Para se restaurar um belo pomar, deve-se primeiro arrancar os espinhos e o mato e plantar árvores que deem fruto. É isso que o Senhor significa a Jeremias ao encarregá-lo do cultivo do jardim de sua Igreja: “Eis que te constituí hoje sobre todas as gentes e sobre os reinos, para que arranques e destruas… edifiques e plantes” (Jer 1,10).
Para nos santificarmos, devemos primeiro purificar o nosso coração das faltas e ali plantar as virtudes. “O primeiro ofício da piedade consiste na extirpação dos pecados”, diz Santa Teresa. Já tratamos do pecado mortal; falemos agora do pecado venial e de sua consequência, a tibieza.
I – Malícia do Pecado Venial
O pecado venial, ainda que não mate a alma, fere-a, contudo; ainda que não ofenda gravemente a Deus, não deixa de o agravar. Não é um mal tão grande como o pecado mortal, mas é, ainda assim, maior que qualquer outro que possa pesar sobre as criaturas. Uma mentira, uma imprecação, são males maiores que a condenação ao inferno de todos os homens, santos e anjos.
Os pecados veniais são ou deliberados, ou indeliberados. Estes são os que o homem comete sem pleno consentimento e claro conhecimento; os deliberados são os que se cometem com vontade livre e de olhos abertos. Não falamos aqui dos primeiros, isto é, dos que se cometem por pura fragilidade humana, pois desses nenhum homem fica isento. “Em muitas coisas nós todos caímos” (Jac 3,2).
Todos os homens, mesmo os santos, cometem faltas. “Se dissermos que não temos pecado, seduzimos a nós mesmos, e a verdade não habita em nós” (1Jo 1,8), diz São João. Por causa de nossa natureza corrompida pelo pecado, trazemos em nós mesmos a inclinação para o mal, de modo que, sem uma graça especialíssima, como a concedida à Santíssima Virgem, é-nos impossível passar a vida sem pecados veniais indeliberados.
Semelhantes faltas Nosso Senhor permite até em seus servos mais fiéis, que se consagraram por inteiro a seu amor, para conservá-los na humildade e mostrar-lhes que cometeriam, sem dúvida alguma, pecados graves se sua mão divina não os preservasse, já que tantas vezes sucumbem às faltas leves, apesar de seus bons propósitos e resoluções.
Caindo, pois, em tais faltas, humilhemo-nos, reconhecendo nossa fraqueza, e avivemos nosso zelo, redobrando nossas orações, para que Deus sobre nós estenda seu braço poderoso e não permita que cometamos pecados mortais.
Tratamos aqui, portanto, só dos pecados veniais que são cometidos com plena deliberação. Estes, com o auxílio de Deus, podemos evitá-los todos, e assim procedem muitas almas santas que estão resolvidas a antes morrer que cometer um só pecado venial deliberadamente.
Santa Catarina de Gênova dizia que, para uma alma que está unida a Deus por um puro amor, o menor pecado é mais intolerável que o próprio inferno, e atestava de si mesma que desejaria antes ser lançada num mar de fogo do que cometer deliberadamente um só pecado venial. E com razão falam assim os santos, pois, iluminados pela luz divina, conhecem claramente que a menor ofensa a Deus é um mal maior que a morte e a aniquilação de todos os homens e anjos.
“Quem terá a ousadia de dizer: isto é só um pecado venial, e, portanto, não é um grande mal?” — pergunta Santo Anselmo. “Se Deus é ofendido, como se poderá afirmar que isso é um pequeno mal?”
Se um súdito dissesse a seu rei: “Em outras coisas obedecer-te-ei, mas neste ponto não, porque não é de grande importância”, que castigo e repreensão não mereceria?
Santa Teresa dizia: “Prouvera a Deus que temêssemos tanto os pecados veniais como tememos o demônio, pois que eles nos podem prejudicar mais que todos os demônios do inferno.” E a Santa repetia muitas vezes às suas filhas: “Deus nos guarde de todo pecado, mesmo do mínimo pecado venial deliberado.”
Isto vale em especial para uma pessoa religiosa, conforme as palavras de São Gregório Nazianzeno: “Toma a peito que uma única ruga em tua alma mais te desfigura que uma grande chaga aos mundanos.”
Aparecendo diante do rei uma cozinheira com as vestes todas manchadas, ele não a repreenderá apenas por ser uma cozinheira; mas ficará descontente e indignado ao ver uma única mancha nas vestes de sua esposa, a rainha. Do mesmo modo procede Jesus Cristo com as faltas dos mundanos e com as de suas esposas.
Desgraçado o religioso que não se importa com os pecados veniais: nunca se tornará santo, nunca encontrará a paz.
Enquanto Santa Teresa não se desprendeu de certas faltas pequenas, não fez progresso algum na piedade e sentia-se infeliz, vendo-se privada de toda consolação divina e humana.
Justamente esta é a razão por que tantas almas consagradas ao serviço de Deus levam uma vida infeliz e não encontram a paz; de um lado, privam-se das alegrias do mundo, e, de outro, não experimentam as consolações espirituais, porque, sendo mesquinhas para com Deus, Nosso Senhor também se mostra avaro para com elas.
Entreguemo-nos sem restrição a Deus, e Deus também se dará incondicionalmente a nós. “Eu pertenço ao meu Bem-Amado, e para mim se volta Ele” (Ct 7,10).
II – Consequências do Pecado Venial
Talvez alguém diga: os pecados veniais não me impedirão de alcançar a perfeição, mas também não me roubarão a graça de Deus nem me privarão do céu, mesmo que os cometa em grande número, e isso me basta. Quem pensa assim, ouça as palavras de Santo Agostinho: Como podes dizer que a salvação te basta? Ao dizeres: “isso me basta”, já estarás perdido.
1. Para compreender bem esta máxima e perceber os perigos decorrentes dos pecados veniais deliberados e habituais, considera que o costume de cometer pecados veniais cria na alma uma inclinação para os pecados mortais. Da mesma forma, o hábito de nutrir pequenas antipatias dá origem a grandes ódios; o costume de furtar pequenas coisas conduz a grandes roubos; uma afeição menos criminosa pode levar à luxúria. São Gregório afirma: “A alma nunca permanece no lugar onde caiu; ela continua sempre a deslizar para mais baixo.” Assim como as doenças graves não surgem de um único excesso considerável, mas de pequenos e contínuos descuidos, também as faltas graves muitas vezes resultam dos pecados veniais.
O Pe. Álvares diz: “As antipatias persistentes, as curiosidades repetidas, as impaciências e intemperanças frequentes não matam imediatamente a alma, mas a enfraquecem de tal modo que, se for acometida por uma grave enfermidade, isto é, por uma forte tentação, não poderá resistir e sucumbirá.”
Os pecados veniais, é verdade, não separam a alma de Deus, mas a distanciam d’Ele e a expõem assim ao grande perigo de perdê-Lo. Quando Jesus Cristo foi aprisionado no horto, São Pedro não queria abandoná-Lo; mas só de longe é que o seguiu também. Assim também muitos não querem separar-se de Jesus pelo pecado mortal, mas seguem-no de longe, não querendo evitar os pecados veniais. A quantos, porém, não sucede o mesmo que aconteceu a São Pedro? Apenas entrado na casa do sumo sacerdote, indigitado como discípulo do Salvador, negou-O com juramento.
Santo Isidoro diz que Deus permite, com toda a razão, que caiam em pecados mortais aqueles que não evitam os veniais, como castigo por sua negligência e fraco amor. Já antes dele, dissera o Sábio: “Quem despreza as coisas pequenas, pouco a pouco sucumbirá” (Ecl. 19,1).
Não digas, portanto, que é um mal pequeno o hábito de cometer pecados veniais, diz São Doroteo, mas considera antes suas consequências. O mau costume é uma úlcera que consome o coração, tornando-o fraco para resistir às tentações e roubando-lhe as energias para vencer as grandes. “Não faças pouco caso de tuas faltas por serem pequenas”, escreve Santo Agostinho, “teme-as antes por serem muitas, pois seu número poderá causar a ruína que sua gravidade não ocasionou”. E noutra parte: “Acautelas-te para não seres esmagado pelo peso de uma grande pedra, mas não cuidas que podes ser sufocado por um monte de areia”. Isso se refere aos pecados veniais que, cometidos continuamente e por costume, sem se cogitar em emenda, tiram ao homem o temor de cometer pecados graves.
Quem não teme muito o pecado está perto de cometê-lo. Por isso, São João Crisóstomo não hesitou em afirmar que devemos temer quase mais os pecados veniais habituais do que os pecados mortais, porque estes, por si, inspiram terror, ao passo que aqueles são tidos em pouco valor. Assim, acontece que a alma, já acostumada a desprezá-los, deixa de dar importância a cometer pecados graves. O Espírito Santo diz: “Prendei as pequenas raposas, que devastam as vinhas” (Ct 2,15). Não diz: “Prendei os leões, os leopardos”, mas sim “as pequenas raposas”, pois aqueles são temíveis e, por isso, toma-se precaução contra eles e evita-se o dano; entretanto, estas são desprezadas e, no fim, arruínam por completo as vinhas, construindo ali suas tocas e secando-lhes as raízes. Da mesma forma, os pecados veniais contínuos e cometidos de modo deliberado secam os desejos piedosos, que são as raízes da vida espiritual, e assim ocasionam a ruína da alma.
2. Os pecados veniais, portanto, cometidos com plena reflexão e por hábito, expõem a alma ao perigo de se perder, porque criam nela uma propensão para o pecado mortal e lhe roubam a força para resistir às tentações. Mas não é só isso: esses pecados também nos privam do indispensável auxílio de Deus. Para que nosso espírito disponha nossa vontade a praticar o bem, necessita da luz divina, e para que ela se mostre dócil e obediente aos movimentos da graça, necessita da assistência divina.
Precisamos também do socorro ininterrupto de Deus contra as potências do inferno, senão sucumbiremos a todas as tentações do demônio, já que não possuímos, por nós mesmos, forças suficientes para resistir-lhe. É Deus quem nos concede essa virtude ou graça e impede que o demônio nos assalte com tentações às quais não resistiríamos. Por isso, Jesus Cristo nos ensinou a rezar: “E não nos deixeis cair em tentação” (Mt 6,13). Nessa súplica, pedimos a Deus que se digne livrar-nos de todas as tentações às quais não poderíamos opor resistência.
Mas que fazem os pecados veniais? Eles nos privam dessas luzes, dessa assistência e proteção de Deus, e então a alma, obscurecida, fraca e árida, perde o gosto pelo que é celeste e mergulha no que é terreno, correndo grande perigo de perder também a graça de Deus. É igualmente em consequência dos pecados veniais que Deus permite ao demônio trazer-nos tentações tão graves. Uma alma que é avara para com Deus bem merece que Deus se mostre menos liberal para com ela. “Quem semeia pouco, também pouco colherá” (De nov. rup., c. 23).
Na visão das sete rochas, o bem-aventurado Henrique Suso viu muitos que se deixaram ficar na primeira rocha. Perguntando quais eram esses, Jesus respondeu-lhe: “São os tíbios, que se contentam em viver sem pecado mortal e não aspiram a mais.” À pergunta se eles se salvariam, o Senhor lhe respondeu: “Naturalmente se salvarão, se morrerem sem pecado mortal; mas eles se acham em muito maior perigo do que julgam, pois querem servir a Deus e à carne, o que é simplesmente impossível, e, por isso, ser-lhes-á extremamente difícil, nessa disposição, permanecer na graça de Deus.”
O Espírito Santo aconselha-nos a não vivermos sem temor dos pecados já perdoados. Mas por que esse temor, se já alcançamos o perdão? Porque ainda nos resta sofrer as penas temporais, não obstante o perdão da culpa, e, junto com essa pena, costuma vir também a privação da assistência especial de Deus. Os santos, por isso, nunca cessaram de chorar seus pecados, ainda que leves e já perdoados, pois sempre temiam que Deus os castigasse, apesar de tudo, privando-os das graças necessárias para a aquisição da bem-aventurança eterna.
O favorito de um rei que caiu em sua desgraça não consegue recuperar seu antigo prestígio, mesmo alcançando o perdão, se não der, antes, provas indubitáveis de arrependimento, assim como de uma resolução inabalável de compensar a ofensa feita, demonstrando maior zelo no serviço de seu senhor. O mesmo se dá com uma alma que ofendeu a Deus. Se ela não detestar do fundo do coração suas faltas e não as fizer esquecer pela prática de boas obras, o Senhor, com toda razão, retira sua mão, deixando de se lhe comunicar tão confidencialmente como fazia antes da queda. E tanto mais se distancia o Senhor quanto maior for o número de vezes que ela repete suas faltas; assim, a infeliz cai facilmente em pecados graves e perde-se, porque, de um lado, tornou-se mais fraca e inclinada ao mal e, de outro, está menos sustentada pela assistência divina.
3. Os pecados veniais são, de modo particular, prejudiciais às almas que são chamadas por Deus a uma perfeição maior. São Gregório Magno diz que quem é chamado à santidade jamais alcançará a eterna bem-aventurança se não se tornar realmente santo. Disse certa vez o Senhor a Santa Ângela de Foligno: “Aqueles que eu ilumino para que sigam o caminho da perfeição e que, não obstante, teimam em trilhar o caminho comum, com desprezo de sua própria alma, são por mim abandonados.” Deve-se, pois, tomar bem a peito que, para se tornar santo, são necessárias muitas e especialíssimas graças.
Ora, como Deus há de conceder graças tão abundantes à alma que, chamada de modo particular para seu serviço, desonra-O em vez de glorificá-Lo? Por sua vida negligente e imperfeita, dá a entender que Deus não é digno de um serviço atencioso e que não encontra em Seu serviço a felicidade que aspirava, ou que a divina Majestade não merece tão grande amor a ponto de se antepor o Seu agrado a toda satisfação própria.
É verdade que, mesmo as almas piedosas que se consagraram ao amor divino não deixam de ter faltas, diz o Pe. Álvares, mas elas esforçam-se continuamente para corrigir sua vida e diminuir essas faltas. Como poderá, porém, uma alma que peca por hábito e continua a pecar sem se arrepender e sem pensar em emenda libertar-se delas e evitar o perigo de cair em pecado grave? “Por muitos anos cometi faltas”, dizia o Pe. Luís da Ponte, “mas nunca fiz paz com elas.” Infelizes das almas que, conhecendo as faltas que cometem, fazem paz com elas.
São Bernardo diz: “Apesar de uma pessoa cair repetidas vezes, pode-se esperar que se emende e volte ao bom caminho, se detestar suas faltas; mas, deixando de abominá-las e continuando a repeti-las sossegadamente, tornar-se-á sempre pior.” “As moscas que estão para morrer estragam a suavidade do unguento” (Ecl 10,1).
Tais moscas são os pecados que permanecem na alma, diz o venerável Dionísio Cartusiano, como um rancor inveterado, inclinações desregradas, a vaidade, a intemperança, a imodéstia dos olhos e da língua – faltas que cometemos e das quais não nos arrependemos. Grandes são os estragos que causam. Põem a perder a suavidade do unguento, isto é, da devoção na santa comunhão, na oração, na visita ao Santíssimo Sacramento, fazendo com que a alma não encontre nisso nem unção, nem consolação.
Essas faltas habituais, diz Santo Agostinho, são como a sarna, que rouba à alma toda a beleza, tornando-a tão disforme que afasta o divino Esposo e o impede de acariciá-la. Nesse estado, a alma realizará seus exercícios espirituais com negligência, pois neles já não encontra nem consolação, nem conforto, e acabará por abandoná-los por completo. Não utilizando mais os meios necessários para alcançar a salvação, facilmente se perderá.
Ainda que continue a comungar, a rezar e a visitar o Santíssimo Sacramento, pouco ou nenhum fruto tirará disso, pois nela se realiza a palavra do Espírito Santo: “Semeastes muito e produzistes pouco… aquele que ajuntou merecimentos, depositou-os em um saco furado” (Agg. 1,6).
É exatamente o que acontece com uma alma tíbia e imperfeita. Deposita todos os seus exercícios espirituais em um saco roto, não colhendo deles merecimento algum, pois, ao cometer tantas faltas, torna-se cada vez mais merecedora de punição, especialmente da privação das graças que Nosso Senhor lhe havia preparado, caso obedecesse às inspirações interiores. “A todo o que já tem, dar-se-á mais, e terá em abundância; mas ao que não tem, tirar-se-á até o que parece ter” (Mt 25,29).
Quem, por sua fiel cooperação, conserva o lucro das graças e dos talentos recebidos de Deus, verá sua graça e sua glória aumentadas; mas aquele que faz mau uso de seus talentos, deixando-os sem proveito e sem crescimento, Deus lhe tirará até o que lhe deu e não o fará participante das graças que lhe haviam sido destinadas.
Um cristão piedoso deve, pois, acautelar-se muito para não se deixar prender pelo demônio por meio de uma paixão ou pecado, ainda que mínimo, já que isso poderia acarretar sua eterna perdição. Deve acautelar-se, digo, porque a mínima inclinação má poderá ser a causa de sua condenação eterna. “Quem corre atrás de coisas perdidas, perder-se-á a si mesmo”, dizia Santa Teresa, e tinha toda a razão para falar assim, pois o Senhor lhe mostrou o lugar que lhe estava preparado no inferno, caso não renunciasse a certa afeição por um parente seu, apesar de nunca ter cometido um só pecado mortal.
Se o pássaro está livre, voa facilmente; se está preso, mesmo que seja por um fio tênue, fica retido no chão como um desprezível réptil. Do mesmo modo, uma alma livre de toda inclinação terrena se eleva sempre mais para Deus; estando, porém, presa a qualquer coisa terrena, nunca se elevará da terra, e seu estado se tornará cada vez pior, até sucumbir miseravelmente.
III – Estado de Tibieza
Do que foi dito acima, conclui-se que o cristão que deseja assegurar sua salvação eterna deve evitar até as menores faltas, pois esses pequenos regatos acabam por se tornar um rio caudaloso, no qual a alma miseravelmente se afoga. As faltas repetidas e negligenciadas arrastam a alma, pouco a pouco, ao estado de tibieza. Sobre esse estado, o Senhor fala, por boca de São João, ao bispo de Sardes: “Conheço as tuas obras, sei que não és nem frio nem quente” (Apocalipse 3,15).
O cristão tíbio não ousa voltar completamente as costas a Deus, mas também não se preocupa com os pecados veniais, caindo, assim, em inúmeras faltas todos os dias — impaciências, mentiras, murmurações, gula, imprecações, apatia, loquacidade, curiosidade, vaidade, apego às honras, à boa fama e à própria vontade. Ele não dá importância a essas imperfeições nem pensa em corrigir-se delas.
“Oh, antes fosses frio ou quente! Mas, porque és morno, e não és nem frio nem quente, estou a ponto de vomitar-te da minha boca”, conclui o Senhor.
Oh, antes estivesses frio, ou seja, em pecado mortal, privado da minha graça, pois assim sentirias melhor a necessidade de auxílio; mas, porque permaneces na tibieza, morno, estás em maior perigo de condenação, aproximando-te cada vez mais, sem perceber, da queda no pecado mortal, da qual dificilmente te erguerás.
São Gregório nutre esperanças em relação a um pecador não convertido; porém, desespera de uma alma tíbia, que não se importa com sua própria tibieza. E a razão está nas palavras do Senhor: “Porque és morno, estou a ponto de vomitar-te da minha boca.”
Uma bebida quente ou fria é facilmente ingerida, mas a morna causa náuseas e ânsias de vômito. Assim também acontece com a alma tíbia: ela corre o risco de ser vomitada por Deus, ou seja, abandonada por sua graça. Deus se retira completamente dela, pois aquilo que foi vomitado causa repulsa e não se torna a tomar.
Mas como Deus começa a vomitar uma alma? Deixando de lhe conceder, como antes, aquelas luzes vivas da fé, aquelas consolações espirituais, aqueles santos desejos, aqueles convites amorosos, aquele gosto sobrenatural que a tornavam fervorosa e generosa. Assim, ela começa a abandonar a meditação, a comunhão, as visitas ao Santíssimo Sacramento e as súplicas. Ou então, continua a praticar esses exercícios, mas com grande contrariedade, desgosto e distração, apenas para livrar-se da obrigação, sem devoção nem fervor.
Dessa forma, começa o Senhor a vomitá-la.
Ora, como a infeliz já não encontra senão enfado e tédio em seus exercícios de devoção, sem qualquer consolação, acaba por abandoná-los por completo e cai no pecado mortal.
A tibieza, em suma, é como uma febre lenta — quase imperceptível, mas fatal. A alma, uma vez tornada tíbia, já nem sequer cogita corrigir suas faltas; torna-se tão insensível aos remorsos que se precipita no abismo sem sequer perceber.
IV – Meios contra a Tibieza
“Mas então não haverá mais esperança de salvação para mim?” — perguntar-me-á uma alma infeliz que se encontra no estado de tibieza.
Segundo o que foi dito, será para mim, se não totalmente, ao menos quase impossível livrar-me dessa miséria.
Ouve, porém, o que te diz o Senhor: “O que é impossível aos homens, é possível a Deus” (Lucas 18,27).
Quem reza e emprega os meios necessários alcança tudo.
E quais são esses meios?
1. Se se trata de faltas irrefletidas, fruto da pura fragilidade, elas não causam, a princípio, grande dano, desde que sejam detestadas com humildade.
Deve-se, contudo, notar que há uma dupla humildade em relação às faltas cometidas: uma santa, que vem de Deus, e outra desregrada, que tem origem no demônio.
A humildade santa é aquela pela qual a alma reconhece suas imperfeições, envergonha-se de as haver cometido, confessa seu nada diante de Deus, arrepende-se e detesta suas faltas, mantendo-se, contudo, sempre em paz.
Não perde a coragem nem se inquieta ao ver sua miséria; ao contrário, redobra seu fervor, confiando em Deus e buscando reparar as faltas cometidas por meio de boas obras e da fidelidade no serviço do Senhor.
A falsa humildade, porém, é aquela que perturba a alma, enchendo-a de inquietação e desconfiança, tornando-a fraca e, por assim dizer, incapaz de qualquer boa obra.
Ouçamos o que diz Santa Teresa a esse respeito:
“Se bem que a verdadeira humildade leve a alma a reconhecer sua miséria, isso não lhe causa perturbação nem inquietação do coração; ao contrário, consola-a. Ela entristece o coração por causa da ofensa cometida contra Deus, mas, ao mesmo tempo, dilata-o na confiança em sua misericórdia. Nesse estado, a alma tem luz suficiente para, de um lado, envergonhar-se de si mesma, e, de outro, louvar a Deus, que por tanto tempo a suportou. A humildade que provém do demônio, porém, priva a alma da luz para todo o bem, fazendo-a sentir que Deus castiga tudo com rigor implacável. E essa é uma das mais sutis astúcias do demônio.”
Quanto a essas faltas, inevitáveis devido à fraqueza humana, São Bernardo expressa muito bem que, assim como a negligência em relação a elas é repreensível, um temor excessivo também o é. Devemos detestar esses pecados, mas sem perder a coragem, pois o Senhor os perdoa com facilidade.
“Sete vezes cai o justo, mas torna a levantar-se” (Provérbios 24,16).
Quem cai por fraqueza, facilmente se levanta. São Francisco de Sales ensina que, do mesmo modo que essas faltas são cometidas sem que se perceba, também são reparadas sem que se note. Santo Tomás já dizia o mesmo, ensinando que tais pecados são perdoados indiretamente quando a alma, com fervor, se eleva a Deus por meio de atos de amor, submissão, oferta, entre outros, como costuma fazer uma alma devota.
A remissão desses pecados veniais ocorre por meio dos sacramentais, como observa o Doutor Angélico. Isso se dá, por exemplo, pela recitação do Pai-Nosso, pela confissão espiritual, pelo bater no peito, pela bênção de um bispo, pela água benta, pela oração em uma igreja consagrada, entre outros.
De modo especial, essa remissão é um efeito dos santos sacramentos, sendo particularmente atribuída à Santa Comunhão. Sobre isso, diz São Bernardino de Sena:
“A alma, pela Comunhão, pode ser elevada a uma devoção tão grande que esta a purifica de todos os pecados veniais.”
2. Se tivermos a infelicidade de cometer, em algum momento, pecados veniais inteiramente deliberados, não devemos, por isso, perder a coragem nem nos perturbar. Devemos, antes, buscar remediar imediatamente o mal por meio do arrependimento e da renovação do bom propósito.
Se essa queda ocorrer muitas vezes, tantas outras vezes devemos nos arrepender e renovar nosso propósito, confiando em Deus. Sem dúvida, Ele acabará por livrar a alma dessas faltas deliberadas, desde que ela persevere nesse caminho.
“Fazer-se santo não é obra de um dia”, diz São Filipe Néri.
Quem não abandonar o caminho da perfeição, uma vez iniciado, não deve desesperar, pois, a seu tempo, chegará ao objetivo. Deus, por vezes, permite que caiamos em certas faltas para que reconheçamos nossa fraqueza e os crimes que cometeríamos se Ele não estendesse sobre nós sua mão poderosa.
Essas faltas, ainda que premeditadas, não nos causam grande prejuízo se forem raras e, em todo caso, não determinam nossa perdição.
3. As faltas que mais facilmente nos arrastam à perdição são aquelas cometidas deliberadamente e, ao mesmo tempo, por hábito. Isso ocorre especialmente quando elas nascem de uma paixão ou são fruto da tibieza, ou seja, quando não lhes damos importância, não nos arrependemos nem buscamos emendar-nos.
Apontemos, contudo, os meios pelos quais uma alma pode sair desse triste estado de tibieza.
I — O primeiro meio é um sério desejo de sair desse estado. Caso esse desejo não exista, deve-se pedi-lo a Deus, confiando em sua promessa: “Pedi e recebereis.”
Alguns se enganam ao pensar que Deus não quer que todos se tornem santos. São Paulo afirma o contrário:
“Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1 Tessalonicenses 4,3).
Deus, portanto, deseja que todos se tornem santos, mas cada um segundo seu estado de vida: o religioso como religioso, o leigo como leigo, o sacerdote como sacerdote, o casado como casado, o comerciante como comerciante, o soldado como soldado e assim por diante.
Se desejamos seriamente nos tornar santos, nem mesmo nossos pecados passados poderão nos impedir.
“Nada posso”, diz o pecador a si mesmo, “mas, afinal, lido com Deus, que é infinitamente bom e poderoso. Ora, Ele quer que eu busque a santidade e me oferece os meios para isso; logo, posso tornar-me santo, não por minha própria força, mas pela graça de Deus, que me fortalece.”
“Tudo posso naquele que me conforta” (Filipenses 4,13).
II — O segundo meio é a resolução de se entregar inteiramente a Deus.
Muitos são chamados à perfeição, sentem-se movidos pela graça a buscá-la e até desejam atingi-la, mas, por falta de determinação, nunca chegam a abandonar seu modo de viver tíbio e imperfeito.
Não basta apenas desejar a perfeição; é necessário ter também a firme resolução de alcançá-la, custe o que custar.
Quantas almas se contentam apenas com o desejo da perfeição, sem jamais dar um único passo nas vias do Senhor?
Santa Teresa diz: “O Senhor só deseja de nossa parte uma resolução decidida; o resto, Ele mesmo faz.” O demônio não teme as almas irresolutas (Fundações, 28).
A oração mental deve nos levar a empregar os meios que conduzem à perfeição. No entanto, alguns se dedicam a longas meditações sem jamais chegar a uma séria resolução. Sobre isso, a mesma santa escreve:
“Aprecio mais uma oração curta que produza grandes resultados do que outra que se prolongue por anos sem levar a alma a praticar algo digno de Deus.”
a) Devemos decidir, antes de tudo, empregar todos os nossos esforços para nunca cometer um só pecado premeditado, por menor que seja, ainda que isso nos custe a vida.
É verdade que, sem a assistência de Deus, todos os nossos esforços são insuficientes para vencermos as tentações; porém, Deus quer que nos esforcemos, pois só assim nos auxiliará com sua graça, socorrerá nossa fraqueza e nos dará a vitória.
Essa resolução enérgica nos liberta dos obstáculos que impedem nosso progresso espiritual e nos infunde grande coragem, pois nos dá a certeza de que estamos na graça de Deus.
“A certeza mais absoluta possível, aqui na terra, de que estamos na graça de Deus”, diz São Francisco de Sales, “não consiste nos sentimentos de amor para com Deus, mas na entrega perfeita e irrevogável de todo o nosso ser em suas mãos e na resolução firme de nunca consentir em um pecado, quer mortal, quer venial.”
Isso significa possuir uma consciência delicada.
É importante notar, porém, que uma consciência delicada é muito diferente de uma consciência escrupulosa e perplexa.
A delicadeza de consciência é indispensável para alcançar a santidade; já a ansiedade é uma falha e um obstáculo.
Deves, portanto, obedecer ao teu diretor espiritual e vencer os escrúpulos, que nada mais são do que temores vãos.
b) Devemos também decidir sempre escolher o melhor, não apenas o que é simplesmente agradável a Deus, mas sim o que mais Lhe agrada, sem jamais fazer restrições.
São Francisco de Sales diz: “Devemos começar com uma resolução firme e constante, protestando que queremos, para o futuro, amar a Deus sem reserva.” Essa resolução deve então ser sempre renovada (Amor de Deus, c. 12.8).
Santo André Avellino fez o voto de progredir cada dia na perfeição.
Quem deseja santificar-se não precisa, propriamente, obrigar-se a isso por voto; basta que procure, a cada dia, dar um passo adiante no caminho da perfeição.
São Lourenço Justiniano escreve: “Quem uma vez começou a trilhar de todo o coração o caminho da perfeição sente um desejo contínuo de progredir nele. Esse desejo cresce à medida que a alma avança na perfeição, pois, a cada dia, recebe mais luz. Assim, julga que ainda não possui virtude alguma nem nenhum bem e, mesmo quando percebe claramente que praticou algo bom, esse bem lhe parece tão imperfeito que não lhe dá valor. Daí nasce seu esforço contínuo para alcançar a perfeição, sem qualquer esmorecimento.”
c) Finalmente, devemos pôr em pronta execução as resoluções tomadas e não esperar até o outro dia, pois quem sabe se mais tarde teremos tempo e vontade para isso?
O Espírito Santo nos admoesta: «Tudo o que puder fazer tua mão, executa-o imediatamente, porque no sepulcro, do qual te aproximas, não há lugar nem para a razão, nem para a sabedoria, nem para a ciência» (Eccl. 9.10).
Isso significa que, então, não haverá mais tempo para agir, nem ocasião de merecer; nenhuma sabedoria para praticar o bem, nenhuma ciência ou experiência para nos aconselhar. Depois da morte, o que foi feito, está feito.
«Eu o disse: agora eu começo» (Ps. 76.11).
São Carlos Borromeu repetia muitas vezes as palavras: “Hoje eu começo a servir o Senhor.”
Nós também devemos dizer o mesmo, como se nada de bom tivéssemos feito até agora. E, de fato, o que fizemos por Deus, se apenas cumprimos com o nosso dever?
Não devemos olhar para o que fazem os outros nem para a maneira como o fazem, pois, em verdade, é pequeno o número dos que se tornam santos.
Renovemos, a cada dia, o propósito de viver unicamente para Deus.
«Perfeito é só aquilo que é único em sua espécie», diz São Bernardo.
Se quisermos seguir a maioria dos homens, permaneceremos imperfeitos como eles.
III — O terceiro meio para sair da tibieza é a oração mental.
«A meditação põe em ordem as inclinações de nossa alma e dirige nossas ações para Deus», diz São Bernardo; «sem ela, nossas tendências se voltam para a terra, nossas ações seguem essas tendências, e tudo cai em desordem».
Santa Catarina de Bolonha afirmava: “Quem não pratica a oração mental desata o laço que o prende a Deus.”
Nesse caso, não é difícil para o demônio induzir uma alma, já fria no amor divino, a provar algum fruto proibido.
Santa Teresa escreve: «Se alguém perseverar na oração, ainda que o demônio o induza a cometer muitos pecados, o Senhor não deixará de reconduzi-lo ao porto da salvação» (Vid. c. 8).
E em outro lugar, acrescenta: «Quem não parar no caminho da oração chegará certamente ao fim, ainda que talvez muito tarde».
Quanto ao assunto das meditações, nada há mais útil do que refletir sobre os novíssimos: a morte, o juízo, o inferno e o céu.
Especialmente proveitosa é a meditação sobre a morte, imaginando-nos em nosso leito mortuário, com o crucifixo nas mãos, às portas da eternidade.
Para quem ama a Jesus Cristo e deseja crescer sempre em Seu amor, o tema mais apropriado para a meditação é a Paixão do divino Salvador.
Segundo São Francisco de Sales, “o Calvário é o monte dos amantes.” Todos os verdadeiros amigos de Jesus vivem continuamente nesse monte, onde não se respira outro ar senão o do amor divino.
Diante de Deus morrendo por nós, por puro amor, é impossível não amá-Lo ardentemente. Das chagas de nosso Salvador crucificado partem, sem cessar, setas de amor, que ferem até os corações mais duros como pedra.
Feliz aquele que se detém continuamente no monte Calvário!
Ó bem-aventurado, ó amável, ó caro monte! Quem te abandonará jamais, ó monte que lanças fogo e abrasas as almas que em ti habitam!
IV — O quarto meio para sair da tibieza é a recepção assídua da Santa Comunhão.
A coisa mais agradável a Jesus Cristo que uma alma pode fazer é recebê-Lo frequentemente na Santa Comunhão.
«Para se alcançar a perfeição, não há meio melhor que comungar a miúdo», diz Santa Teresa.
O Senhor auxilia poderosamente a alma que comunga com frequência a alcançar a perfeição. A mesma santa afirmava que, de modo geral, as pessoas que comungam repetidamente progridem muito mais na perfeição e que a observância regular é mais rigorosa nos conventos onde a Santa Comunhão é recebida com maior frequência.
Segundo São Bernardo (In coen. Dom., s. I), a Santa Comunhão reprime os impulsos da cólera e da incontinência, as duas paixões que mais frequentemente e com maior violência nos atacam.
Conforme Santo Tomás (III q. 29 a. 6), ela afugenta as tentações do demônio.
São João Crisóstomo diz que a Santa Comunhão gera em nós uma forte inclinação para a virtude e uma grande prontidão em praticá-la, proporcionando-nos, ao mesmo tempo, uma profunda paz e tornando fácil e prazeroso o caminho da perfeição.
Não há sacramento que abrase mais as almas no amor divino do que a Eucaristia, na qual Jesus Cristo Se nos dá por inteiro, para nos unir a Ele por meio do Seu amor.
Por isso, dizia o venerável João de Ávila: «Quem desviar as almas da comunhão frequente faz o ofício do demônio.»
De fato, o demônio tem um ódio imenso a esse sacramento, pois dele as almas tiram força para progredir no amor de Deus.
“Mas meu confessor não me diz que devo comungar mais vezes”, argumentas.
— Se ele não te diz, pede-lhe permissão; e, se ele negar, obedece, mas não deixes de pedir.
— “E isso não será orgulho?”
— Seria vaidade se quisesses comungar contra a vontade de teu confessor, mas não o é pedir humildemente licença.
Esse pão divino exige fome.
“Jesus Cristo quer ser desejado, quer ardentemente que tenhamos sede d’Ele”, diz um piedoso escritor.
O pensamento: “Hoje comunguei” ou “Amanhã receberei a Comunhão” torna a alma muito mais cuidadosa em evitar as faltas e em cumprir a vontade de Deus.
V — O quinto e mais importante meio para se libertar da tibieza é a oração.
Ao conceder-nos esse meio, Deus nos revela o grande amor que nos tem. Que maior prova de amor pode haver para com um amigo do que dizer-lhe: “Pede-me o que quiseres, e eu to darei”?
Pois assim nos diz o Senhor: «Pedi e dar-se-vos-á, buscai e achareis» (Mat. 7.7).
A oração é, portanto, todo-poderosa diante de Deus e nos alcança todos os bens. Quem reza recebe do Senhor tudo o que deseja.
Belíssimas são as palavras de Davi:
«Bendito seja Deus, que não recusa minha oração, nem me subtrai a sua misericórdia» (Ps. 65.20).
Que compaixão merece um mendigo que, podendo ser provido de tudo por um senhor rico, prefere permanecer na miséria apenas para não ter que pedir?
«Deus é rico para todos que o invocam» (Rom. 10.11).
Ao orarmos a Deus, lembremo-nos também de nos recomendar à Santíssima Virgem, a distribuidora de todas as graças.
«Deus nos dispensa suas graças, mas pelas mãos de Maria», diz São Bernardo.
Busquemos a graça, mas busquemo-la por intermédio de Maria, pois “o que ela busca, encontra, e não pode ser desatendida”.
Se Maria pedir por nós, estaremos seguros, pois todas as suas súplicas são atendidas.
VI — O sexto meio é combater as nossas paixões e, em especial, a paixão dominante.
Mas disso trataremos em um capítulo próprio.
Fonte: Escola de Perfeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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