Das tentações

15–22 minutos

I – Razões pelas quais Deus permite que sejamos tentados

Alma cristã, dificilmente estará Deus contente com tua vida passada, e certamente tu mesma não o estás; e, se a morte viesse agora buscar-te, seguramente não morrerias de bom grado. Contudo, como espero, estarás resolvida a servir, no futuro, mais fielmente a Deus e a amá-Lo com mais fervor. Por isso, apronta-te para o combate contra as tentações. Ouve como o Espírito Santo te exorta: “Filho, ao entrares para o serviço de Deus, prepara tua alma para a tentação” (Eclo 2,1). E, de fato, permite o Senhor, às vezes, que as almas que Lhe são mais caras sejam também mais atormentadas pelas tentações.

No deserto da Palestina, entre exercícios e orações, São Jerônimo era horrivelmente atormentado por tentações. “Eu estava só — escreve ele — e meu coração estava cheio de amargura; meus membros, macilentos e extenuados, estavam cobertos com saco; minha pele estava enegrecida como a de um africano; a terra dura era meu leito, que me servia mais para tormento do que para descanso; minha comida era escassa e, apesar de tudo isso, meu coração se inflamava, contra minha vontade, e ardia na mais hedionda concupiscência. Minha única consolação consistia em dirigir-me apressadamente a Jesus Cristo e pedir-Lhe seu auxílio” (Ep. ad Eustoch.).

1) Se Deus Nosso Senhor permite que nos sobrevenham tentações, é para que nos humilhemos. «Que sabe aquele que não é tentado?» (Eclo 34,9), pergunta o Sábio. E, com efeito, nunca se aprende a conhecer melhor a própria miséria do que quando se é tentado. Antes da tentação — como nota Santo Agostinho — confiava São Pedro demasiadamente em si mesmo, chegando até a declarar que preferiria morrer a negar Jesus. Quando, porém, lhe sobreveio a tentação, negou-O covardemente, e assim aprendeu a conhecer sua própria fraqueza. «Pedro, que antes da tentação colocara sua confiança em si mesmo — continua Santo Agostinho (In Ps. 36, s. 1) — chegou a conhecer-se na tentação.»

Pela mesma razão, quis o Senhor que São Paulo fosse atormentado por uma daquelas molestas tentações que, mais do que as outras, humilham o homem, a fim de que não se ensoberbecesse com as revelações celestes que lhe foram concedidas. “E, para que a grandeza das revelações não me ensoberbecesse, foi-me dado o espinho na carne, o anjo de Satanás que me esbofeteie” (2Cor 12,7).

2) O Senhor permite também que sejamos tentados para nos enriquecer de méritos. Muitos cristãos piedosos são atormentados por escrúpulos, por causa dos maus pensamentos que têm. Afligem-se, contudo, sem razão, pois não são os maus pensamentos, mas o consentimento neles que constitui o pecado.

Por maiores que sejam as tentações, não poderão manchar nossa alma se sobrevierem sem nossa culpa e nós as repelirmos. Santa Catarina de Sena e Santa Ângela de Foligno tiveram fortes tentações contra a pureza, mas essas tentações, longe de ofuscar a pureza dessas almas castas, mais ainda a aumentaram.

Cada vez que uma alma vence uma tentação, adquire um novo grau de graça e, correspondentemente, um novo grau de glória no Céu, de maneira que ganharemos tantas coroas quantas forem as tentações vencidas — afirma São Bernardo. Nosso Senhor mesmo disse a Santa Mechtildes: “Tantas serão as pérolas que uma alma engasta em sua coroa quantas forem as tentações por ela vencidas com o auxílio de minha graça.”

Nos Anais dos Cistercienses conta-se que, certa vez, durante a noite, um monge foi assaltado por tentações impuras, conseguindo, porém, sair vencedor. Ora, nesse meio-tempo, um irmão leigo teve a seguinte visão: apareceu-lhe um jovem encantador, que lhe apresentou uma coroa de pedras preciosas, dizendo-lhe: “Procura tal monge e entrega-lhe esta coroa que ele conquistou esta noite.” O irmão leigo relatou a visão ao abade, que mandou chamar o referido monge e, ao saber dele da resistência que opusera à tentação, reconheceu que aquela era a recompensa que o Senhor lhe preparara no Céu.

Também Nossa Senhora revelou a Santa Brígida que ela haveria de receber uma recompensa especial no Céu se se esforçasse por repelir os maus pensamentos, mesmo que estes não desaparecessem de seu espírito, apesar de seus esforços. “A cada um de teus esforços corresponderá no Céu uma coroa”, disse-lhe a Santíssima Virgem.

3) Deus permite ainda as tentações porque elas nos movem à prática das virtudes, especialmente da humildade e da submissão à vontade divina. As penas que mais afligem as almas amantes não são a pobreza, as doenças, os desprezos e perseguições, mas sim as tentações e o abandono interior.

Quando uma alma goza da presença amorosa de Deus, as dores, as injúrias e os maus-tratos que sofre por parte dos homens, longe de abatê-la, consolam-na, por lhe permitirem oferecer algo a seu Deus, como penhor de seu amor. Tudo isso serve-lhe de lenha, por assim dizer, com que alimenta o fogo do amor divino.

Um tormento, porém, imensamente atroz para quem ama a Jesus Cristo de todo o coração é ver-se exposto ao perigo de perder a graça de Deus por causa da tentação, ou então, na desolação, temer já a ter perdido — o que lhe é ainda mais horrível.

Entretanto, esse mesmo amor dá-lhe força para sofrer com paciência tais provações e para continuar, resolutamente, no caminho da perfeição.

Nenhuma tempestade é tão perigosa para um navio veleiro — escreve São Jerônimo — como a falta prolongada de vento. Assim também, a tempestade das tentações obriga o homem a não permanecer ocioso, mas a unir-se mais intimamente a Deus, por meio da oração e da renovação de seus bons propósitos, fazendo repetidos atos de humildade, confiança e resignação.

A esse respeito, lê-se o seguinte fato na vida dos Padres: um jovem era continuamente atormentado por tentações violentas contra a pureza. Vendo-o certa vez tão angustiado, seu pai espiritual perguntou-lhe: “Queres, meu filho, que eu peça a Deus que te livre dessas muitas tentações, que não te deixam sequer uma hora de paz?” O bom jovem respondeu: “Não, meu pai, porque, embora sinta o tormento dessas tentações, reconheço, mesmo assim, a sua utilidade; exerço-me continuamente na prática de todas as virtudes. Agora eu rezo mais do que antes, jejuo com mais frequência, e me esforço com maior empenho para mortificar minha carne rebelde. É, portanto, melhor que peças a Deus que me assista com sua graça, para que eu suporte com paciência estas tentações e, por meio delas, progrida na perfeição.”

Não devemos desejar as tentações contra a pureza; se, porém, formos assaltados por elas, devemos recebê-las com resignação e pensar que Deus as permite para nosso maior bem. O apóstolo São Paulo, atormentado por tais tentações, pediu ao Senhor várias vezes que o livrasse delas, recebendo, contudo, a resposta de que a graça divina lhe bastava: “Por isso roguei ao Senhor três vezes, para que o anjo de Satanás se apartasse de mim. Ele, porém, me disse: Basta-te a minha graça, pois a força se manifesta mais perfeitamente na fraqueza” (2Cor 12,8).

Certamente dirás: “Mas São Paulo foi um santo.” Ao que te responde Santo Agostinho (Conf., I, 12): “Que pensas? Acaso foi por própria força que os santos resistiram às tentações? Não foi antes pela graça de Deus? Era por si mesmos ou pelo Senhor que podiam eles alguma coisa?” Os santos confiaram em Deus — e assim conquistaram a vitória.

O mesmo santo Doutor acrescenta: “Abandona-te às mãos de Deus, e não temas: Ele, que te expõe ao combate, não te deixará só nem te abandonará, lançando-te à perdição. Entrega-te a Ele e não temas; não Se afastará de ti, abandonando-te à queda.”

4) Deus permite, finalmente, as tentações para nos desprender cada vez mais do mundo e fazer-nos desejar, com mais ardor, a sua visão no Céu. Almas devotas, vendo-se neste mundo combatidas dia e noite por tantos inimigos, tornam-se desgostosas da vida e exclamam: “Ai de mim, que minha peregrinação dura tanto” (Sl 119,5), e suspiram pela hora em que possam dizer: “Rompido está o laço, e nós estamos libertadas” (Sl 122,7).

A alma desejaria subir até Deus, mas uma cadeia a retém neste mundo, onde é continuamente assaltada por tentações. As almas que amam a Deus suspiram, por isso, pela libertação, para verem-se livres do perigo de O ofenderem.

II – Meios para vencer as tentações

O primeiro meio de vencer as tentações — e também o mais próprio — é recorrer a Deus pela oração. Santo Agostinho recomendava a humildade a todos os que desejam tornar-se verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, dizendo: “Se me perguntares qual é a primeira coisa na escola de Jesus Cristo, responder-te-ei: a humildade. Qual a segunda? A humildade. E a terceira? A humildade. E todas as vezes que me perguntares, te responderei: a humildade” (Ep. a Diosc.).

Da mesma forma te responderei se me perguntares quais são os meios para vencer as tentações. O primeiro é a oração, o segundo é a oração, o terceiro é a oração — e todas as vezes que me perguntares, dar-te-ei a mesma resposta.

Em especial, as tentações impuras só serão vencidas se nos recomendarmos a Deus. Já o Sábio o afirma: “Sabendo que não poderia ser continente a não ser que Deus mo concedesse… dirigi-me ao Senhor e supliquei-Lhe…” (Sb 8,21). São Jerônimo escreve: “Logo que a concupiscência incitar nossos sentidos, devemos exclamar: Senhor, ajudai-me!” (Ep. 22 ad Eust.).

O abade Isaías recomendava também a seus discípulos que, em tais tentações, repetissem sempre: “Senhor, vinde em meu socorro”, afirmando que essa oração é um baluarte seguro nessas ocasiões. Deus, de fato, não pode faltar às promessas que fez de atender aos que O invocam: “Chama por mim, e Eu te darei ouvidos” (Jr 33,3). “Pedi e recebereis, buscai e achareis” (Mt 7,7). “Todo o que pede, recebe” (Lc 11,10). “Tudo o que desejardes, pedi, e vos será dado” (Jo 15,17).

O segundo meio é desconfiar humildemente das próprias forças. Justamente para que nos tornemos humildes, permite o Senhor que venham sobre nós as tentações — algumas até horrorosas. Molestados de tal maneira, devemos nos humilhar e dizer: “Senhor, mereço tais coisas por causa dos pecados da minha vida passada.”

Na vida dos Padres conta-se que uma anacoreta chamada Sara era horrendamente atormentada, na solidão, pelo espírito de impureza. Apesar disso, não pedia ao Senhor que a libertasse dele, mas humilhava-se e apenas suplicava forças para resistir. Quanto mais o demônio se esforçava para fazê-la cair, tanto mais ela se empenhava em humilhar-se diante de Deus e pedir sua assistência.

Não podendo o demônio arrastá-la a esse vício, procurou induzi-la ao orgulho, e disse em alta voz: “Venceste-me, Sara, venceste-me.” A humilde serva de Deus respondeu: “Não, espírito diabólico, não fui eu que te venci, mas meu Jesus e meu Deus.”

Humilhemo-nos também nós e, ao mesmo tempo, recorramos a Deus cheios de confiança, pois Ele protege todo aquele que n’Ele põe sua esperança. “Ele é o protetor de todos os que n’Ele esperam” (Sl 17,31). Ele mesmo prometeu salvar todo aquele que esperar n’Ele: “Porque esperou em mim, Eu o libertarei” (Sl 30,2).

Se formos atormentados por tentações e pelo temor de perder a Deus, digamos com toda a confiança: “Em Vós, Senhor, não serei confundido eternamente.” Assim devemos exclamar com coragem, pois — como nota Santa Teresa —, vendo o demônio que se faz pouco caso dele, perde toda a força.

E se o inimigo nos representar como imensamente difícil praticar tudo o que devemos para nos santificar, digamos, cheios de confiança em Deus e desconfiados de nós mesmos: “Tudo posso n’Aquele que me conforta” (Fl 4,13). Por mim mesmo nada posso; com o auxílio de Deus, porém, posso tudo.

O terceiro meio é declarar as tentações ao diretor espiritual. Os ladrões, ao se verem descobertos, fogem imediatamente. São Filipe Néri costumava dizer que uma tentação revelada já está meio vencida.

Contudo, procede com muita prudência um confessor que, às vezes, proíbe a certas almas de consciência delicada e virtude provada — mas ao mesmo tempo escrupulosas — a revelação das tentações que as perseguem, principalmente se forem contra a fé e a santa pureza. Isso porque, para relatar tais tentações, teriam de examinar como lhes sobrevieram esses pensamentos, como se comportaram durante a tentação, se acharam neles complacência ou prazer, se consentiram ou não — e, com tal investigação, acabariam por aumentar ou renovar as más impressões, tornando ainda maiores suas inquietações.

Se o confessor estiver convencido de que uma pessoa não consentiu em tais sugestões, é melhor exigir dela, em virtude da obediência, que não faça delas menção alguma. Assim se deixava dirigir Santa Joana de Chantal. Ela mesma conta que, atormentada durante muitos anos por horrendas tentações, sem se recordar de nelas haver consentido, jamais as confessara, seguindo o parecer de seu diretor espiritual. “Nunca estava consciente de meu consentimento” — assim se exprime ela, dando a entender que tinha inquietações e escrúpulos quanto a tais tentações — “e assim tranquilizei-me com a proibição do confessor de não mais me acusar dessas tentações.”

Geralmente falando, porém, é muito recomendável, para vencer as tentações, revelá-las ao confessor.

O quarto meio, também muito importante, é fugir das ocasiões. “Quem se acha no combate contra sua vontade — diz São Basílio — encontrará auxílio em Nosso Senhor; quem se lançar, porém, voluntariamente nele, não merece compaixão e será por Deus abandonado.” O mesmo já dissera o Sábio: “Quem ama o perigo, nele perecerá” (Eclo 3,27), isto é, quem o procura e voluntariamente se expõe à ocasião de pecar, sucumbirá — mesmo que confie em Deus —, porque essa confiança não é santa, mas audaciosa e repreensível.

III – Outras regras para o tempo da tentação

Quem aspira à perfeição deve estar resolvido a antes deixar-se retalhar do que deliberadamente dizer uma mentira ou cometer qualquer outro pecado, por menor que seja. Se, porém, vier, por desgraça, a cometer um pecado — deliberado ou indeliberado —, não deve se perturbar nem se inquietar.

A inquietação nunca provém de Deus; é uma tentação do demônio, uma fumaça que se eleva do reino da perturbação — do inferno. O demônio a sugere porque, como dizia São Luís, gosta de pescar em águas turvas.

Primeiramente, uma alma se inquieta por ter cometido uma falta; depois, por ter se deixado inquietar. Ora, em tal estado de perturbação, ela não apenas se torna incapaz de praticar o bem, mas facilmente cai em outras faltas, como impaciência, distrações, entre outras.

Por isso, ao cometer uma falta, é preciso humilhar-se e recorrer imediatamente a Deus. Deve-se então fazer um ato de amor a Deus, de dor e contrição, renovar o propósito de emenda e pedir, com toda a confiança, a assistência divina, dizendo:

“Senhor, eis o que posso por mim mesmo; se me retirardes vossa mão, farei coisas ainda piores. Amo-vos, Senhor, arrependo-me do desgosto que vos dei, não quero mais renová-lo. Concedei-me o auxílio que de vós espero.”

Feito isso, a alma deve aquietar-se como se não tivesse cometido falta alguma. E, se no mesmo dia tornar a cair, deve fazer novamente o mesmo. E, se cair cem vezes, cem vezes deve proceder da mesma maneira: humilhar-se e reerguer-se, e nunca permanecer prostrada.

Deve-se notar bem que não procede da humildade, mas do orgulho, a perturbação após uma falta cometida. Muitas vezes, não nos afligimos tanto pelo desgosto que causamos a Deus, mas pela vergonha de nos apresentarmos diante d’Ele manchados por essa falta. Por isso, não devemos nos perturbar após o pecado, mas humilhar-nos e reconhecer-nos capazes de cometer não só essa falta, mas outras ainda maiores.

Façamos, portanto, um ato de amor a Deus e conservemo-nos em paz. Procedendo assim, as faltas, longe de nos separar de Deus, ainda mais nos unem a Ele, segundo as palavras do Apóstolo: “Aos que amam a Deus, todas as coisas cooperam para o bem” (Rm 8,28) — até mesmo o pecado, como acrescenta a Glossa.

Devemos aqui fazer duas observações importantes:

Primeiramente, é necessário saber que algumas tentações devem ser vencidas por atos positivamente contrários. Por exemplo: a tentação da vingança deve ser vencida procurando fazer o bem àquele que nos ofendeu; a da soberba, por meio de atos de humildade; a da inveja, regozijando-nos com o bem do próximo.

Há tentações, porém, como as contra a fé, contra a castidade, as de blasfêmia, entre outras, que devemos combater de forma indireta e negativa — pelo desprezo e por atos de virtude que não se opõem diretamente a essas tentações, como são os atos de confiança, de contrição e de amor.

São João Clímaco conta que um monge estava a ponto de desesperar, em consequência das tentações de blasfêmia pelas quais era muito perseguido. Recorrendo a um padre antigo e piedoso, narrou-lhe as execrandas blasfêmias que lhe atravessavam o espírito. “Fica tranquilo”, disse-lhe o ancião, “eu tomo sobre mim todos esses teus pecados. De hoje em diante, não te incomodes mais com isso.” E assim procedeu, conservando a paz do coração pelo resto de sua vida.

Muito particularmente quando se trata de tentações contra a pureza, não se deve combater diretamente esses pensamentos. Nesses casos, o melhor é repetir sempre: “Não, de nenhum modo quero fazer isso; não quero consentir nesta tentação.”

Produzir atos diametralmente opostos altera a fantasia, e os objetos impuros se apresentam mais vivamente ao espírito, tornando o combate mais árduo e prolongado, com grande perigo para a alma.

Em geral, o mais seguro é renovar a resolução de antes mil vezes morrer do que ofender a Deus, recorrer imediatamente a Nosso Senhor, fazer atos de esperança e de amor, e invocar os santos nomes de Jesus e Maria.

Deve-se também notar que as tentações mais perigosas são aquelas que se apresentam sob aparência de bem, pois, nesse caso, a alma pode lançar-se num abismo sem perceber. A esse perigo estão expostas, de modo particular, as pessoas piedosas, porque os bons — segundo São Bernardo — só são enganados pelo demônio sob a aparência do bem.

Assim, seria uma tentação muito perigosa ter apego a seu pai espiritual mais do que convém, ou a qualquer outra pessoa, pelo simples motivo de ser ela santa.

Por conclusão, mais uma vez repito: o meio mais necessário e importante é recorrer a Deus. Se todos os homens recorressem a Deus nas tentações, não haveria queda alguma, pois a experiência mostra que só sucumbe quem disso se esquece — especialmente quando se trata de tentações impuras.

Se quisermos, pois, vencer o inimigo, peçamos a Deus o Seu auxílio em todas as tentações — e isso imediatamente.

Na vida dos Padres lê-se que um monge se queixou a um velho eremita de ser continuamente tentado contra a castidade. Deus revelou, porém, a este, enquanto rezava por seu companheiro, que ele não se afastava logo da tentação, mas antes se entretinha com ela. O eremita, então, o admoestou, e o monge, emendando-se de sua falta, viu-se também livre das tentações.

“Destrói o inimigo — diz São Jerônimo — enquanto for pequeno, pois é fácil matar um leão quando ainda é pequeno, mas quase impossível quando está grande.”

As tentações contra a pureza devem ser repelidas imediatamente, como se apagam prontamente as faíscas de fogo. O melhor modo de vencê-las é voltar-lhes as costas e não lhes prestar atenção. Que faria uma rainha, se fosse tentada de maneira torpe por um escravo? Certamente lhe voltaria as costas, sem lhe dirigir uma só palavra.

Assim também se deve proceder nessas ocasiões: voltar as costas ao demônio, sem lhe dar uma única resposta, e invocar os santos nomes de Jesus e Maria. Procedendo assim, nossa vitória é certa.

“Logo que sentires uma tentação, faze como as crianças que, vendo o lobo, correm imediatamente para os braços de seu pai ou de sua mãe” — escreve São Francisco de Sales — “recorre também, com confiança filial, a Jesus e Maria, e serás socorrido.”

Se, apesar disso, a tentação persistir, não se deve ficar perplexo ou impaciente, pois o demônio poderia tirar proveito dessa confusão para nos arrastar à queda.

Devemos nos conformar humildemente com a vontade de Deus, que permite sejamos atormentados por pensamentos tão torpes, e dizer-Lhe: “Senhor, mereço ser perseguido por pensamentos tão execrandos, em castigo das ofensas que Vos tenho irrogado; mas a Vós compete auxiliar-me e libertar-me deles.”

Se, mesmo assim, a tentação perdurar, não abandonemos por desespero a oração. Antes, renovemos o propósito de antes sofrer todos os tormentos e morrer mil vezes do que ofender ao bom Deus, e continuemos a implorar Sua assistência.

E se a tentação se tornar tão forte que pareça não se poder mais resistir, redobrem-se as orações e súplicas. Proste-se diante de um crucifixo ou de uma imagem da Santíssima Virgem, peça-se com ainda maior insistência, suspire-se, chore-se, rogando amparo — e busque-se o auxílio dos santos sacramentos.

Deus, é verdade, está sempre pronto a ouvir as súplicas que Lhe são dirigidas, e também é certo que não são os nossos esforços, mas a Sua graça que nos torna vencedores. Contudo, Ele exige, muitas vezes, que empreguemos esforços extraordinários e grandes, para então vir em nosso socorro, sustentar nossa fraqueza e conduzir-nos à vitória.

Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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