O Sacramento da Penitência – Iª Parte

9–14 minutos

Por sacramento da Penitência entende-se aquele pelo qual são perdoados, em virtude da absolvição do sacerdote, os pecados cometidos após o Batismo, àqueles que os confessam ao ministro sagrado, visto que Jesus Cristo lhe conferiu esse poder pelas palavras: “Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo. 20, 23). Por isso, o Concílio de Trento lança a excomunhão contra os que afirmarem não possuir este sacramento a virtude de perdoar os pecados.

Pelo sacramento da Penitência, o pecador não só recupera a graça santificante, como também os méritos adquiridos pelas boas obras feitas em estado de graça e perdidos em consequência do pecado cometido. Por meio deste sacramento, a alma adquire também maiores forças para resistir às tentações, razão por que o Concílio de Trento afirma que, pela justificação, renovamo-nos interiormente. Todas essas graças nos são concedidas pelos merecimentos da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não falaremos aqui da confissão daqueles que vivem separados de Deus, imersos em pecados mortais — ainda que tocaremos nas confissões sacrílegas —, mas da confissão das almas tementes a Deus, que aspiram à perfeição e, por isso, procuram purificar-se mais e mais das manchas dos pecados veniais.

I – Da utilidade da confissão frequente

São Cesário conta que certo santo sacerdote obrigou o demônio, em nome de Deus, a declarar o que mais o prejudicava. Respondeu-lhe o inimigo que, entre todas as coisas, nenhuma lhe causava tanto dano nem desgosto quanto a confissão frequente.

Ouçamos o que o Senhor revelou a Santa Brígida: “Quem desejar conservar o fervor deverá purificar-se muitas vezes pela confissão e acusar-se frequentemente de suas faltas e negligências no serviço de Deus.” Uma alma que aspira à perfeição, diz Cassiano, deve empenhar-se em alcançar grande pureza de consciência; por este meio chegará ao amor perfeito de Deus, o qual só é concedido às almas puras. Com efeito, a medida do amor corresponde à pureza do coração.

Convém notar que essa pureza, neste mundo, não consiste na completa isenção de faltas — o que nunca existiu nem existirá, exceto em Nosso Senhor Jesus Cristo e na Santíssima Virgem Maria. “Em muitas coisas todos nós faltamos” (Tg. 3, 2), diz o Apóstolo São Tiago. A pureza a que podemos aspirar consiste, antes, em remover prontamente de nosso coração qualquer pecado cometido e, além disso, em não consentir jamais em pecado deliberado, mesmo venial. Ora, é precisamente esse duplo efeito que a confissão frequente opera em nós.

Pela confissão, a alma purifica-se das faltas cometidas. A esse respeito, São João Clímaco narra o seguinte: certo jovem desejava entrar em um mosteiro, para corrigir-se da vida pecaminosa que levara no mundo. O abade, antes de recebê-lo, quis provar sua vocação, e ordenou-lhe que confessasse publicamente todos os seus pecados diante da comunidade. O jovem, sinceramente decidido a dar-se todo a Deus, obedeceu. Enquanto se acusava, um dos monges — notável por sua santidade — viu um homem de venerável aspecto apagar, à medida que os pecados eram confessados, tudo quanto estava escrito em um papel. Ao término da confissão, o papel achava-se completamente branco. O que então se deu visivelmente, opera-se ainda hoje de modo invisível em todo aquele que, com as devidas disposições, se confessa.

Pela confissão não somente se apagam as manchas do pecado, mas a alma se robustece contra novas quedas. O Doutor Angélico ensina que a confissão não apenas destrói o pecado, mas ainda impede a sua repetição.

A este respeito, narra São Bernardo na vida de São Malaquias: certa senhora possuía o mau hábito de se irar de tal modo que se tornava insuportável. Ao ouvir de sua própria boca que nunca se confessara desse pecado, o santo levou-a a fazer uma confissão completa de suas faltas. Desde então, tornou-se ela tão paciente e afável, que parecia incapaz de se irritar, mesmo sob graves contrariedades.

Muitos santos, para alcançar grande pureza de consciência, praticavam a confissão cotidiana. Assim, Santa Catarina de Sena, Santa Brígida, Santa Coleta, São Carlos Borromeu, Santo Inácio de Loyola e tantos outros. São Francisco de Borja não se contentava com isso: confessava-se duas vezes ao dia.

Se as pessoas do mundo se envergonham de se apresentar aos outros com vestes manchadas, não é de estranhar que as almas que amam a Deus cuidem com tanto zelo de purificar o coração para tornarem-se mais agradáveis aos olhos do seu Bem-Amado. Não queremos, porém, obrigar os que comungam frequentemente a confessarem-se antes de cada Comunhão; contudo, agirão muito bem os que se confessarem ao menos uma vez por semana e sempre que cometerem pecado com plena advertência.

II – Do exame de consciência, da contrição e do propósito

É notório que três coisas devem preceder a acusação dos pecados na confissão: o exame de consciência, o arrependimento (ou contrição) e o firme propósito de emenda.

1. Do exame de consciência

Aqueles que recebem frequentemente os santos sacramentos não precisam fatigar-se em examinar minuciosamente todos os detalhes e miudezas dos pecados veniais. Muito mais desejaria eu que se aplicassem em descobrir as causas profundas e raízes de suas más inclinações e de sua tibieza espiritual. Isso especialmente se aplica àqueles que se confessam apenas por costume, com o espírito embotado pelas preocupações do mundo, repetindo sempre as mesmas faltas como realejos, sem verdadeira reflexão, arrependimento ou desejo de emenda.

O exame de consciência não exige grande tempo às almas espirituais, que se confessam amiúde e se guardam dos pecados veniais deliberados. Essas almas não têm necessidade de examinar sua consciência quanto a pecados mortais, pois, se os houvessem cometido, delas teriam plena consciência; e, quanto aos veniais, se deliberados, os remorsos os denunciariam claramente. Tampouco se está obrigado a confessar todos os pecados veniais de que se tem ciência; por conseguinte, não há razão para se fazer inquirição exata de todos eles, nem tampouco de seu número, circunstâncias ou motivos. Basta manifestar aqueles que mais inquietam a consciência e mais se opõem à perfeição. Quanto aos demais, faz-se uma acusação geral.

Caso não se encontre matéria atual para a confissão, pode-se acusar de algum pecado da vida passada que mais nos pesa, dizendo, por exemplo: “Acuso-me especialmente de todos os pecados que cometi no passado contra a caridade, contra a santa pureza, contra a devida obediência, etc.”

Muito consoladoras são as palavras de São Francisco de Sales a esse respeito: “Não vos inquieteis se não vos recordais de todas as vossas pequenas faltas na acusação sacramental, pois assim como muitas vezes caís sem perceber, assim também vos levantais sem o notar, por atos de amor e outros atos que as almas fervorosas costumam praticar.”

2. Da contrição

Em segundo lugar, para alcançar a remissão dos pecados, requer-se o arrependimento, ou seja, a contrição. Esta é de tal modo necessária que Deus não pode perdoar os pecados sem ela. É verdade que alguém pode salvar-se sem ter feito exame de consciência nem confessado seus pecados — por exemplo, no artigo da morte —, contanto que faça um ato de contrição perfeita e tenha o desejo de confessar-se. Mas é absolutamente impossível que alguém se salve sem verdadeiro arrependimento de seus pecados.

Para que o arrependimento nos obtenha o perdão, ele deve possuir as seguintes qualidades:

a) Verdadeiro ou interno, isto é, deve proceder do coração e não apenas dos lábios;
b) Sobrenatural, proveniente de motivo sobrenatural, como a fealdade do pecado, o temor do inferno, a perda do céu, ou a ofensa feita à infinita bondade de Deus;
c) Soberano, ou seja, devemos desgostar-nos mais da ofensa feita a Deus do que de qualquer outro mal;
d) Universal, de modo a estender-se a todos os pecados, sem exclusão de nenhum;
e) Confiante, inseparável da esperança do perdão divino.

Essas condições se requerem para os pecados mortais. Quanto aos veniais, não é necessário que o arrependimento os abarque todos, pois cada pecado venial sinceramente detestado pode ser perdoado, independentemente dos outros. De todo modo, nenhum pecado — mortal ou venial — pode ser perdoado sem sincero arrependimento. Por isso, quem se acusa de pecados veniais sem contrição, faz confissão inválida. Para receber válida absolvição, deverá arrepender-se sinceramente de ao menos um pecado, ou confessar-se de algum pecado da vida passada do qual verdadeiramente se arrependa.

Não são as confissões longas as melhores, mas as que são feitas com mais profunda contrição. O sinal de uma boa confissão, diz São Gregório, não está na multiplicidade das palavras do penitente, mas no arrependimento com que se confessa. Aqueles que se confessam frequentemente e detestam também os pecados veniais devem repelir todo escrúpulo ou dúvida sobre a sinceridade de sua contrição. Alguns se angustiam por não sentirem o arrependimento; desejariam que suas confissões fossem acompanhadas de lágrimas e comoção, e, não conseguindo isso, perturbam-se quanto ao valor de suas confissões. Tais almas devem persuadir-se de que a contrição é ato da vontade, e não do sentimento. Todo o valor e mérito da virtude está na vontade. Por isso diz São Tomás: “A dor requerida para a confissão consiste essencialmente na detestação dos pecados cometidos, e essa dor não está no sentimento, mas na vontade.”

A dor sensível nem sempre está em nosso poder, pois a parte sensitiva da alma não segue nem obedece sempre à parte racional. Logo, a confissão está bem feita se a vontade experimenta maior desgosto pelos pecados do que por qualquer outro mal.

Não te esfuerces, pois, para “sentir” teu arrependimento; antes, nota que os atos interiores mais perfeitos são os produzidos com menor esforço e maior suavidade e serenidade. O Espírito Santo “dispõe todas as coisas com suavidade” (Sb 8, 1). O Santo Rei Ezequias, falando da dor por seus pecados, dizia: “Eis que a minha dor mais amarga se me tornou em paz” (Is 38, 17).

Para tranquilizar as almas aflitas, que receiam haver feito sempre confissões inválidas por falta de contrição, desejo expor a diferença entre a contrição perfeita e a imperfeita.

A contrição perfeita é a dor dos pecados cometidos por serem ofensa a Deus, que é o Sumo Bem. Já a contrição imperfeita, ou attrição, é a dor sentida pelo dano causado ao próprio penitente, como o temor das penas do inferno.

A contrição perfeita obtém, no mesmo instante, a graça de Deus, mesmo antes da absolvição, contanto que haja intenção de receber o sacramento da Penitência. Assim ensina o Concílio de Trento.

Os teólogos afirmam que a contrição perfeita é um ato formal de caridade perfeita, pois quem a possui detesta os pecados por amor de Deus.

Ora, Gregório XIII condenou a proposição de Miguel de Bajus, que dizia que o amor de Deus pode coexistir com o pecado. Esse amor, segundo São Paulo, “é a plenitude da lei” (Rm 13, 10), isto é, o amor que ama a Deus sobre todas as coisas. E tal amor não pode subsistir com o pecado mortal.

A Escritura diz: “Eu amo os que me amam” (Pr 8, 17); “Quem me ama será amado por meu Pai” (Jo 14, 21); “Quem permanece na caridade, permanece em Deus” (1 Jo 4, 16); “A caridade cobre a multidão dos pecados” (1 Pd 4, 8). Logo, qualquer ato de contrição perfeita, ainda que fraco, apaga todos os pecados mortais.

São Tomás o afirma claramente: “A contrição, ainda que mínima, se for verdadeiramente perfeita, apaga toda a culpa.”

Já a contrição imperfeita, por si só, não obtém a graça, mas prepara a alma para recebê-la no sacramento. Ensina o Concílio de Trento: “Ainda que a contrição imperfeita não justifique sem o sacramento, contudo dispõe a alma à graça divina.” O amor que deve acompanhar a attrição não precisa ser predominante, mas ao menos inicial, como o temor das penas eternas. “O temor do Senhor é o princípio de seu amor” (Eclo 25, 16).

A contrição imperfeita pode ser excitada assim: “Meu Deus, porque por meus pecados perdi o Céu e mereci o inferno, arrependo-me mais que de qualquer outro mal de vos ter ofendido.” A perfeita, por sua vez: “Meu Deus, porque sois o Sumo Bem, infinitamente amável, amo-vos sobre todas as coisas, e, por vos amar, arrependo-me de todo o coração de vos ter ofendido.”

Tendo feito com sinceridade o ato de contrição, recebe com confiança a santa absolvição. Santa Teresa dá um sinal seguro de contrição verdadeira: “Vê se estás sinceramente resolvido a não mais cometer os pecados que confessaste; se assim for, não há por que duvidar da veracidade da tua dor.”

3. Do propósito de emenda

Em terceiro lugar, é necessário o firme propósito de não mais pecar. Este propósito deve ser:

a) Firme. Não basta dizer: “Eu desejaria não mais pecar”; é preciso dizer com determinação: “Não quero mais cometer este pecado.”
b) Universal. Deve-se ter o propósito de evitar todos os pecados mortais, sem exceção. Os veniais podem ser tratados com maior indulgência, mas as almas que aspiram à perfeição devem também evitá-los deliberadamente.
c) Eficaz. É necessário empregar os meios para evitar o pecado, especialmente afastar-se da ocasião próxima. Quem confessa pecado mortal e não quer fugir da ocasião próxima, faz confissão inválida.

Alguém poderá dizer: “Se eu cortar com tal pessoa ou romper tais relações, causarei escândalo.” Respondo: escândalo verdadeiro seria continuar na ocasião de pecado. “Mas seria ingratidão, pois essa pessoa me ajuda.” — Ajudar-te-á para tua perdição? Devemos ser, antes de tudo, agradecidos a Deus, nosso supremo Benfeitor.

Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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