Do Ódio ao Mundo

25–37 minutos

«Não ameis o mundo nem as coisas que estão no mundo» (I. Joa. 2. 15), nos diz S. João.. «Si alguém ama o mundo, a caridade do Pae não está nelle», conclue o Apostolo. «Não sabeis que a amizade deste mundo é inimiga de Deus? Todo aquelle que quizer ser amigo deste século, se constitue inimigo de Deus», diz S. Thiago (Jac. 4. 4).

Que se entende por mundo, contra o qual nos precavem tão seriamente o Espirito Santo? Por mundo se entende o século como seductor do homem ao peccado, o século que jaz no mal, que, sujeito ao demonio, está cheio de crimes e concupiscencias, o século do qual diz o Discipulo Amado: «Tudo o que ha no mundo é concupiscencia da carne, concupiscencia dos olhos e soberba da vida» (l Joa. 2. 16). Amar o mundo não é sinão ter um apego desordenado aos bens desta terra, gozar ou desejar conseguir esses bens a custa da obediência devida a Deus e da própria salvação.

Ora, como não póde coexistir em um coração esse amor com o amor de Deus e da perfeição christã, si desejares alcançar a perfeição ou mesmo só a tua salvação, deverás renunciar ao amor do mundo. Quero, por isso, mostrar-te que o mundo torna insensatos os seus sequazes como também perseguidores de Jesus Christo, precipitando-os, já nesta vida, na infelicidade.

O Amor do Mundo torna os Homens Insensatos

Os mundanos, isto é, os que por apego aos prazeres, honras e riquezas deste mundo, se descuidam do negocio mais importante, de sua eterna salvação, são por isso mesmo dignos de lastima; sua maior desgraça, porém, consiste em se terem na conta de sábios e prudentes, não passando de grandes loucos e imprudentes, e o peior é que são innumeraveis. «Infinito é o numero dos insensatos» (Eccl. 1. 15). Este é avido de honras, aquelle de prazeres, este de riquezas pereciveis, aquelle de gloria e fama. E taes homens ousam chamar de insensatos os santos que, despresando os bens deste mundo, conseguiram a salvação eterna e o summo bem, Deus. Dizem ser loucura supportar os despresos e perdoar as injurias, renunciar ás honras e riquezas e procurar a solidão para levar uma vida humilde e occulta. Não pensam, comtudo, que a sua sabedoria é denominada loucura pelo proprio Deus. «A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus» (1 Cor. 3. 19).

Oh! terão elles uma vez de confessar sua loucura. Mas quando? Quando já não houver mais meios de repara-la. Exclamarão então no desespero: «Insensatos de nós, que consideravamos loucura a vida delles e seu fim deshonra» (Sab. 4. 4). Como fomos desgraçados! Julgavamos loucos os santos em seu modo de viver, e agora vemos que nós éramos os loucos. Eis que elles são contados entre os filhos de Deus e sua sorte é entre os santos. A felicidade delles é eterna e a nossa sorte é arder eternamente neste abysmo de tormentos como escravos do demonio. «Desviamo-nos, pois, do caminho da verdade e a luz da justiça não brilhou para nós».

O negocio da nossa salvação é certamente a coisa mais importante e ao mesmo tempo mais negligenciada pelos christãos. Quando se trata de conseguir uma posição, de ganhar um processo, de contratar um casamento, não se poupa trabalhos, não se perde tempo; quantos conselhos, quantas providencias não são tomadas; não se come nem mais se dorme. Quando, porém, se trata de assegurar a salvação eterna, ninguém se importa com isso, antes emprega todos os meios para perdel-a e a maior parte dos christãos vive como si as verdades eternas, morte, juizo, inferno e céu, fossem fabulas vãs inventadas pelos poetas e não artigos de nossa fé.

Que tristeza não nos causa a perda de um processo, uma parca colheita e com que cuidado não procuramos recuperar o perdido. Que esforços não se emprega para rehaver um cavallo ou um cão. Si, porém, perdemos a graça de Deus, não deixamos por isso de gracejar, rir e dormir imperturbavelmente.

Todo o homem se envergonha de ser desleixado nos negocios mundanos e, afinal, milhares não se envergonham de negligenciar o negocio da eternidade, do qual depende tudo. Concedem que os sábios procederam sabiamente cuidando exclusivamente em sua salvação, mas elles mesmos pensam em tudo, menos em sua alma.

Tinha muita razão S. Philippe Nery chamando de tolo aquelle que não procura salvar sua alma. Si houvesse neste mundo homens mortaes e immortaes e si aquelles vissem a estes occupados unicamente com coisas deste mundo, só aspirando honras, bens e prazeres transitórios, certamente dir-lhes-iam: Loucos, insensatos, podeis alcançar bens eternos e só pensaes nestes bens miseráveis e passageiros; e ainda por amor destas coisas quereis vos sujeitar a penas eternas no outro mundo? Deixae a nós, miseráveis, o cuidado dessas coisas terrenas, pois para nós tudo se acaba com a morte.

Todos nós, porém, somos immortaes e, afinal, tantos perdem sua alma por causa dos miseráveis prazeres deste mundo. Como é possivel, pergunta Salviano, que os christãos creiam num juizo, num inferno, na eternidade e vivam sem temor algum? Perguntae aos sábios deste mundo, que se encontram agora naquelle abysmo de fogo, o que pensam actualmente e si estão satisfeitos por haverem gozado neste mundo. Elles vos responderão em terríveis lamentos: Nós nos enganamos! Que lhes aproveita agora reconhecer o erro commettido, já que não ha mais meios de revogar a sua condemnação? Que desgosto não sentiría uma pessoa que, podendo facilmente impedir o desabamento de seu palacio, deixasse de o fazer, vindo encontral-o um dia em ruinas, não lhe sendo mais possivel remediar o seu desleixo?

S. Bernardo deplora a insensatez daquelles christãos que denominam brinquedos os divertimentos das crianças e negocios seus interesses temporaes. Esses seus negocios são só maiores loucuras, pois «que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro si vier a perder a sua alma?» (Mat. 16. 26). O motivo dessa loucura dos mundanos está no cuidar unicamente das coisas presentes e não das futuras. «Oh fossem elles sábios e entendessem e conhecessem seu fim» (Gen. 32. 29). Quem é prudente, quem procede conforme a razão, prevê o que poderá acontecer, isto é, o que o espera no fim da vida, e encara a morte e o juizo e suas consequências, o céu ou o inferno.

Muito mais sabio que um monarcha que se perde é um lavrador que se salva. «Melhor é um moço pobre e sabio que um rei adiantado em annos e estulto, que não sabe prever o futuro» (Eccl. 4. 13). Não seria tido em conta de tolo aquelle que para ganhar uma pequena moeda de ouro e isso por um só instante arriscasse todos os seus bens? E quem perde sua alma por um prazer momentâneo deixará de ser louco? De só attender aos bens e males presentes, deixando de parte os bens e males eternos, origina-se a desgraça de tantos que se condemnam.

Deus não nos collocou no mundo para que nos tornemos ricos, consigamos honras e satisfa­çamos os nossos sentidos, mas para que alcancemos a vida eterna. «Agora tendes por fim a vida eterna», diz o Apostolo (Rom. 6. 22), e por isso devemos nos occupar só desta coisa. «Uma unica coisa é necessária» (Luc. 10. 42). Mas justamente desta coisa menos cuidam os peccadores; só pensam nas coisas presentes e entretanto a morte e a eternidade rapidamente se aproximam sem saberem para onde vão.

Que pensarias de um navegante, pergunta Sto. Agostinho, que, á pergunta: para onde segues, respondesse: não sei. Não diriam todos que elle expõe o navio ao perigo? Pois assim procedem esses prudentes deste mundo, que sabem muito bem adquirir riquezas, procurar-se prazeres, conquistar elevadas posições, mas não sabem como salvar sua alma. Prudente foi o máu rico em adquirir riquezas, mas «elle morreu e foi sepultado no inferno» (Luc. 16. 22). Prudente foi Alexandre Magno conquistando tantos reinos, mas dentro de poucos annos falleceu e talvez foi condemnado ao inferno. Prudente foi Henrique VIII sabendo conservar-se no throno apesar de sua rebellião contra a Egreja, mas, reconhecendo que ia perder sua alma, elle mesmo confessou: Perdemos tudo. Quantos não choram agora e exclamam no inferno: «De que nos serviu o orgulho? que nos aproveitou a ostentação da riqueza? tudo passou como uma sombra…» (Sab. 5. 8) e nada nos resta a não ser o lamento e a pena eterna.

O primeiro remedio contra essa loucura é o pensamento da morte próxima. Nosso Senhor mesmo põe essa verdade diante dos olhos do avarento: «Néscio, nesta noite te exigirão tua alma; e as coisas que ajuntaste, de quem serão?» (Luc. 12. 20). Ao ouvir Ezechias estas palavras da bocca do Propheta: «Dispõe de tua casa, porque morrerás» (Is. 38. 1), estremeceu e exclamou: «Minha vida foi cortada como por um tecelão; mal tinha começado, eis que fui cortado». Quantos não ha que se occupam cuidadosamente em tecer o panno, isto é, em ordenar e executar seus planos mundanos feitos com tanta perspicácia, e eis que vem a morte e despedaça tudo.

A’ luz do cirio mortuário desvanecem-se todas as coisas deste mundo: louvores, prazeres, pompas e magnificencias. Oh grande mysterio da morte, mostras o que não vêm os amadores deste mundo; que toda a felicidade, os altos cargos, a mais esplendida victoria nada valem nesse momento supremo. A idéa que fizemos de uma falsa felicidade transforma-se então em indignação contra nossa própria loucura. A sombra escura e desditosa da morte cobre e offusca todas as dignidades sem exceptuar a real. Agora as paixões fazem os bens deste mundo parecerem inteiramente differentes do que o são na realidade; a morte, porém, patenteia sua natureza intima e real: fumo, lodo, vaidade e miséria.

O’ Deus, que valor têm na hora da morte riquezas, possessões, reinos, etc., si disso nada nos fica? só nos resta um esquife e uma simples veste para cobrir o nosso corpo. Que valem as honras, si nada mais nos fica sinão um cortejo e enterro pomposo, que nenhum proveito traz á alma! Que valor tem a riqueza do corpo, si elle só servirá então para pasto dos vermes e objecto de repugnância?

O segundo remedio contra a loucura do amor do mundo é o pensamento no juizo que nos espera. Que responderás a Jesus Christo no dia de contas? Si um rei encarregasse um súbdito de tratar de um importante negocio em uma cidade e este só cuidasse de assistir a festas, espectáculos e bailes, e não se importasse com a incumbência, de modo que o negocio tivesse um máu exito, que contas não teria de dar na sua volta? Mas, ó Deus, que contas incomparavelmente mais rigorosas não exigirás de todo o homem que foi posto neste mundo, não para se regalar e enriquecer, para alcançar honras e grandezas, mas para salvar sua alma, e que, afinal, de tudo cuidou, excepto disso!

O terceiro remedio é o pensamento continuo da eternidade. O P. Avila converteu uma mulher que vivia afastada de Deus, dizendo-lhe: Senhora, reflicta muitas vezes nestas duas palavras: sempre, nunca. O P. Segneri ficou tão commovido como pensamento da eternidade que não pôde dormir por varias noites, começando então a viver com grande rigor. O P. Drexelio conta de um bispo que vivia santamente por se acostumar a repetir sempre estas palavras: Estou a toda a hora ás portas da eternidade. Um monge recolheu-se a uma caverna e ahi repetia sem interrupção: O’ eternidade, ó eternidade! Quem crê na eternidade e não aspira á santidade, deveria ser conservado num hospício de alienados, dizia o P. Avila.

Si é uma grande loucura amar o mundo e seguir suas maximas, em que consiste então a verdadeira sabedoria? Verdadeiros sábios são os que se applicam em adquirir a graça de Deus e o céu. Por isso peçamos incessantemente ao Senhor que nos conceda a sabedoria dos santos, que é concedida a todos que a pedem. «Elle deu-lhe a sciencia dos santos» (Sab. 10. 10). Oh que bella sciencia possuiremos si soubermos amar a Deus e salvar a nossa alma.

Esta sciencia consiste em trilhar o caminho da salvação eterna e saber servir-se dos meios que conduzem a este fim. A direcção para a salvação da alma é a mais importante de todas as direcções. Si soubéssemos tudo, excepto o operar a nossa salvação, nada nos aproveitaria e seriamos infelizes para todo o sempre; pelo contrario, seremos felizes por toda a eternidade si soubermos amar a Deus, ainda que ignoremos tudo o mais. «Feliz aquelle que te conhece, Senhor, mesmo que ignore todo o resto», exclamou Sto. Agostinho. A S. Boaventura disse uma vez o irmão Egydio: «Como és feliz, P. Boaventura, por saberes tanto; eu pobre ignorante, nada entendo, e assim pódes tornar-te muito mais santo que eu. — Ouve, meu irmão, respondeu-lhe o santo, si uma pobre velha ignorante souber amar a Deus mais do que eu, será mais santa que o P. Boaventura. — Cheio de júbilo com essa resposta, exclamou o irmão: Ouve, ouve, ó velhinha! Si amares a Deus poderás tornar-te mais santa que o P. Boaventura.

O Amor do Mundo faz os Homens Perseguidores de Jesus Cristo

«Ai do mundo por causa dos escândalos», (Mat. 18. 7). Jesus Christo affirma que muitas almas se precipitam no inferno em razão dos escândalos. Mas será possivel viver no mundo sem encontrar escândalos? Não, isso é impossível, diz S. Paulo (1 Cor. 5. 10), si quizessemos não deparar com escândalos, deveriamos sahir deste mundo. O que podemos, porém, é evitar a convivência com homens de proceder escandaloso e por isso ajunta o Apostolo. «Eu vos escrevi que não tivesseis commercio… com um tal nem comer deveis». Portanto, devemos nos abster de familiaridade com taes homens, pois si a elles estivermos unidos por amizade intima, nos será mui difficil mais tarde protestar contra seus máus hábitos e perversos conselhos e assim, por respeito humano e para não contrarial-os, imitaremos seus exemplos e perderemos a amizade de Deus.

Os amigos do mundo se gloriam de sua perversidade; «elles se alegram quando praticam o mal», diz o Sabio (Prov. 2. 14). Mas o que é ainda peior, é que procuram companheiros e zombam de todos que vivem como verdadeiros christãos e querem evitar as occasiões perigosas de offenderem a Deus.

E’ este um peccado que desagrada summamente a Deus e que elle de modo particular nos prohibe dizendo: «Não despreses um homem que se aparta do peccado, nem o injuries» (Eccl. 8. 6); não procures por teus vituperios e zombarias demovel-o do seu caminho, pois diz o Senhor que decretou castigos especiaes, neste e no outro mundo, aos que zombam dos bons: «Para os irrisores estão preparados juizos e tormentos para os corpos dos insensatos» (Prov. 19. 29).

E, de facto, nefanda é a perversidade dos que não contentes de offenderem a Deus, procuram também induzir outros a isso. Infelizmente muitas vezes conseguem o seu intento abominável, pois existem muitas almas vis e cobardes que, para não serem escarnecidas, abandonam a virtude e se entregam a uma vida desregrada. Sto. Agostinho se queixa disso, depois de sua conversão, confessando que se envergonhava, no tempo em que vivia com os sequazes de Satanaz, de não ser tão impio e imprudente como elles. «Eu me envergonhava de ser honesto» (Conf. I. 2, c. 9).

Quantos não ha que temem que delles se diga: E’ um santo! Vêde o santo! Dá-me um pedaço de teu habito como relíquia! Seria melhor que fosses para o deserto! Por que não entras para um convento?

Quantos não ha que para não ouvirem taes caçoadas de seus perversos amigos imitam suas aberrações? Quantos não ha que, ao serem injuriados, procuram vingar-se, não só por ira, mas por respeito humano, para não parecerem cobardes? Quantos não deixam de retirar, como deviam, uma affirmativa escandalosa que lhes escapou na conversa, só para não perderem a estima dos outros? Quantos finalmente não vendem ao demonio sua almas para não perderem as bôas graças de um amigo, imitando a Pilatos, que, para não perdera amizade do imperador, condemnou Jesus Christo á morte?

E, comtudo, si quizermos ser felizes, devemos vencer o respeito humano e supportar a pequena vergonha provinda da zombaria dos inimigos da cruz de Jesus Christo, pois «ha uma confusão que traz comsigo o peccado e uma confusão que traz gloria e gozo» (Eccl. 4. 25). Si não quizermos supportar com paciência aquella confusão, ella nos lançará no abysmo do peccado e si a suffocarmos por amor de Deus, nos trará suas graças e uma grande gloria lá no céu. Como é louvável envergonhar-se por causa do mal, diz S. Gregorio, tambem é reprovável confundir-se por causa do bem.

Talvez digas: Não faço ninguém soffrer: procuro só a salvação de minha alma e por que então ser perseguida? Ora, porque é regra que todo aquelle que serve a Deus seja perseguido. «Os ímpios abominam os que andam pela via recta» (Prov. 29. 27). Os que levam uma vida perversa não pódem vêr que outros vivam santamente, porque a conduta destes é uma reprovação perenne de seu perverso proceder e dizem, por isso: «Demos cabo do justo, porque elle nos é inútil e contrario ás nossas obras e vitupera nossos peccados contra a lei» (Sab. 2. 12). O soberbo, que procura vingar a minima offensa, deseja que todos se vinguem pelas offensas recebidas; o avarento, que se apodera injustamente de bens alheios, que todos façam o mesmo; o beberrão, que todos procedam como elle; o impudico, que se gaba de suas impudencias e não sabe conversar sem tocar em coisas sujas, gostaria que todos agissem e falassem como elle. E quem assim não procede é acoimado por elles de traidor, de inculto, de pessoa trivial e insociavel, sem sentimento de honra, sem educa­ção, o que não é para admirar, pois sendo elles deste mundo, não conhecem sinão a linguagem deste mundo.

Pobres cégos: o peccado cegou-os e por isso falam dessa maneira. «Cogitam estas coisas e erram, pois cegou-os a sua malicia» (Sab. 2. 21).

Mas, repito com S. Paulo, não ha outro remedio. «E todos aquelles que quizerem viver piedosamente em Jesus Christo, hão de soffrer perseguição» (II Tim. 3. 12). Todos os santos foram perseguidos. — Dizes: não faço mal a ninguém; por que não me deixam em paz? — Que mal fizeram os santos, os martyres especialmente? Elles, abrasados no amor divino, amavam a todos e procuravam fazer bem a todos. E como tratou-os o mundo? Foram atormentados de todos os modos possiveis: seus corpos foram dilacerados com dentes de ferro, foram queimados com ferro em brasa, e, finalmente, trucidados com incrível crueldade. E Jesus Christo, o santo dos santos, a quem offendeu? A todos consolava, a todos curava. «Sahia delle uma virtude que curava a todos» (Luc. 6. 19). E como o tratou o mundo? Perseguiu-o até á morte ignominiosa e dolorosa da cruz. E a causa dessa perseguição? As maximas de Jesus Christo, inteiramente oppostas ás do mundo.

O que aprecia o mundo, Jesus reputa loucura. «A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus» (1 Cor. 3. 19). E o que Jesus presa, o mundo julga estulticia, a saber: cruzes, enfermidades, despreso e confusão. «A palavra cruz é loucura para os que se perdem» (I Cor. 1. 18).

S. Cypriano pergunta como póde ser tido por christão aquelle que teme ser por tal considerado. Si somos christãos, mostremo-nos taes não só no nome como também no proceder, pois si nos envergonharmos de Jesus Christo elle também se envergonhará de nós e não nos collocará á sua direita no dia de juizo. Ouçamos suas palavras: «Si alguém se envergonhar de mim e de minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará delle quando vier na sua majestade» (Luc. 9. 26). Então dirá: De mim te envergonhaste na terra e agora sou eu que me envergonho de ter-te junto a mim no céu; afasta-te, maldito, retira-te para o inferno, para a companhia dos que comtigo se envergonharam de mim.

Notemos a expressão: Quem se envergonhar de mim e de minhas palavras, pois já alguns receiam renunciar a Jesus Christo, diz Sto. Agostinho, mas não temem renunciar ás suas maximas. — Mas, replicarás, si eu disser que isto ou aquillo não se póde fazer com bôa consciência, meus amigos zombarão de mim e me chamarão de beato. A isso responde S. João Chrysostomo: «Não queres então ser zombado por um companheiro, mas odiado por Jesus Christo?» (In Act. Ap., horn. 41). O Apostolo, que se gloriava de ser discípulo de Jesus, dizia: «O mundo está crucificado para mim e eu para o mundo» (Gal. 6. 14). Como estou crucificado aos olhos do mundo, isto é, já que sou um objecto de zombaria e ultraje, assim também o mundo me é um objecto de horror e abominação. Estejamos convencidos desta verdade: ou calcaremos aos pés o mundo ou o mundo a nossa alma.

Quem ama a Deus e deseja ser feliz deve despresar o mundo e todas as considerações humanas e para isso todos devem empregar forças. Santa Maria Magdalena teve de empregar grandes forças para vencer o respeito humano e as murmurações e zombarias do mundo, quando, num banquete concorridissimo, lançou-se aos pés do Senhor, lavando-os com suas lagrimas e enxugando-os com seus cabellos, mas com isso tornou-se uma grande santa e alcançou o perdão do Senhor, que exaltou seu grande amor, dizendo: «Muitos peccados lhe são perdoados porque amou muito» (Luc. 7, 47).

Levando um dia S. Francisco de Borgia um prato de caldo aos presos, encontrou-se com seu filho que passava com brilhante equipagem. O santo ficou algum tanto envergonhado em mostrar o que levava debaixo do manto. Que fez então para vencer esse respeito humano? Tomou o prato, collocou-o na cabeça, e assim zombou do mundo.

Quando Jesus Christo, nosso chefe e nosso mestre, pendia da cruz, os soldados escarneciam delle, dizendo: «Si és o filho de Deus, desce da cruz»; os principes dos sacerdotes: «Salvou a outros, mas a si mesmo não se póde salvar». Elle, porém, não quiz descer da cruz, terminando ahi sua vida e assim conseguindo a victoria sobre o mundo.

Agradeço-vos, meu Deus, por ser achado digno de ser odiado pelo mundo, escreveu S. Jeronymo. E elle tem razão, pois Jesus reputa por felizes seus discípulos quando fôrem odiados pelo mundo. «Bemaventurados sereis quando os homens vos odiarem» (Luc. 6. 22). Consolemo-nos, pois, si os mundanos nos amaldiçoam e reprehendem, visto que então o Senhor nos louvará e abençoará. «Elles amaldiçoarão e vós abençoareis» (Ps. 108. 28). Não nos daremos por satisfeitos si o Senhor nos louvar, assim como a Rainha dos céus, os Anjos e Santos e todos os homens sensatos?

Deixemos, portanto, os mundanos dizer o que quizerem e cuidemos unicamente em agradar a Deus, que tanto mais nos recompensará no outro mundo quanto mais nos esforçarmos aqui em despresar as contradições dos homens. Cada um deve se figurar só no mundo com Deus, como si ninguém mais existisse. Si os máus escarnecerem de nós, devemos recommendar a Deus esses pobres cegos que se lançam na perdição. Quanto a nós, agradeçamos a Deus por nos ter feito brilhar aquella luz que negou a esses infelizes e continuemos pacificamente o nosso caminho. Tudo se deve superar para tudo se alcançar.

O Amor do Mundo Torna os Homens Infelizes

Que é propriamente este mundo? Um campo cheio de espinhos, lagrimas e dores. O mundo promette grandes recompensas a seus sequazes: divertimentos, alegrias e paz; tudo, porém, se reduz a illusão, amargura e vaidade. As riquezas, honras e prazeres mundanos transformam-se finalmente em tormentos e affiicções. E queira Deus não se eternize para muitos amigos do mundo essa afflicção, pois são innumeros, grandes e inevitáveis os perigos de perder a Deus, a alma e o céu no meio do mundo.

Os bens deste mundo não pódem saciar o nosso coração. Os animaes, que foram creados para a terra, contentam-se com o terrestre; mas o homem, que foi creado para Deus, só em Deus póde achar sua satisfação. E’ o que nos ensina a experiencia, pois si os bens terrenos tornassem felizes os homens, seriam certamente felizes os príncipes deste mundo, que possuem em abundancia dinheiro, honras e alegrias. E o que vemos? Elles vivem mais descontentes e incommodados que os outros homens, já que onde ha maior riqueza e dignidade, reina também maior temor, amargura e inquietação.

Entrou uma vez o imperador Theodosio na cella de um eremita; depois de curta conversação, disse-Ihe o imperador: Sabes, meu Padre, quem sou eu? Eu sou o imperador Theodosio. Feliz de ti que aqui vives longe das penas do mundo. Sou um grande senhor da terra, sou imperador; comtudo, meu Pae, não tenho um dia em que possa comer socegado.

Como poderia, realmente, o mundo dar a paz, sendo um logar de illusão, cheio de invejas, temor e inquietação? E’ verdade que elle offerece algumas miseráveis alegrias, as quaes, comtudo, mais affligem a alma que a saciam, satisfazendo por alguns instantes os sentidos, mas cravando no coração mil espinhos de amargura. Daqui provem que os grandes e sábios do mundo tanto têm de soffrer, visto que quanto maior fôr sua grandeza, tanto mais tedio e temor sentirão.

O mundo, pois, não é um logar de alegrias, antes de inquietações e tormentos, já que nelle reinam as paixões da ambição, da avareza, da sensualidade e não se póde gozar de seus bens á medida e na fórma que se deseja, não contentando também o nosso coração, antes o amargurando immensamente a posse de seus bens.

Por meio de taes considerações Sto. Ignacio conseguiu ganhar muitas almas para Deus, especialmenfe a bella alma de S. Francisco Xavier, que se occupava então em Paris com projectos de todo mundanos. Francisco, disse-lhe uma vez o Santo, pondera que o mundo é um traidor que muito promette e nada cumpre. E mesmo que te désse o que te promette, nunca saciaria o teu coração e concedido que te saciasse, por quanto tempo gozarás disso? talvez além de tua vida? e que levarás comtigo para a eternidade? Talvez já levou um rico uma unica moeda ou um creado para sua commodidade? Que rei levou comsigo um unico fio de purpura? — Essas palavras causaram tal impressão em Francisco que, abandonando o mundo, seguiu Sto. Ignacio e fez-se santo.

Uma felicidade inteiramente isenta de cuidados não póde existir aqui na terra e só a encontraremos na vida futura. Neste mundo, que é o logar de merecer e, por conseguinte, do padecimento, só viverá contente o que supportar tudo com paciência. Assim vivem os santos que gozam de tanto maior paz e tranquillidade, quanto menos bens terrestres possuem e maior paciência demonstram nas tribulações da vida presente.

Mas para que o homem possa ser feliz nesta vida, deve também saber em que consiste a felicidade. Está fóra de duvida que mesmo a nossa felicidade natural não consiste em prazeres corporaes, mas na paz da alma: esta só se alcança quando o coração se desprende dos vicios e affectos desordenados. Uma tal tranquillidade d’alma é o fructo da conformidade de nossos desejos com as nossas bôas acções. Si os humores de nosso corpo estão convenientemente disseminados, acha-se elle são e forte; faltando-lhe isso, está doente e fraco. O mesmo dá-se com nossa alma: deixando-se dominar por um vicio ou paixão e assim descompôr-se, nem terá nem poderá encontrar verdadeira paz.

Para se gozar dessa verdadeira paz, devemos conservar, pelo exercício das virtudes christãs, nossa alma em conformidade com Deus, com o proximo e comnosco mesmos; com Deus pela caridade e obediência a seus preceitos; com o proximo pela caridade fraterna e mansidão; comnosco mesmos pela mortificação de nossas paixões e abnegação do amor proprio. Portanto, devemos nos desligar das maximas do mundo, que corrompem o espirito e a vontade e nos imbuir de princípios santos, que nos conduzem directamente a Deus. Assim, na medida que praticarmos essas virtudes, seremos mais ou então menos felizes aqui na terra.

Estejamos convencidos que sem a virtude não póde haver nem ha mesmo verdadeira paz. Muito mais feliz é um pobre virtuoso que tantos ricos e grandes da terra que, no meio de sua grandeza, são continuamente atormentados por innumeros e irrealizaveis desejos e inevitáveis contrariedades. A experiencia o prova até á evidencia que todo aquelle que vive santamente em qualquer estado de vida é feliz, ao passo que quem leva vida ociosa não acha felicidade nem nas riquezas nem nas honras terrenas.

Todos os que vivem na desgraça de Deus, já na terra têm de soffrer o inferno, pois o prazer do peccado é um prazer envenenado, que deixa sempre um sabor amargo; além disso duram só alguns momentos, ao passo que os tormentos e remorsos não cessam mais. E’ engano querer achar a felicidade na satisfação das paixões: quanto mais procurarmos satisfazel-as, tanto maiores se tornam nossos tormentos. Que tormento não sente um ambicioso não podendo alcançar as honras, os cargos e dignidades que aspira. E mesmo que as alcance, desejará subir mais alto, e não o conseguindo, fica inconsolável. Que tormento não experimenta ao vêr que algum outro que, a seus olhos, lhe é inferior, lhe é preferido.

O nosso natural orgulho leva-nos a crer que somos superiores aos outros. Um bom christão, pelo contrario, não se inquieta vendo-se posposto aos outros, ainda que esteja certo que isso é injusto, consolando-se com o pensamento na vontade de Deus.

Que martyrio não supporta um avarento no meio de suas riquezas, já pelo temor de as perder, já pela perda mesma; ora porque o lucro é menor que o esperado, ora porque não póde receber o que emprestára. O homem probo, porém, contenta-se com o pouco que tem e vive satisfeito.

Que horrores não soffre um vingador, desejando vingar-se e não podendo. E si, para sua maior infelicidade, consegue o seu intento, essa inquietação augmenta em vez de terminar: o temor da justiça humana, a perseguição dos parentes da victima, as difficuldadcs da fuga não lhe deixam um momento de socego.

Que tormentos não tem de soffrer um libertino em consequência de seus amores criminosos. Que suspeitas, que ciúmes, que amarguras, si não é correspondido, ou si não ha possibilidade de realizar seus intentos. E mesmo que o caminho esteja livre, como poderá impedir que os remorsos e o temor da vingança divina lhe dilacerem o coração?

Todos os bens e alegrias do mundo, portanto, não pódem tornar feliz o coração do homem. Quem, pois, o poderá contentar? Deus! «Regosija-te no Senhor, e elle te dará o que pede teu coração» (Ps. 36. 4). O coração do homem suspira continuamente por um bem que o satisfaça; ainda que nade em riquezas, honras e prazeres, não encontrará nesses bens finitos seu contentamento, já que foi creado para um bem infinito. Encontrando Deus e unindo-se a elle, sentir-se-á então plenamente feliz e não desejará mais nada. «Colloca no Senhor teu prazer e elle te dará o que deseja teu coração».

Em quanto Sto. Agostinho corria atraz dos prazeres dos sentidos, não achou a paz: tendo-se dado, porém, a Deus, deparou o que procurava. «Inquieto, Senhor, está o nosso coração até que descanse em vós». «O’ meu Deus, agora reconheço que tudo é vaidade e afflicção de espirito e que só vós sois a verdadeira paz da alma; tudo acarreta tribulação, só vós trazeis a paz» (Conf. I. 6, c. 16). Ensinado pela própria experiencia, escreve: «Que procuras, ó homem, prendendo-te a tantos bens? Procura o unico bem que em si encerra todos os outros bens» (Man. c. 35).

Achando-se o rei David em peccado, não deixava de ir á caça, de banquetear-se e tomar parte em todos os divertimentos; mas o banquetes, os bosques e as creaturas todas, em que buscava seu prazer, lhe perguntavam: David, queres tornar-te feliz por meio de nós? não, não estamos em estado de te contentar. Onde está teu Deus? Procura teu Deus, só elle poderá contentar-te. Por isso, no meio de suas alegrias, não fazia outra coisa que chorar. «Minhas lagrimas foram minha comida dia e noite, emquanto se me dizia continuamente: Onde está teu Deus?» (Ps. 41. 4).

Consequências Práticas

E´ pois, verdade que o mundo torna insensatos os seus sequazes, induzindo-os até a renunciar aos bens infinitos e eternos do céu por amor dos bens miseráveis e passageiros da terra e a soffrer as penas indiziveis e eternas do inferno para se verem livres de males pequenos e transitórios. Não é isso uma incomprehensivel loucura?

Vê-se claramente do sobredito que o mundo torna seus sequazes também traidores de Jesus Christo, pois não se contenta de separal-os de Nosso Senhor, mas esforça-se igualmente para afastar os outros do mesmo Senhor. Não é isso uma horrenda perfídia? E’ certo também que o mundo torna infelizes seus partidários, já que procura cegal-os para que busquem sua felicidade nos bens miseráveis da terra, onde, porém, só encontram um inferno antecipado. Não é isso fazel-os infelizes?

Dahi se segue que não devemos agir segundo as maximas do mundo, mas odial-o, delle fugir e combatel-o, antepondo a tudo a salvação de nossa alma, conservando-nos unidos a Jesus Christo, custe o que custar, pois só elle pode tornar-nos felizes aqui e na eternidade.

Tomemos a resolução de antepor também a graça de Deus a todos os bens e favores deste mundo e dizer com S. Paulo: «Quem nos separará do amor de Jesus Christo? será a tribulação? a angustia? a fome? a nudez? o perigo? a perseguição ou a espada?… Mas em tudo isso sahiremos vencedores por aquelle que nos amou. Pois eu estou certo que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem o que é elevado, nem o que é profundo, nem outra creatura alguma nos poderá apartar do amor de Deus, que é em Jesus Christo Senhor Nosso» (Rom. 8. 35-39).

Jesus Christo nos recommenda não temamos os que nos pódem roubar a vida do corpo, mas sim aquelle que póde lançar no inferno o corpo e a alma (Mat. 10. 28). Nós temos que nos unir ou a Deus ou ao mundo; si escolhermos a Deus devemos renunciar ao mundo. «Até quando pendereis para as duas partes? perguntou Elias ao povo; si o Senhor é Deus, segui-o; mas si fôr Baal, segui-o» (III Reg. 18. 21). Não se póde servir a dois senhores a um tempo. Quem quizer agradar aos homens, não poderá agradar a Deus. «Si agradasse ainda aos homens, não seria eu servo de Christo», diz o Apostolo (Gal. 1. 10).

Si vierem, pois, falsos amigos, dizendo: Que loucura! por que não fazes como os outros? responde-lhes: Nem todos procedem como vós, ha também alguns que vivem piedosamente. — Mas são poucos. — Pois é a esses poucos que quero seguir, já que o Evangelho diz: «Muitos são os chamados, porém poucos os escolhidos» (Math. 22. 14). Cassiano diz: «Si queres ser feliz com os poucos, vive como os poucos» (De inst. I. 4, c. 28). Mas não sabes que todos falam de ti e desapprovam teu modo de vida? — Basta-me que Deus o approve, pois é melhor obedecer a Deus que aos homens. — Si agires segundo taes maximas, alma querida, não só pódes esperar confiadamente alcan­çar a felicidade eterna do céu, como também prelibarás na terra um antegosto dessa felicidade, gozando duma paz semelhante á dos santos.

Fonte: Escola de Pefeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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