Do combate ás paixões

11–17 minutos

Da necessidade de combater as paixões

Grande é o número das almas que, chamadas à perfeição, não se fazem santas porque não querem renunciar a certas inclinações terrenas, chegando assim a arriscar até a sua salvação eterna. A aspiração predominante de uma alma em seus exercícios de devoção, em suas comunhões, meditações, leituras espirituais, etc., deve ser sempre a vitória sobre suas paixões, a extirpação de todas as afeições terrenas, a remoção de tudo o que a impede no caminho da perfeição. Para esse fim devem ser dirigidos todos os seus exercícios de devoção, como todas as suas orações: pedir sempre a Deus o desapego de tudo o que é criado e a vitória sobre suas más inclinações.

Alguns cristãos são zelosos em receber amiúde a santa comunhão, em fazer suas orações costumadas, etc., mas procuram com isso unicamente satisfazer um certo sentimento piedoso, contentar uma certa sentimentalidade espiritual, pondo nisso todos os seus esforços. Assim permanecem, porém, sempre retidas na terra com suas inclinações, ficam impedidas de progredir na vida espiritual, retrocedendo até cada vez mais, por esse motivo. Não raro acontece que essas almas caem miseravelmente na desgraça de Deus.

Notemos bem que o demônio, quando tenta cristãos piedosos, não os induz, a princípio, ao pecado mortal. No começo, dá-se por satisfeito se consegue prender as almas por um cabelo, pois, se pretendesse acorrentá-las logo no princípio com uma cadeia, causar-lhes-ia temor e fugiriam; detendo-as, porém, por um cabelo, fácil se lhe torna amarrá-las com um fio, que substitui por uma corda, prendendo-as finalmente com fortes cadeias, fazendo-as escravas do inferno.

Suponhamos que certa pessoa, depois de pequena desavença com o próximo, guarda algum rancor em seu coração: eis o cabelo. Em consequência disso, não fala mais com ele, nem o saúda: eis o fio. Aumentando-se a antipatia e o rancor, começa a falar mal dele e a ofendê-lo, provocando-o: eis a corda. Ocorrendo qualquer outra desavença e suposta ofensa, apodera-se dela um ódio mortal: eis a cadeia que a torna escrava do demônio.

Outro caso. Uma pessoa deixa-se levar por uma inclinação ou simpatia toda natural para com outra, a entreter-se longas horas com ela, sob pretexto de atenção e gratidão; a isso seguem-se presentes mútuos, a estes palavras afetuosas e, finalmente, o incêndio da paixão e a ruína completa da infeliz. — Como um jogador, depois de perder muitas quantias insignificantes, exclama, desesperado: agora arrisco tudo, e, dando a última cartada, perde tudo o que possuía; do mesmo modo, uma alma tíbia, depois de ter sofrido pequenas perdas na vida espiritual, sente-se sem forças para resistir às tentações, e exclama também: vou agora aventurar tudo, e, sucumbindo, perde a Deus e lança-se no abismo.

Realmente, grande é o poder que tem o demônio sobre nós, quando nos vê escravos de uma paixão. Como Santo Antônio o nota, o demônio primeiro observa qual é a coisa que mais nos agrada; descoberta esta, põe-no-la diante dos olhos, provoca a nossa concupiscência, e assim nos arma laços para prender-nos ao seu império.

Se ouvirmos da queda de uma alma que se havia consagrado à vida espiritual, não pensemos que sucumbiu logo à primeira tentação, diz Cassiano; podemos, sem temor, afirmar que começou com faltas pequenas até cair em pecados graves. São João Crisóstomo nos afirma que conheceu diversas pessoas ornadas, a seu ver, de todas as virtudes, e que, mais tarde, se precipitaram num abismo de crimes, por haverem feito pouco caso das faltas leves. A serpente, no começo, não despertou em Eva o desejo de comer o fruto, mas simplesmente de contemplá-lo; entrou então em uma conversa com ela; Eva começa a duvidar da ameaça divina de morte e, dessa maneira, foi arrastada à queda.

Segundo Santa Teresa, o demônio já se dá por satisfeito se uma alma lhe abre um pouco só a porta de seu coração, pois achará meios de fazê-la abrir por inteiro. Esta é também a opinião de São Jerônimo: “O inimigo não tenta logo no princípio ao pecado grave, mas a culpas leves, para que possa penetrar quase despercebidamente na alma e nela estabelecer o seu domínio e então seduzi-la ao pecado grave” (Ep. 40). Um homem piedoso não se torna perverso de uma vez, diz São Bernardo; começam com pequenas faltas aqueles que mais tarde se entregam aos maiores crimes.

Toda alma, pois, que por Deus foi chamada à perfeição, deve precaver-se contra todo pecado, por mínimo que seja; do contrário, cairá facilmente em pecado mortal e, por sua queda, se exporá ao perigo de ser abandonada por Deus. Seus pecados não serão, nesse caso, como os daqueles que pecam nas trevas, mas serão pecados de malícia, já que peca sob o influxo da luz recebida de tantos sermões, comunhões, meditações e conselhos de seu diretor espiritual, e não podendo assim pretextar ignorância ou fraqueza, depois de ter recebido tantas luzes e tantos meios para se consolidar na virtude.

O pecado cometido por malícia é o que é praticado com perfeito conhecimento de sua gravidade, segundo São Tomás; um tal pecado é acompanhado das mais nocivas consequências, pois quanto maiores forem as luzes recebidas, tanto mais forte será a sua obsecação. O pecado será também tanto maior quanto maior for a ingratidão de quem o comete.

Ora, quantas graças, quantos favores não concede Deus a uma alma devota! Ele a enriquece com suas graças, com auxílios internos e externos, a fim de torná-la santa; dá-se-lhe na comunhão, fala-lhe muitas vezes confidencialmente nas meditações, leituras espirituais e visitas ao Santíssimo — numa palavra, eleva-a de um profundo vale a uma alta montanha. E, apesar de tudo isso, quer essa alma voltar as costas a seu Deus e tornar-se sua inimiga. Ó infeliz, tua queda não é uma queda comum, mas um arremesso e precipitação na perdição. Quem cai na planície, não se fere facilmente, mas quem cai de um alto monte, diz-se que rolou vertiginosamente. Deus fala pela boca de Ezequiel: “Coloquei-te no monte santo de Deus… e tu pecaste e eu expulsei-te do monte de Deus e te entreguei à perdição” (Ezequiel 28, 14). Dificílima é, por isso, a conversão de uma alma que, tendo antes servido a Deus, voltou-lhe depois as costas.

Meios para refrear nossas paixões

1) O primeiro meio consiste em procurarmos conhecer e combater, antes de tudo, a nossa paixão dominante, isto é, a que nos serve de ocasião constante de pecado. “Devemos nos valer, para vencer o demônio, dos mesmos artifícios de que se serve ele para nos subjugar”, diz São Gregório. Ele se esforça por excitar em nós a paixão a que somos mais inclinados e, por isso, nós devemos também combater de modo especial contra essa paixão.

Quem vence sua paixão predominante vence facilmente as demais paixões; quem, pelo contrário, se deixa subjugar por ela, sofre um duplo prejuízo. Primeiramente, não se adiantará na perfeição. Mui acertadamente pergunta Santo Efrém: “Que adianta à águia suas grandes asas, se tiver os pés presos, sem poder levantar voo?” Quantas almas não existem semelhantes a essa águia: poderiam elevar-se até Deus; mas, presas à terra por suas afeições, não podem voar e nem mesmo dar um passo no caminho da perfeição. São João da Cruz diz que basta qualquer fio para reter uma alma em seu voo para Deus.

Em segundo lugar, quem se deixa dominar por uma paixão não só não progride no bem, como também se expõe a um grande perigo de se perder eternamente, o que é ainda pior. Logo, é de grande importância que se procure combater, antes de tudo, a paixão à qual se sente mais propenso; do contrário, pouco adiantará mortificar-se em outras coisas. Por exemplo, este não tem apego ao dinheiro, mas muito à sua honra; se ele não procurar vencer-se nas humilhações que lhe sobrevêm, pouco lhe adiantará sua indiferença para com o dinheiro. Aquele, pelo contrário, não liga muito à sua honra, mas ama em excesso o dinheiro; se não se esforçar em mortificar sua cobiça pelo dinheiro, pouco lhe aproveitará suportar os desprezos.

Resolve-te, portanto, alma cristã, a combater energicamente a má inclinação que te governa. Uma vontade decidida tudo supera com a graça de Deus, que nunca é negada.

São Francisco de Sales era de natural muito irascível; mas, violentando-se a si mesmo, tornou-se um modelo de mansidão e paciência. Se superaste uma paixão, cuida em combater as outras, pois, restando uma só na alma, ela bastará para arrastá-la à perdição. “Se não domares todas as tuas paixões, nunca viverás em paz, pois uma só que te domine bastará para ta roubar”, dizia São José de Calasanz. Se se deixar de tapar um pequeno buraco no fundo de um navio, escreve São Cirilo, irá a pique, por melhor e mais forte que seja a embarcação. É o motivo que leva Santo Agostinho a dizer: “Se lançaste por terra uma paixão, calca-a aos pés e procura combater, entretanto, uma outra que ainda te resiste.”

Se tens o desejo de te fazeres santo, segue o meu conselho e pede a teu diretor que te guie pelo caminho que lhe parecer melhor. Dize-lhe que não te poupe por razão alguma e, em tudo, contrarie tua vontade, se isso te for útil. “Uma vontade reta é uma vontade perfeita”, dizia um grande servo de Deus, o cardeal Petrucci.

Santa Teresa conta que um de seus confessores tinha especial cuidado em contrariar seus desejos e afirma que foi justamente esse que mais a fez adiantar. O demônio muitas vezes a tentou a escolher outro confessor; Deus, porém, a repreendia severamente todas as vezes que dava ouvidos a essa sugestão. “Toda vez que me resolvia a deixá-lo”, escreve ela, “ouvia interiormente uma repreensão que me era mais sensível que tudo o que me dizia o confessor.”

2) O segundo meio consiste em nos esforçarmos para resistir às paixões e subjugá-las antes de se tornarem fortes, pois, uma vez arraigadas pelo hábito, dificílimo se torna vencê-las. Santo Agostinho diz: “Para que a concupiscência não se torne forte, reprime-a enquanto é ainda pequena.” Por exemplo: em uma controvérsia, desejarías dar uma resposta mordaz ou, casualmente, observar alguém de quem gostas; resiste logo no princípio a essa tendência, para que essa pequena chaga não se torne uma úlcera incurável.

A esse respeito, um dos Padres antigos nos dá um conselho espirituoso. Um dia, São Doroteu disse a um de seus discípulos que arrancasse um pequeno cipreste ali plantado. O jovem o fez num instante. Disse-lhe então que arrancasse um maior; o jovem o fez também, mas teve que empregar grandes esforços. Por fim, ordenou-lhe que arrancasse um terceiro, que já tinha profundas raízes: o jovem tentou, mas ficaram baldados todos os seus esforços. “A mesma coisa se dá com as nossas paixões”, disse-lhe então o santo; “no princípio é fácil arrancá-las, mas será dificílimo extirpá-las depois de haverem lançado raízes, em consequência do mau costume.”

É também o que nos ensina a experiência. Por exemplo: quando alguém é gravemente ofendido, sente então um acesso de cólera; se afoga no mesmo instante essa faísca, calando-se e oferecendo tudo a Deus, não haverá incêndio e, em vez de sair perdendo, ganhará muitos merecimentos. Cedendo, porém, a esse sentimento, conservando-o e alimentando-o em seu interior, essa faísca, que tão facilmente poderia ser extinta, ocasionará um grande fogo, isto é, um ódio mortal, de tristíssimas consequências.

No coração de certa pessoa declara-se uma afeição desregrada por outra; havendo oposição logo no começo, esse sentimento se desvanecerá. Cedendo, porém, a essa propensão, tornar-se-á ela em breve pecaminosa e nociva. Acautelemo-nos, pois, para não alimentar os animais ferozes que nos haveriam de tragar mais tarde.

3) O terceiro meio consiste em desviarmos a paixão para outro objeto, como diz Cassiano, a fim de torná-la útil e proveitosa em vez de pecaminosa e perniciosa. Se alguém, por exemplo, sente uma inclinação desregrada por outra pessoa, mude de objeto e dirija sua paixão para Deus, que é infinitamente amável e que o favoreceu mais do que todas as criaturas. Se alguém é inclinado a agastar-se com os que o contradizem, ordene sua indignação contra os próprios pecados, odiando-os como a inimigos que mais o prejudicaram do que todos os demônios do inferno. Se um terceiro é inclinado a grangear honras e bens temporais, transfira esse desejo para as honras e bens eternos.

4) Para cumprirmos com o sobredito, devemos meditar muitas vezes nas verdades da fé, ler assiduamente livros espirituais, conversar amiúde com os outros sobre as verdades eternas e, principalmente, imprimir na memória certas máximas da vida espiritual. Essas máximas são:
— Só Deus merece o nosso amor.
— O único mal que devemos odiar é o pecado.
— Tudo o que Deus quer é bom.
— Nesta terra tudo terá fim.
— É melhor levantar da terra uma palha em cumprimento da vontade de Deus, que converter o mundo inteiro contra sua vontade.
— Deve-se sempre praticar o que se desejaria ter praticado na hora da morte.
— Devemos viver neste mundo como se nele nada mais existisse que Deus e nós.

Quem nutre seu espírito com tais pensamentos e máximas, pouco será inquietado pelas coisas terrenas e sentir-se-á bastante forte para reprimir suas más inclinações. Mui particularmente deverá o cristão cuidar em praticar atos de virtudes opostas às más inclinações que mais o atormentam e o arrastam ao pecado. Quem se sentir inclinado ao orgulho deve propor-se e esforçar-se para praticar a humildade com todos e suportar corajosamente toda espécie de detrações. Quem sentir propensão para a sensualidade no comer e beber deverá evitar, quanto possível, contentar esse desejo.

O mesmo vale quanto às outras faltas e paixões. Quanto a isso, será de grande importância fazer o que diz Cassiano, isto é, representar-nos vivamente, na meditação, os casos em que podemos nos encontrar — por exemplo, receber uma afronta, ser alvo de uma injustiça, etc. — e fazer o propósito de nos humilhar e submeter à vontade de Deus nessas emergências.

Essa prática — excetuando-se a impureza — contribui imensamente para que a alma esteja preparada para qualquer acontecimento inesperado. Por esse meio, os santos conseguiram não estar desprevenidos e até receber com paciência e alegria todos os escárnios, injúrias, maus-tratos e injustiças.

É também muito útil fazer o exame particular de consciência sobre os defeitos principais e impor-nos uma penitência todas as vezes que cairmos nos mesmos defeitos. Não devemos desistir de combater esses defeitos antes de os havermos extirpado, animando-nos com o pensamento do auxílio divino, exclamando com Davi: “Perseguirei os meus inimigos e os capturarei, e não voltarei enquanto não os destruir” (Salmo 17, 38).

Ainda que tenhas feito muitos progressos na virtude, muito te enganas se julgares que, enquanto viveres em teu corpo mortal, tuas paixões estão mortas, diz São Bernardo; conservam-se elas por algum tempo abatidas, mas levantar-se-ão sempre de novo. Por isso, exorta-nos Cassiano a vigiar continuamente, para que o vício não se enraíze, pois, se nos descuidarmos, reaparecerá com maior força e nos subjugará.

Devemos, muito especialmente, desconfiar de nossas próprias forças, se quisermos reprimir todas as nossas paixões, e depositar em Deus toda a nossa esperança, dizendo com Davi: “Não porei minha esperança em meus arcos; minha espada não me poderá salvar” (Salmo 43, 7). Se confiarmos em nossos propósitos e zelo, em pouco tempo estaremos perdidos; procuremos, pois, sempre o auxílio de Deus, repetindo sem cessar: Meu Jesus, misericórdia! Meu Deus, assisti-me! Deus prometeu conceder graças ao que pedir e ser encontrado por quem o procurar: “Pedi e recebereis, buscai e achareis” (Lucas 11, 9). Repito, mais uma vez: é preciso pedir e não cessar de pedir. “Importa orar sempre e não cessar de o fazer” (Lucas 18, 1). Se não cessarmos de pedir, com um verdadeiro desejo de conseguir as graças, a vitória será nossa, ainda que não seja imediatamente.

Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

Uma resposta para “Do combate ás paixões”.

  1. Avatar de Maria Rosangela
    Maria Rosangela

    sim, a vida do Cristão é uma luta constante. Só haverá fim, quando, tendo sido fiel, perseverantes, nos encontrarmos na Feliz Pátria. Iluminai , Senhor, a vossa Face sobre nós. Convertei-nos para que sejamos Salvos.

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