ali passava, e tornou a entrar apressadamente, para não ser visto. Sócrates, porém, o havia notado e, aproximando-se da casa, disse: “Meu filho, é uma vergonha entrar nesta casa, não, porém, sair dela.” É também o que te digo: “Meu filho, é uma vergonha cometer o pecado, não, porém, libertar-se dele pela confissão.”
Escuta o que diz o Espírito Santo: “Há uma vergonha que traz consigo o pecado, e há uma confusão que consigo traz a glória e a graça” (Eclo 4,25). Devemos fugir da vergonha que nos leva ao pecado e nos torna inimigos de Deus; não, porém, daquela que, ligada à confissão dos pecados, nos alcança a graça de Deus e a glória do céu.
Que desgraça para uma alma calar, por uma falsa vergonha, qualquer pecado na confissão! O que deveria destruir os tristes efeitos do pecado — diz Santo Ambrósio — serve ao demônio para novos triunfos. Os soldados que, na guerra, saíram vencedores conduzem em triunfo as armas que tomaram do inimigo; assim também o demônio se ufana das confissões sacrílegas como de armas tomadas àqueles que, com elas, poderiam tê-lo subjugado. Dignas de lástima são essas almas que transformam em veneno o remédio que as poderia curar.
Dize-me, alma cristã: terias a coragem de ocultar o teu pecado, se por isso tivesses de ser lançada numa caldeira de piche ardente, vindo afinal teus parentes e conhecidos a saber desse pecado? Certamente não, especialmente se soubesses que, por uma confissão sincera, não só escaparias a esse tormento, como também se conservaria oculto o teu delito.
Ora, está fora de toda dúvida que, não confessando teus pecados, arderás para sempre no inferno; e que, no dia do juízo, não apenas teus parentes e conhecidos, mas todos os homens do mundo inteiro ficarão a par de teus pecados. “Todos nós devemos manifestar-nos diante do tribunal de Deus” (2 Cor 5,10). “Se não confessares o mal que praticaste — diz o Senhor — manifestarei as tuas ignomínias a todas as nações” (Naum 3,5).
Cometeste o pecado; se não te confessares, serás condenado. Se quiseres salvar-te, deverás confessar-te um dia, sem dúvida alguma. “E se deves enunciá-lo um dia, por que não agora?” — pergunta Santo Agostinho. Queres, porventura, esperar a vinda da morte para então não poderes mais acusar-te? Quanto mais adiares a confissão de teus pecados, quanto mais confissões sacrílegas fizeres, tanto mais se aumentará tua obstinação e o endurecimento de teu coração, segundo as palavras de Pedro de Blois: “Da omissão dos pecados origina-se a obstinação.”
Quantas infelizes almas, que se habituaram a calar um pecado, pensando em confessá-lo no leito da morte, viram escoar-se esse último momento sem se confessarem de tal pecado!
Pondera também, alma cristã, que, se não confessares teu pecado, nunca mais, em toda a tua vida, encontrarás a paz. Ah! Deus, que tormentos não tem de suportar aquele que sai do confessionário com a consciência carregada com um pecado mortal! Traz consigo, continuamente, uma víbora que não cessa de lacerar-lhe o coração.
Se tiveste a desgraça de calar um pecado mortal por vergonha, cobra ânimo e confessa-te o mais depressa possível. Isso não custa tanto; basta dizer ao confessor: “Padre, tenho vergonha de confessar certo pecado”, ou: “Tenho inquietações sobre minha vida passada.” Não será então difícil ao confessor arrancar o espinho mortífero e pôr em ordem a tua consciência. Que alegria sentirás, então, ao ver expulsa de teu coração essa víbora funesta!
A quantas pessoas deves revelar os teus pecados? A uma só, e uma só vez: ao teu confessor. Para que o demônio não te engane, deves saber que estamos obrigados a confessar unicamente os pecados mortais. Por isso, se o pecado que te incomoda não for mortal, ou se, ao cometê-lo, não o tiveste por pecado grave, não estás obrigado a confessá-lo. Por exemplo: se uma pessoa, na sua mocidade, cometeu uma ação desonesta sem saber, nem mesmo suspeitar que era pecado, não está obrigada a confessar-se dela. Se, porém, ao praticar tal ação, duvidou se era ou não pecado mortal, deverá então confessá-la, sob pena de perder-se eternamente.
Mas o confessor poderá contar a alguém o meu pecado? — O confessor está obrigado a deixar-se antes queimar do que revelar um único pecado venial ouvido em confissão; nem sequer pode falar com o próprio penitente a respeito das coisas ouvidas no confessionário.
Temo que o confessor me trate com aspereza, sabendo dos meus pecados! — Tratar-te com dureza? Por quê? Esse é um temor irrazoável, que te inspira o demônio. Os confessores não vão ao confessionário para ouvir narrações de êxtases e revelações, mas para escutar a acusação de pecados cometidos, e não podem sentir maior alegria do que ao ouvir a revelação do triste estado de um penitente, para assim poder socorrê-lo. Se, com pouco esforço, pudesses livrar da morte uma rainha gravemente ferida por seus inimigos, que alegria não experimentarias ao realizar tal obra? É exatamente o que sente o confessor quando alguém lhe revela seus pecados: pela absolvição, cura a alma do penitente da chaga causada pelo pecado e a livra da morte eterna.
Mas não se escandalizará o confessor de mim, conservando grande horror de minha pessoa para o resto da vida? — Grande erro. Longe de escandalizar-se de ti, muito se edificará com teu procedimento, vendo que, apesar da vergonha que sentes, te acusas com toda a sinceridade e confiança de teus pecados.
Esperas, talvez, que o confessor nunca tenha ouvido, em outras confissões, pecados semelhantes — ou mesmo mais graves — do que os teus? Oh! Prouvera a Deus que fosses o único que O tivesse ofendido! Também não deves pensar que o confessor te terá em horror; pelo contrário, estimar-te-á muito mais e cuidará em auxiliar-te, em vista da confiança que lhe testemunhaste ao lhe revelares tuas misérias.
Confessarei meus pecados, porém, mais tarde. — Entretanto, queres viver na desgraça de Deus, no perigo de condenação eterna e num inferno de remorsos que despedaçarão tua alma e não te deixarão um momento de repouso, nem de dia, nem de noite? Preferes sofrer tudo isso a simplesmente dizer ao teu confessor: “Padre, tive a infelicidade de cair num pecado; ajudai-me a sair dele”?
“Mais tarde confessarei meu pecado”, dizes. Mas, entretanto, queres ajuntar ainda outros sacrilégios ao pecado já cometido? E não sabes quão horrendo pecado é o sacrilégio? Queres então transformar em veneno mortífero o remédio que Jesus Cristo te preparou no sacramento da penitência, com o Seu próprio Sangue? — “Mais tarde me confessarei!” — E se a morte te surpreender? Tantas vezes isso acontece, ouvindo-se falar quase diariamente de pessoas que morreram repentinamente. E, nesse caso, qual seria tua sorte por toda a eternidade?
“Não tenho bastante confiança no meu confessor!” — Pois bem, procura outro. Supondo, porém, que não encontres outro, dize-me: que farias se tivesses uma chaga que ameaçasse tua vida, caso não lhe aplicasses um pronto remédio? Não te apressarias a chamar um cirurgião, ainda que sentisses a maior repugnância, para conservares a vida? E, para restituir a vida à tua alma e preservá-la do inferno, não terás a coragem de descobrir ao teu pai espiritual o teu verdadeiro estado?
Coragem, pois, alma cristã, vence magnanimamente a falsa vergonha. Logo que começares a descobrir o teu interior, desaparecerão todas as tuas apreensões e, depois da confissão, achar-te-ás mais feliz do que um mundano feito rei do universo. Recomenda-te à Mãe de Deus; ela te alcançará a graça de venceres tua repugnância. Se não tiveres coragem de confessar abertamente o teu pecado, dize ao teu confessor: “Padre, ajudai-me, pois preciso de auxílio; tenho um pecado na consciência do qual não tenho ânimo de me acusar.” O confessor empregará então algum meio para arrancar, sem grande custo de tua parte, esse monstro oculto que ameaça tragar-te. Se de todo não te sentires com coragem de revelar de viva voz os teus pecados, escreve-os num papel e entrega-o ao confessor, dizendo: “Acuso-me dos pecados aqui escritos.” — Assim te livrarás não só do inferno eterno, como também do temporal, recuperando a graça de Deus e a paz da alma.
Nota bem o seguinte: quanto maior for o esforço que fizeres para vencer-te, tanto maior será o amor com que Deus te receberá novamente. O Padre Paulo Segneri conta que uma freira, para se confessar de certos pecados cometidos em sua meninice, fez tantos esforços que chegou a perder os sentidos. Em recompensa de sua generosidade, concedeu-lhe Deus uma tão grande compunção e amor que, daquela ocasião em diante, ela se dedicou heroicamente à perfeição de sua alma, praticando as mais austeras penitências e morrendo em odor de santidade.
IV – Das dúvidas a respeito da confissão
Não foi minha intenção, alma cristã, inquietar-te com o que foi dito acima, pois tudo o que disse se refere unicamente àqueles que têm certeza de carregar pecados graves na consciência e, por isso, sentem vergonha de os declarar na confissão.
Quanto a certas dúvidas que talvez tenhas — sobre pecados que não sabes ao certo se cometeste ou não, ou sobre confissões passadas que julgas mal feitas — farás bem em interrogar teu confessor, exceto no caso de penderes para os escrúpulos, pois os escrupulosos de forma alguma devem confessar suas dúvidas.
É bom que conheças, em todo caso, algumas regras aprovadas pelos teólogos, as quais poderão livrar-te de muitas inquietações e restituir-te a tranquilidade da alma.
1) É sentença bem fundada que não se está obrigado a confessar pecados mortais duvidosos, isto é, aqueles dos quais se duvida se foram cometidos com pleno conhecimento e inteiro consentimento. Os teólogos apenas admoestam que, no leito da morte, está-se obrigado a fazer um ato de contrição perfeita, caso esses pecados tenham sido realmente mortais, ou então a receber o sacramento da confissão, sem contudo se exigir a declaração desses pecados duvidosos, bastando a acusação de outros pecados certos, mesmo que apenas veniais. E isso tudo somente no caso de ainda não se ter recebido o sacramento da penitência depois de cometido o pecado de que se duvida.
Além disso, afirmam teólogos abalizados — e com boas razões — que há pessoas que, há muito, levam uma vida espiritual e vivem na dúvida se cometeram ou não um pecado mortal; estas podem estar certas de que não perderam a graça de Deus, pois, humanamente falando, é impossível que uma vontade fortalecida nos bons propósitos mude subitamente e consinta imperceptivelmente num pecado mortal. O pecado mortal é um monstro tão horrendo que não pode insinuar-se desapercebidamente numa alma que o detesta há longo tempo.
2) Quando se tem certeza de que se cometeu um pecado mortal e apenas se duvida se ele já foi confessado ou não, está-se obrigado a confessá-lo, caso a dúvida seja negativa, isto é, quando não se tem uma razão suficiente para julgar que o tal pecado já foi confessado. Se houver, porém, uma razão ou suposição bem fundada de que esse pecado já foi devidamente acusado em confissão, não há mais obrigação de confessá-lo novamente, segundo a sentença comum dos teólogos.
Donde se infere que aquele que empregou o devido cuidado em suas confissões gerais ou particulares e, mais tarde, vier a duvidar se deixou ou não de mencionar um pecado ou alguma circunstância agravante, não está obrigado a acusar-se disso, pois pode razoavelmente ter por certo que fez tudo como devia.
Se sentires uma certa repugnância em te confessares de tais pecados duvidosos, alma cristã, tal sentimento não é ainda pecado; por isso, basta dizer contigo mesmo: “Meu Deus, se eu soubesse com certeza que estou obrigado a confessar-me disto, estaria pronto a fazê-lo neste instante, ainda que muito me custasse.”
Seja isso dito para os que são atormentados pelo temor de não haverem exposto claramente ao confessor as suas dúvidas. Certo é, porém, que almas devotas fazem muito bem em revelar ao confessor as dúvidas que as inquietam, mesmo que fosse apenas para se humilharem.
Excetuam-se sempre as almas escrupulosas, que de nenhum modo devem tratar de tais coisas, como já vimos acima.
O que seria mais desejável ainda é que cada um descobrisse a seu confessor as suas paixões, suas más inclinações e as causas de suas tentações, para que o confessor possa assestar o machado à raiz do mal.
Se as raízes não forem cortadas, nunca cessarão as tentações, e estar-se-á sempre em grande perigo de consentir nelas, visto que, podendo afastar suas causas, não o fazemos.
Para alguns, é muito salutar revelar também aquelas tentações que mais os humilham — principalmente as tentações contra a castidade — mesmo que não tenham nelas consentido. “Uma tentação descoberta já está meio vencida”, costumava dizer São Filipe Néri.
Eu disse: para alguns; porque, para outros, de virtude acrisolada, mas muito tímidos neste ponto e que continuamente receiam haver consentido, é melhor que se lhes proíba a acusação de tais coisas, enquanto não tiverem certeza do consentimento.
Tal procedimento é inteiramente justificado, já que, pela longa reflexão e inquirição sobre se consentiram ou não, e sobre o modo de declarar ao confessor a tentação, sua fantasia ficará vivamente impressionada pela representação dessas coisas abjetas, e se verão imersos nas maiores inquietações, sentindo crescer cada vez mais o temor de haverem realmente consentido.
O que foi dito basta. Obedece, neste ponto, alma cristã, ao teu confessor, e faze o que ele te disser.
V – Da satisfação
A satisfação, comumente chamada penitência, é igualmente uma parte necessária da confissão. Ela não é parte essencial da confissão — já que esta pode ser válida sem ela, por exemplo, às portas da morte, quando já não se pode mais cumprir a penitência imposta —, mas é parte integrante, de tal modo que a confissão seria inválida se, de antemão, se estivesse resolvido a não cumprir a penitência, pois, na confissão, deve-se ter a vontade de submeter-se à penitência imposta pelo confessor.
Tendo-se, porém, a intenção de cumpri-la e deixando-se de o fazer depois, a confissão continua válida, mas comete-se um pecado mortal, caso tenha sido grave a penitência imposta.
Deves saber, alma cristã, que quem peca não apenas se torna réu da falta cometida, mas também merecedor do castigo devido à culpa. Pela absolvição do sacerdote são remitidas as culpas e as penas eternas; e, se o penitente estiver compenetrado de uma viva e perfeita contrição, ser-lhe-ão remitidas também as penas temporais.
Se, porém, a contrição não for tão intensa, permanece sujeito às penas temporais, que deverá satisfazer ou neste mundo, por meio da penitência, ou no purgatório.
Ora, o Concílio de Trento ensina que a penitência sacramental satisfaz pela pena merecida e que, ao mesmo tempo, ela é um remédio contra os maus efeitos e consequências do pecado, contra nossas paixões, maus hábitos e dureza de coração; e que, por ela, finalmente, alcançamos a força de que precisamos para não recairmos mais nos mesmos pecados.
De resto, deves saber que, se não cumprires tua penitência neste mundo, deverás sujeitar-te a uma muito maior no purgatório. Prouvera a Deus que cada um cuidasse em satisfazer, já aqui neste mundo, toda a dívida de seus pecados. Ordinariamente, deve-se suprir, depois da morte, o que ficou em falta. Sabe-se que diversas almas, que neste mundo levaram uma vida santa, tiveram, apesar disso, de passar algum tempo no purgatório.
Não nos contentemos, por isso, com a penitência imposta pelo confessor, mas entreguemo-nos, além disso, à prática de boas obras, tais como dar esmolas, rezar, jejuar e outras mortificações semelhantes. Procuremos também ganhar todas as indulgências que pudermos, pois elas diminuem as penas que teremos de sofrer no purgatório.
Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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