Da Fugida da Ocasião Próxima

9–13 minutos

Obrigação de evitar as ocasiões perigosas

Um sem numero de christãos se perde por não querer evitar as occasiões de peccado. Quantas almas lá no inferno não se lastimam e queixam: Infeliz de mim. Si tivesse evitado aquella occasião, não estaria agora condemnado por toda a eternidade.

Falando aqui da occasião de peccado temos em vista a occasião próxima, pois deve-sé distinguir entre occasiões próximas e remotas. Occasião remota é a que se nos depara em toda a parte e que raramente arrasta o homem ao peccado. Occasião próxima é a que por sua natureza regularmente induz ao peccado. Por exemplo, acharse-ia em occasião próxima um joven que muitas vezes e sem necessidade se entretem com pessoas levianas de outro sexo. Occasião próxima para uma certa pessoa é também aquella que já a arrastou muitas vezes ao peccado. Algumas occasiões consideradas em si não são próximas, tornam-se comtudo taes para uma determinada pessoa que, achando-se em semelhantes circumstancias, já cahiu muitas vezes em peccado em razão de suas más inclinações e hábitos. Portanto, o perigo não é igual nem o mesmo para todos.

O Espirito Santo diz: «Quem ama o perigo nelle perecerá» (Eccl. 3. 27).. Segundo S. Thomaz a razão disso é que Deus nos abanona no perigo quando a elle nos expomos deliberadamente ou delle não nos afastamos. S. Bernardino de Senna diz que dentre todos os conselhos de Jesus Christo o mais importante e como que a base de toda a religião é aquelle pelo qual nos recommenda a fugida da occasião do peccado.

Si fores, pois, tentado, e especialmente si te achares em occasião próxima, acautela-te para te não deixares embahir pelo tentador. O demonio deseja que se empalhe com a tentação, porque então torna-se-lhe facil a victoria. Deves, porém, fugir sem demora, invocar os santos nomes de Jesus e Maria, sem prestar attenção, nem siquer por um instante, ao inimigo que te tenta. S. Pedro nos affirma que o demonio rodeia cada aima para vêr si a póde tragar: «Vosso adversário, o demonio, vos rodeia como um leão que ruge, procurando a quem devorar» (I Ped. 5. S). S. Cypriano, explicando essas palavras, diz que o demonio espreita uma porta pela qual possa entrar na alma; logo que se oferece uma occasião perigosa, diz comsigo mesmo: eis a porta pela qual poderei entrar, e immediatamente suggere a tentação. Si então a aima se mostrar indolente para fugir da tentação, cahirá seguramente, em especial si se tratar de um peccado impuro. E’ a razão por que ao demonio mais desagradam os propositos de fugirmos das occasiões de peccado, que as promessas de nunca mais offendermos a Deus, já que as occasiões não evitadas tornam-se como uma faixa que nos venda os olhos para não vermos as verdades eternas, as illustrações divinas e as promessas feitas a Deus.

Quem estiver, porém, enredado em peccado contra a castidade deverá, para o futuro, evitar não só a occasião próxima mas também a remota, emquanto possível, porque um tal se sentirá muito fraco para resistir. Não nos deixemos enganar pelo pretexto de a occasião ser necessária, como dizem os theologos, e que por isso não estamos obrigados a evital-a, pois Jesus Christo disse: «Si teu olho direito te escandaliza, arranca-o fóra de ti» (Mat. 5. 20). Mesmo que seja teu olho direito, deverás arrancal-o e lançar fóra de ti, para que não sejas condemnado. Logo, deves fugir daquella occasião, ainda que remota, já que em razão de tua fraqueza tornou-se ella uma occasião próxima para ti.

Antes de tudo devemos estar convencidos que nós, revestidos de carne, não podemos por própria força guardar a castidade, só Deus, em sua immensa bondade, nos poderá dar força para tanto.

E’ verdade que Deus attende a quem o supplica, mas não poderá attender á oração daquelle que conscientemente expõe-se ao perigo e não o deixa, apesar de o conhecer, pois, como diz o Espirito Santo, quem ama o perigo, perecerá nelle.

O’ Deus, quantos christãos existem que, apesar de levarem uma vida piedosa, cáem e obstinam-se no peccado, só porque não querem evitar a occasião próxima do peccado impuro. Por isso nos aconselha S. Paulo (Phil. 212): «Com temor e tremor operae a vossa salvação». Quem não teme e ousa expôr-se ás occasiões perigosas, principalmente quando se trata do peccado impuro, difíicilmente se salvará.

De algumas ocasiões que devemos evitar cuidadosamente

Já que queremos salvar nossa alma, é nosso dever fugir da occasião do peccado. Primeiramente devemos abster-nos de contemplar pessoas que possam suscitar-nos máus pensamentos. «Pelos olhos entra a setta do amor impuro e fere a alma», diz S. Bernardo (De mod. bene viv. c. 23), e essa setta, ferindo-a, tira-lhe a vida. O Espirito Santo dá- nos o conselho: «Desviae vossos olhos de uma mulher adornada» (Eccl. 9. 8).

Mas será peccado fitar pessoas de outro sexo? Si estas forem jovens, será peccado venial, pelo menos; e quando se prende nellas attenciosa e demoradamente as vistas, e isso repetidas vezes, ha mesmo perigo de peccado mortal. Segundo S. Francisco de Sales, um só olhar já é prejudicial e muito mais repetidos olhares.

Para se livrar de tentações impuras um antigo philosopho se arrancou os olhos. Nós, christãos, não podemos assim proceder, mas devemos cegar-nos espiritualmente, desviando os olhos de objectos que possam occasionar-nos tentações. S. Luiz de Gonzaga nunca olhava para uma mulher e mesmo em conversa com sua própria mãe, tinha os olhos postos no chão. E’ claro que o mesmo perigo existe para as mulheres que cravam seus olhos em homens.

Em segundo logar, deves evitar todas as más companhias e as conversas e entretenimentos em que se divertem homens e mulheres. Com os santos te santificarás e com os perversos te perverterás. Anda com os bons e tornar-te-ás bom, anda com os deshonestos e tornar-te-ás deshonesto.

O homem toma os hábitos daquelles que convivem com elle, diz S. Thomaz de Aquino. Si estiveres mettido em uma conversação perigosa, que não possas abandonar, segue o conselho do Espirito Santo: Cerca teus ouvidos de espinhos para que os pensamentos impuros dos outros não achem nelles entrada. Quando S. Bernardino, de Senna, ainda pequeno, ouvia uma palavra deshonesta, sentia o rubor subir ás suas faces, e por isso seus companheiros tomavam cuidado para não pronunciar taes palavras em sua presença. Sto. Estanislao Kostka sentia tal asco ao ouvir taes palavra que perdia os sentidos.

Quando ouvires alguém conversando sobrecoisas impuras, volta-lhe as costas e foge. Assim costumava proceder Sto. Edmundo. Havendo uma vez abandonado seus companheiros por estarem conversando sobre coisas deshonestas, encontrou-se com um joven extraordinariamente bello que lhe disse: Deus te abençoe, querido. Ao que o santo perguntou, admirado: Quem és tu? Olha para minha fronte e lerás meu nome. Edmundo levantou os olhos e leu: Jesus Nazareno, Rei dos Judeus. Com isso Nosso Senhor desappareceu e o santo sentiu uma alegria celestial em seu coração.

Achando-te em companhia de rapazes que conversam sobre coisas deshonestas e, não podendo retirar-te, não lhes dês attenção, volta-lhes o rosto e dá-lhes a conhecer que taes conversas te desagradam.

Deves também abster-te de considerar quadros menos decentes. S. Carlos Borromeu prohibiu a todos os paes de familia conservarem taes quadros em suas casas. Deves igualmente evitar a leitura de máus livros, revistas e jornaes, não só dos que tratam ostensivamente de coisas immoraes, como também dos que se occupam de historias eróticas, como certos poetas e romancistas.

Vós, paes de familia, prohibi a vossos filhos a leitura de romances: estes causam muitas vezes maiores damnos que os livros propriamente immoraes, porque deixam nos corações dos jovens certas más impressões que lhes roubam a devoção e os induzem ao peccado. S. Boaventura diz (De inst. nov. p. 1, c. 14): «Leituras vãs produzem pensamentos vãos e destróem a devoção». Dae a vossos filhos livros espirituaes, como a historia ecclesiastica, ou vidas dos santos e semelhantes.

Prohibi a vossos filhos representar um papel qualquer em uma comedia inconveniente e mesmo a assistência a representações immoraes. «Quem foi casto para o theatro, de lá volta manchado», diz S. Cypriano. Si para lá se dirigiu aquelle jovén ou aquella donzella em estado de graça, de lá voltam ambos em estado de peccado. Prohibí tambem a vossos filhos a ida a certas festas, que são festas do demonio, nas quaes ha dansas, namoros, canções impudicas, gracejos e divertimentos perigosos. Onde ha dansas, celebra-se uma festa do demonio, diz Sto. Ephrem.

Mas que ha de ruim quando se graceja? dirá alguém. Esses taes gracejos não são gracejos, mas crimes, responde S. João Chrysostomo, são graves offensas contra Deus. Um companheiro do P. João Vitellio, contra a vontade deste servo de Deus, se dirigiu uma vez para um tal divertimento em Norcia. Que lhe aconteceu? Perdeu primeiramente a graça de Deus, entregou-se em seguida a uma vida desregrada e foi finalmente assassinado por seu proprio irmão.

Poderás aqui perguntar-me si é peccado mortal namorar. Responderei a essa pergunta na segunda parte, c. 6, § IV. Aqui só direi que taes namoros tornam-se occasião próxima de peccado. A experiencia ensina que em taes casos só poucos deixam de peccar. Si não peccam já no começo, cáem no decorrer do tempo. No principio se entretêm só por inclinação mutua; a inclinação mutua torna-se, porém, em breve paixão, e a paixão, uma vez arraigada, cega o espirito e arrasta a muitos peccados de pensamentos, palavras e obras.

Fúteis objeções contra as sobreditas verdades

Objectar-me-ás: Mudei duma vez de vida; não tenho nenhuma má intenção, nem mesmo uma tentação quando vou visitar fulana ou sicrana. Respondo: Conta-se que ha uma especie de ursos que dão caça aos macacos: Ao avistar o urso, fogem estes para as arvores. Mas que faz o urso? Deita-se debaixo da arvore e faz-se de morto. Descem os macacos com esse engano e então de um salto captura-os e devora-os. E’ o que pratica o demonio: representa a tentação como morta e mal desceres, isto é, logo que te expuzeres ao perigo, desperta-a, de novo, e ella te tragará. Oh quantos christãos, que se davam ao exercício da oração e communhão e, mesmo, levavam uma vida santa, não cahiram nas garras do demonio, porque se expuzeram ao perigo.

A historia ecclesiastica narra que uma mulher mui piedosa se occupava em obras de caridade e em especial em enterrar os corpos dos santos martyres. Encontrando uma vez o corpo de um martyr, que ainda dava signaes de vida, levou-o para sua casa, curou-o e o martyr restabeleceu-se. Mas que aconteceu? Por causa da occasião próxima, esses dois santos — pois este nome mereciam — primeiramente perderam a graça de Deus e depois a fé.

Mas a visita áquella casa, a continuação daquella amizade me traz proveito, dizes. Sim. porém si notares que «aquella casa é o caminho para o inferno» (Prov. 7. 27), nenhum proveito te trará, e tu a deves deixar si desejas ser feliz. Mesmo que fosse teu olho direito a causa da perdição, deverías arrancal-o e lançal-o longe de ti, diz o Senhor. Nota as palavras: lança-o de ti, não deves deixal-o perto, mas repelli-o para longe, isto é, deves evitar por completo a occasião. — Mas daquella pessoa nada tenho a temer, pois ella é tão devota. A isso responde S. Francisco de Assis: O demonio tenta diversamente os christãos piedosos que se deram inteiramente a Deus e os que levam uma vida desregrada. Elle não procura prendel-os com uma corda já no principio; contenta-se com um cabello, servindo-se então de um fio e finalmente de uma corda, arrastando-os ao peccado.

Quem quizer ser preservado deste perigo deve já no começo evitar todos os fios, todas as occasiões, quer sejam saudações, quer presentes.

Ainda uma observação importante: Um penitente que nunca evitou seriamente as occasiões perigosas, nas quaes tem regularmente cahido em peccado mortal, apesar de todas as suas confisssões, deverá fazer uma confissão geral, visto terem sido invalidas as confissões feitas em tal estado, visto a falta de proposito de evitar a occasião próxima. O mesmo se deve dizer a respeito dos que confessam seus peccados, mas nunca deram signal de emenda, continuando logo depois da confissão a commetter os mesmos peccados, sem empregar nenhum meio contra a queda. Só uma confissão geral poderá trazer-lhes garantia e tranquillidade, servindo de base para uma verdadeira emenda; feita a confissão, poderão encetar uma vida nova e perfeita, pois os maiores peccadores, como acima provamos, poderão, com a graça de Deus alcançar a perfeição.

Fonte: Escola de Pefeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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