Dos escrúpulos e perturbações de consciência

16–24 minutos

I – Natureza e importância dos escrúpulos e seus sinais

Por “escrúpulo” entende-se um temor vão, nascido de apreensões errôneas e infundadas, seja de estar pecando, seja de já ter pecado. No início da conversão — isto é, na emenda de vida — esses escrúpulos são muito úteis. Com efeito, uma alma que há pouco abandonou o pecado precisa purificar-se cada vez mais. E muito contribuem para isso os escrúpulos: ora levando-a a se precaver contra os verdadeiros pecados, ora tornando-a humilde, desconfiada do próprio juízo e obediente à orientação do confessor.

São Francisco de Sales diz: “Esse temor que produz os escrúpulos nas almas que há pouco saíram do caminho dos vícios é um sinal certo de uma futura pureza de consciência” (Filotéia, parte III, cap. 2). Para aqueles, porém, que já há muito se entregaram a Deus e aspiram à perfeição, os escrúpulos tornam-se coisa muito perniciosa. “Para essas almas, os escrúpulos são uma fonte de loucura”, afirma Santa Teresa, “pois as reduzem a tal estado que já não sabem dar um só passo no caminho da perfeição.” O mesmo ensina São Francisco de Sales: “Guardai-vos das inquietações de consciência”, escreve ele (Carta 213), “porque nada mais impede o progresso na vida espiritual.”

Há, por outro lado, pessoas que se gloriam de ter uma consciência despreocupada e não querem, de forma alguma, parecer escrupulosas. São, entretanto, pouco cuidadosas em seu proceder. Dão ampla liberdade aos olhos, à língua e aos ouvidos, para verem, falarem e ouvirem tudo quanto lhes apraz. Criticam os que vivem mortificados e têm vergonha de serem tidos por piedosos. Chamam de beatice, afetação ou exagero quando veem alguém falar com voz mansa ou manter os olhos baixos, e deixam-se facilmente arrastar por companhias perigosas a participar de divertimentos vãos.

Mas tais pessoas deveriam cessar de se vangloriar da chamada “liberdade de consciência”, pois isso revela tibieza e imperfeição — para não dizer relaxamento. Oxalá tivessem uma consciência escrupulosa, isto é, delicada e sensível, como seria de desejar. Cuidem para que não acabem no inferno com aqueles cujos maus exemplos seguiram, como humildes ovelhas desviadas.

Os sinais de uma consciência escrupulosa são:

  1. Temer constantemente não ter confessado tudo, ou não ter tido verdadeiro arrependimento e firme propósito na confissão.
  2. Temer pecar em todas as ações, ainda que por motivos frívolos; por exemplo, acreditar estar sempre julgando temerariamente, ou pensar que consentiu em todos os maus pensamentos que lhe vieram à mente.
  3. Oscilar entre dúvidas, julgando com grande temor e angústia que uma mesma ação, ora é permitida, ora proibida.
  4. Não encontrar paz mesmo diante do parecer de seu confessor.

De todo modo, cabe ao confessor discernir se uma pessoa é escrupulosa ou não. Os escrupulosos costumam afirmar, em meio às perplexidades da consciência, que não se trata de escrúpulos, mas de dúvidas verdadeiras e pecados reais — pois, do contrário, não se preocupariam tanto. No entanto, por se encontrarem em trevas, não estão aptos a julgar o estado de sua própria consciência. Compete, pois, ao confessor decidir.

Por isso, o penitente deve seguir com humildade os conselhos de seu confessor. Pois, se quiser resolver por si mesmo a questão, acabará mais profundamente enredado em dúvidas e inquietações. Por mais que se esforce em alcançar a paz, poderá se expor ao risco de perder-se eternamente — como mais adiante se verá.

No caso das almas que tendem à perfeição, é geralmente o demônio quem lhes infunde escrúpulos e inquietações, para que, desejando ver-se livres deles, abandonem o bom caminho e caiam no desespero — chegando, por vezes, ao extremo de tirar a própria vida. O célebre escritor espiritual Padre Scaramelli relata ter conhecido duas pessoas escrupulosas que se suicidaram: uma com um tiro, a outra com uma faca. E há outros casos semelhantes, que mostram as tristes consequências dos escrúpulos quando não são vencidos.

II – Remédios contra os escrúpulos

Os mestres da vida espiritual indicam vários remédios contra os escrúpulos. Desses, o principal, senão o único eficaz, na opinião de todos, tanto teólogos como ascetas, é a cega obediência ao confessor, com desconfiança completa no próprio parecer.

São Filipe Néri dizia que, em coisas de consciência, nada há mais perigoso do que dirigir-se cada um por seu próprio modo de ver. Uma pessoa escrupulosa, que não obedece a seu confessor, está perdida.

São João da Cruz diz que é orgulho e falta de fé não aquiescer à decisão do confessor. É esta uma grande verdade, já que Jesus Cristo declarou que quem obedecer aos sacerdotes, obedece a Ele mesmo, e quem os desprezar, despreza a sua própria pessoa (Lc 10,16). É o que faz São João da Cruz falar em nome do Senhor: Se faltares à docilidade a teu confessor, a mim mesmo desobedecerás, porque eu disse: quem vos despreza, a mim despreza. Pelo contrário, quem obedecer a seu confessor não poderá se enganar, porque, segundo São Bernardo, deve ser considerado como uma ordem de Deus tudo o que seu delegado ordenar, a não ser que se trate evidentemente de uma coisa perversa.

O bem-aventurado Henrique Suso assegura que Deus não nos pedirá contas das coisas que houvermos feito por obediência ao confessor. O mesmo dizia São Filipe Néri a seus penitentes: Quem quiser fazer progresso nos caminhos de Deus, deve submeter-se a um confessor bem instruído e obedecer-lhe como ao próprio Deus; procedendo assim, poderá estar seguro de que não terá de dar contas a Deus de seus atos. E ajuntava que se deve crer em seu confessor, porque Deus não permite que ele se engane. De minha parte, asseguro que, se alguém se tornasse cego, não haveria outro recurso senão procurar-se um guia fiel e se deixar conduzir por ele no caminho que tem a trilhar; ora, o mesmo deve fazer uma alma que, em razão dos escrúpulos, encontra-se em trevas e perplexidades: deixar-se conduzir pelo guia que Deus lhe deu, porque uma pessoa escrupulosa ordinariamente deverá falar de suas dúvidas e apertos de consciência exclusivamente com seu confessor, e nunca com outros, ainda que piedosos e sábios.

Um outro confessor, que não conhece com exatidão seu estado de consciência, poderia transtornar-lhe a cabeça com uma pergunta ou uma palavra aparentemente contrária ao parecer do confessor ordinário, roubando-lhe a confiança que até então nele depositara, e ei-la entregue, senão para sempre, ao menos por longo tempo, a grandes inquietações e confusão.

Obedece pontualmente ao teu confessor, alma cristã, e fica persuadida de que assim não poderás errar. Dessa maneira, os santos, que tantas vezes foram atormentados por dúvidas e pelo temor de ofender a Deus, acharam a paz e segurança.

Santa Catarina de Bolonha foi horrivelmente perseguida por escrúpulos, mas obedecia em tudo a seu confessor, e se, às vezes, não tinha coragem de receber a santa comunhão, bastava um só aceno seu para se dirigir incontinenti à mesa eucarística. Para movê-la a maior obediência ainda, Nosso Senhor apareceu-lhe um dia e disse-lhe que tivesse confiança, pois sua obediência muito o satisfazia. Também à bem-aventurada Estefânia de Soucino apareceu Jesus e disse-lhe: Porque depuseste tua vontade nas mãos de teu confessor, que ocupa meu lugar na terra, ser-te-á concedida toda a graça que pedires. Ao que respondeu Estefânia: Senhor, não desejo senão a vós mesmo.

Santo Inácio de Loyola, no princípio de sua conversão, foi muito atormentado por escrúpulos e trevas, não podendo encontrar sossego. Tendo, porém, uma grande fé nas palavras do Senhor: “Quem vos escuta, a mim escuta”, disse, cheio de confiança: Mostrai-me, Senhor, o caminho que devo trilhar; se me deres por guia um cão, segui-lo-ei fielmente, vo-lo prometo. Ele obedecia cegamente a seu diretor espiritual, e com isso não só ficou livre dos escrúpulos, como também tornou-se um guia e diretor excelente para os outros.

Quando Jesus Cristo vier uma vez para te julgar, alma cristã, e te pedir contas do que fizeste em obediência a teu confessor, dize-lhe resolutamente: Senhor, assim pratiquei para obedecer a vosso servo, como me impusestes. Se puderes responder dessa maneira, não há razão para temeres ser condenada, pois, suposto que o confessor tenha errado — diz o padre Álvares — o penitente não errou obedecendo, e procedeu corretamente.

Eu não sou, porém, escrupuloso, dir-me-ás tu; meus temores são fundados e não frívolos. Respondo-te: nenhum louco se tem em conta de louco, visto que a loucura consiste precisamente em não se reconhecer quão irracionalmente se procede. Assim também és escrupuloso justamente porque não vês a futilidade de teus escrúpulos, como te afirma o confessor; se reconhecesses que são meras apreensões, não farias caso delas e não serias escrupuloso. Tranquiliza-te, pois, e faze o que te diz o confessor, que conhece perfeitamente a tua consciência.

Mas réplicas: O confessor, realmente, é prudente e bom, mas eu é que não sei expor-lhe o miserável estado da minha alma. Ora, tudo te causa escrúpulo, menos o teres teu diretor em conta de um ignorante ou sacrílego? Explico-me mais claramente. Se te confessaste de tuas dúvidas a respeito de pecados graves, como dizes, o confessor estava obrigado a dirigir-te as perguntas necessárias para poder dar seu juízo quanto às tuas dúvidas; se ele, em vez disso, te impôs que as desprezasses como escrúpulos vãos, sem motivo e sem te compreender perfeitamente, como opinas, então ele o fez ou por ignorância ou por negligência sacrílega. Assim julgas de fato — e a temeridade de teu modo de ver não te causa escrúpulo?

A todas as pessoas que ousam criticar a decisão de seus confessores se deveriam dirigir as palavras que o sábio bispo de Gúbio, Sperelli, dirigiu a uma freira escrupulosa. Havendo ela acusado seu diretor de heresia por lhe ter dito que seus pretensos pecados não eram verdadeiros pecados, respondeu-lhe o bispo: “Dize-me, filha, em que universidade estudaste teologia, já que pretendes saber mais que teu confessor? Cuida diligentemente de tua costura e não te ocupes mais com tais tolices.” Não quero dar-te a mesma resposta, alma cristã, mas aconselho-te a aceitar tranquilamente o que te diz o confessor. Basta expor uma só vez as tuas dúvidas; se ele te disser: “Agora chega, não quero saber mais de tais coisas. Faze o que te mando e vai comungar” — então deves obedecer sem pensar em mais nada, e ter por certo que ele já entendeu suficientemente. Não duvides da retidão de sua decisão: entrega-te à sua direção sem replicar nem querer saber suas razões, porque, se quiseres saber os motivos que o levaram a dizer-te o que te aconselhou, só ficarás mais perplexo. Obedece, portanto, cegamente, isto é, sem pretender descobrir o como e o porquê; não te ponhas a refletir longamente sobre o que te ordenou.

Os escrúpulos são como o piche: quanto mais se mexe, mais se gruda. Quanto mais refletires, tanto mais confuso ficarás. Contente-te com o andar nas trevas, recordando-te das máximas de São Francisco de Sales: “É preciso dar-se por satisfeito sabendo-se do diretor que se anda bem, sem querer ter disso evidentes provas e percepção.” O mesmo santo diz outra vez: “O melhor é andar como cego, nas trevas, com o auxílio da divina Providência, e em união com ela suportar as cruzes, as desolações e outras adversidades da vida presente.” Uma outra máxima do mesmo Santo, própria para tranquilizar-te por completo, é que nunca se perdeu uma pessoa verdadeiramente obediente.

Deves ter sempre diante dos olhos, alma cristã, que, obedecendo a teu confessor, obedecerás a Deus mesmo. Esforça-te, pois, por obedecer sem te importares com teus escrúpulos, e persuade-te de que não poderás trilhar o caminho reto se não obedeceres. Não digas, pois: “Se eu me condenar por causa da obediência, ninguém me tirará do inferno.” Quem obedece nunca se perderá, porque a obediência é o caminho mais reto e seguro para o céu, e não pode conduzir pessoa alguma ao inferno.

III – Dos escrúpulos mais comuns

Ordinariamente, as almas timoratas são atormentadas por duas espécies principais de escrúpulos. Uma, que se refere ao passado, provém do temor de não haverem feito uma boa confissão; a outra, que diz respeito ao presente, consiste no receio de pecar em todas as ações que praticam.

1. Quanto à primeira espécie, esperam encontrar a paz fazendo e renovando muitas vezes suas confissões gerais. Que acontece, porém? Isso piora cada vez mais o seu estado, pois cada uma dessas confissões desperta nelas novos receios de não terem se acusado claramente e, mesmo, de terem se esquecido de certos pecados; e, por isso, quanto mais confissões gerais fazem, mais perturbadas ficam.

A confissão geral, sem dúvida alguma, é coisa de suma utilidade para os que ainda não a fizeram; muito auxilia a alma a se humilhar à vista das desordens de sua vida passada, que, apresentando-se assim, todas de uma vez, a seu espírito, movem-na a uma contrição mais viva de sua ingratidão e a propósitos mais firmes para o futuro.

A confissão geral também facilita ao confessor um conhecimento mais exato do estado de consciência de seu penitente, das virtudes que lhe faltam, das paixões e vícios a que mais se inclina, e põe-no em estado de aplicar os remédios mais convenientes e dar os conselhos mais apropriados. Feita, porém, uma vez a confissão geral, não é conveniente, geralmente falando, renová-la; e, sobrevindo uma dúvida, não se está ordinariamente obrigado a relatá-la, a não ser que se esteja certo de se tratar de um pecado mortal ainda não acusado em confissões passadas.

— E se meu pecado foi realmente mortal e eu não o confessei, poderei salvar-me mesmo assim? — perguntas. Sim, pois todos os teólogos, com São Tomás, afirmam que, se depois de um sério exame de consciência, deixar algum pecado mortal por esquecimento, fica ele perdoado indiretamente.

É verdade que, se alguém se recordar que ainda o não confessou, ou se tiver uma dúvida razoável sobre sua declaração, está obrigado a submetê-lo à confissão; mas é também certo que não existe essa obrigação quando, com razão suficiente, se pode julgar que o pecado já foi acusado em confissões anteriores — e isso vale para todos. A uma pessoa muito agitada por escrúpulos é até proibido falar sobre tais pecados, a não ser que possa jurar que o pecado de que se trata foi realmente mortal e ainda não confessado; pois, se a uma tal pessoa for permitido referir novamente seus pecados, expor-se-á ao perigo de ficar completamente confusa e mesmo de se entregar ao desespero. E, no caso de que no exame de consciência o penitente ficasse muito agitado e perturbado, poderia o confessor dispensá-lo por completo da obrigação de confessar os pecados da vida passada, visto que, em uma situação tão espinhosa, cessa a obrigação da integridade da confissão, já que outros inconvenientes muito menores bastam, como ensinam comumente os teólogos, para dispensar dessa integridade.

Pessoas escrupulosas devem se convencer, portanto, de que a confissão geral é para elas perigosa e perniciosa, apesar de útil e salutar para outros. O remédio único para sua enfermidade é calar-se e obedecer.

Isso quanto à confissão geral. Quanto à confissão ordinária, não é preciso que pessoas que tendem à perfeição e comungam muitas vezes se confessem antes de cada comunhão; basta que recebam a absolvição uma ou duas vezes na semana ou depois de terem cometido um pecado venial com plena deliberação. Mas, mesmo neste caso, segundo São Francisco de Sales, em uma de suas cartas, não se deve deixar a comunhão se não se puder antes confessar, porque, conforme o Concílio de Trento, os pecados veniais podem ser perdoados fora da confissão, por atos de contrição, de amor de Deus e semelhantes. Santa Mechtildis, não podendo se confessar uma vez de certas negligências, fez um ato de arrependimento e foi comungar; Nosso Senhor deu-lhe então a conhecer que tinha procedido muito bem assim praticando.

Dizia um sacerdote instruído que várias vezes se tira mais fruto de uma comunhão feita depois de cometer um pecado venial sem precedente confissão, do que de outra feita depois de recebida a absolvição, porque, no primeiro caso, se está mais disposto a fazer contínuos atos de contrição sobre as faltas cometidas e, assim, a aproximar-se da mesa do Senhor com melhor preparação e maior humildade.

2. Quanto à segunda espécie de escrúpulos, a saber, quanto ao receio de se pecar em todas as ações, ou de consentir em todo mau pensamento que se oferece a nosso espírito, deve-se bem distinguir o sentimento do consentimento; as comoções dos sentidos, que naturalmente se apresentam, nunca são pecados, contanto que a vontade as deteste; e também não se deve inquietar com o pensamento de se ter dado ocasião a esses movimentos, se se fez qualquer coisa com boa intenção, por exemplo, por causa da necessidade ou utilidade temporal ou espiritual.

É preciso considerar também que se requerem duas coisas para um pecado qualquer: plena atenção do espírito e completo consentimento da vontade — e, para um pecado mortal ainda, matéria grave; faltando uma destas condições, não há pecado mortal, e, na dúvida, as almas timoratas, e especialmente as escrupulosas, podem ficar certas de que não pecaram gravemente, se não puderem afirmá-lo com certeza absoluta.

IV – Dois privilégios especiais dos escrupulosos

As pessoas escrupulosas gozam de dois privilégios, segundo a opinião dos teólogos.

O primeiro é que não cometem pecado se agirem contra aquilo que sua escrupulosidade lhes impõe como obrigação, desde que procedam por obediência. Nem é preciso que, em cada caso particular, se convençam de que seu temor é simples escrúpulo. Basta, para estarem isentas de qualquer pecado, que seu procedimento se funde no juízo já formado de desprezar simplesmente seus vãos temores. Isso não é agir com dúvida prática, visto que uma coisa é agir com dúvida fundada de que se peca, e outra é agir com o simples temor de pecar. Com razão ensina Gerson que só quando, depois de maduro exame das circunstâncias, se tem por certo que sem pecado não se pode agir em tal perplexidade, é que há dúvida prática, e a ação torna-se ilícita. Quando, porém, se está indeciso entre todo tipo de dúvidas e não se sabe para que lado se decidir, querendo contudo fazer apenas o que agrada a Deus, nesse caso não existe dúvida prática digna de consideração, mas sim um simples temor vão, um escrúpulo, que se deve combater e desprezar com toda a firmeza.

Estando-se, pois, firmemente resolvido a não ofender a Deus e a agir unicamente por obediência, que manda desprezar o escrúpulo, não se peca, ainda que, agindo assim, se sinta temor e não se pense, no momento, no preceito do confessor.

O segundo privilégio é que podem estar seguras de que não consentiram na tentação, a não ser que estejam absolutamente certas de que conheceram plenamente a malícia do pecado e realmente quiseram cometê-lo. Enquanto estiverem em dúvida a esse respeito, essa mesma dúvida é um sinal certo de que lhes faltou o conhecimento perfeito da malícia do pecado ou o pleno consentimento, pois, se essas duas condições se tivessem verificado, não poderiam mais duvidar do pecado. Logo, proibindo-lhes o confessor que acusem tais dúvidas em confissão, devem obedecer incondicionalmente; e, se ele recusar firmemente dar ouvidos a tais queixas, não devem por isso ceder à tentação de abandoná-lo.

Devo aqui notar que os confessores que se recusam a ouvir as dúvidas propostas por pessoas escrupulosas procedem muito bem, pois, deixando-lhes a liberdade de se explicarem sempre que quiserem — sob o pretexto de se declararem mais abertamente — apenas se tornam mais inquietas e incapazes de progredir na perfeição. Isso, porém, vale mais como regra para os confessores — que devem seguir essas normas na direção espiritual — do que para os penitentes, cujo único dever é submeter-se ao juízo de seus confessores.

V – Avisos práticos

Do que foi dito, certamente concluirá uma pessoa escrupulosa que não deve querer disputar com seu diretor espiritual, nem aparecer diante dele como entendida. Se ele lhe proibir acusar-se de certas coisas, deverá obedecer, supondo que não esteja absolutamente certa de ter cometido um pecado mortal. Assim também deverá proceder quando o confessor, depois de ouvir a causa de sua inquietação, diz-lhe que comungue, sem lhe dar a absolvição. Deve persuadir-se de que é seu dever obedecer cegamente, sem inquirir sequer a razão pela qual lhe foi imposto fazer isto ou aquilo.

Mas eu quero ter a certeza de que não ofendo a Deus, dizes. Muito bem; mas essa certeza nunca a poderás ter em maior grau em tuas inquietações e perturbações de consciência do que na obediência ao teu confessor, apesar de todo o temor que sentes por desprezar os teus escrúpulos. Mesmo no momento da morte deverás proceder assim, para não te tornares um joguete do demônio. Por isso repito o que já disse acima: deves considerar como um dever de consciência agir resolutamente contra os teus escrúpulos, segundo o parecer de teu confessor — mesmo supondo que não estejas convencida de que se trata realmente de escrúpulos. Pois, se procederes de outro modo, não te adiantarás nos caminhos do Senhor e te exporás ao perigo de perder tua alma ou, ao menos, o uso da razão.

Ora, expor-se a um tal perigo é certamente um pecado. — Concluo repetindo, mais uma vez: obedece, obedece e não consideres a Deus como um tirano. Deus odeia o pecado, sim, mas não pode odiar uma alma que detesta amargamente seus pecados e desejaria morrer mil vezes antes que pecar novamente.

Dize-me: se amasses uma criatura com o mesmo amor com que amas a Deus, julgas talvez que ela não te corresponderia com grande amor? E Deus será pior que uma criatura? “Oh! quão bom é o Senhor para os que têm um coração reto” (Salmo 72,1), diz o Profeta-Rei. Deus não pode deixar de tratar com bondade uma alma que o procura, diz igualmente Jeremias (Jeremias 3,25). O Senhor disse um dia a Santa Margarida de Cortona: “Tu me buscas, mas deves saber que, da minha parte, muito mais te procuro que tu a mim.” Persuade-te, alma cristã, que Deus te diz a mesma coisa se tu o amas e o procuras. Lança-te, portanto, em seus braços, como te exorta o salmista (Salmo 54,22), e deixa-lhe todos os cuidados de tua alma; Ele te conservará e te livrará de todas as tuas penas. Obedece e expulsa todo o temor do teu coração.

Em tuas relações com Deus, não deves atormentar-te com tantas coisas insignificantes. Se verdadeiramente o amas, não deves pensar que Ele se irrita contra ti por causa de qualquer falta pequena. “Não creiais, minhas filhas”, dizia Santa Teresa (Caminho de Perfeição, cap. 42), “que Deus atenda a tantas miudezas como pensais; não vos aperte isso o coração, pois assim perdereis muitos bens. Tende sempre uma boa intenção e firme resolução de jamais ofender a Deus.”

Pede sempre a Deus, em tuas orações, a graça de obedeceres sempre ao teu pai espiritual, e convence-te de que, se fores obediente, certamente te santificarás e salvarás tua alma.

Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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