Purificação do Coração

21–31 minutos

I – O pecado mortal e a perfeição

A alguns parecerá exquisito que se trate do peccado mortal em uma introducção á perfeição. E afinal, de nenhum modo se poderá affirmar ser isso uma coisa supérflua, pois mesmo os justos, que já fizeram grandes progressos no caminho da perfeição, pódem ainda cahir em peccado mortal e com elles tratamos dessa matéria para que sempre viva conservem em seus corações a aversão para com elle.

Mas pódem também os peccadores, depois de grandes desvarios, tornar-se verdadeiros santos, e a estes falamos do peccado mortal, para que a sua consideração os leve a se reconciliarem com Deus e possam assim começar a tender efficazmente á perfeição. Esses infelizes peccadores que se compenetrem desta verdade, que si quizerem seriamente converter-se, seus peccados não serão empecilhos para obterem de Deus as maiores e mais preciosas graças. Ahi temos os exemplos de um S. Paulo, de um Sto. Agostinho, de uma Sta. Maria Egypciaca, de uma Sta. Margarida de Cortona. Esta santa, admirada dos grandes favores que recebia de Deus, perguntou-lhe uma vez: Mas, como é possivel, Senhor, que me concedaes tantas graças? Já vos esquecestes dos meus peccados? E o Senhor respondeu-lhe: Não sabes então que me esqueço de todas as offensas a mim feitas por uma alma que se arrepende de seus peccados? Estas palavras concordam com o que nos diz o Senhor pela bocca de Ezechiel: «Si o impio fizer penitencia… não me recordarei de suas iniquidades» (Ezech. 18. 21). Logo, nossos antigos peccados não nos impedirão tornarmo-nos santos si nos consagrarmos por inteiro ao serviço de Deus.

Faremos, por isso, algumas considerações sobre o peccado mortal para nos enchermos de grande odio e profunda aversão contra o mesmo.

II – A malícia do pecado mortal

O peccado mortal é primeiramente uma grande offensa feita a Deus. A grandeza de uma affronta mede-se pela consideração não só da pessoa offendida como também da do offensor, como diz Sto. Thomaz. Uma offensa feita a um camponez é certamente uma acção má, maior, porém, é o aggravo dirigido a uma pessoa de posi­ção e ainda mais si visa a um monarcha.

E quem é Deus? «O Senhor dos senhores, o rei dos reis» (Apoc. 17. 14). Deus é a majestade infinita, diante do qual todos os príncipes da terra e todos os santos e anjos do céu nada mais são do que um grãozinho de areia; assemelham-se a uma «gotazinha num balde, a um fino pó», e todas as gentes são diante delle como um nada», na expressão do Propheta (Is. 40, 15. 17). Eis o que é Deus. E o homem? «Um vaso de immundicies, uma comida para os vermes», diz S. Bernardo (Med. 3). «Elle é desditoso, miserável, pobre, cégo e nú», segundo o Esphito Santo no Apocalypse (Apoc. 3. 17). O homem é um miserável verme que nada pô­de, um cégo que nada vê, um pobre nú que nada tem.

E esse bichinho despresivel, essa mão cheia de pó, atreve-se a offender uma tão tremenda majestade, exclama S. Bernardo (In Cant. s. 6). Com razão nota S. Thomaz (III. q. 1. a 2), que o peccado do homem, em consideração da infinita, majestade de Deus, reveste-se de uma certa malícia tambem infinita. Sto. Agostinho chama o peccado simplesmente mal infinito.

Por isso é certo que si todos os homens e anjos se offerecessem a morrer e mesmo a ser aniquilados por amor de Deus, não poderíam satisfazer condignamente por um só peccado mortal. Deus castiga o peccado mortal com as penas horrorosas do inferno; mas por maior que seja a pena nunca corresponderá á que merece o pecado. Que pena seria sufficiente para punir equivalentemente a um verme que ousasse se sublevar contra seu senhor?

O peccado mortal é uma rebellião da creatura contra seu Creador. Deus é o senhor de todas as coisas: foi elle que creou tudo que existe. «Em teu poder estão todas as coisas… Fizeste o céu e a terra» (Est. 13. 9). Sim, todas as creaturas obedecem a Deus: «os ventos e o mar lhe obedecem» (Matth. 8. 27); «o fogo, o granizo, a neve, o gelo… fazem o que elle diz» (Ps. 148. 8). Que faz, porém, o homem, quando pecca? Diz a Deus: «Não servirei» (Jer. 2. 29). O Senhor diz-lhe: Não te vingues. O homem responde: Eu hei de me vingar. — Não furtes. — Eu o farei. — Deves abster-te desse prazer impuro: — Ora, não me absterei. O peccador repete as palavras de Pharaó a Moysés, quando este indicou-lhe o preceito de Deus de dar a liberdade ao povo de Israel: «Quem é o Senhor para que eu ouça a sua voz?… Não sei quem seja o Senhor» (Ex. 5. 2).. Do mesmo modo fala o peccador: Não te conheço, ó Senhor, e faço o que me apraz.

Commetter um peccado mortal é virar as costas a Deus Nosso Senhor, pois o peccado mortal consiste propriamente em abandonar a Deus, o summo Bem, e adherir á creatura, segundo a doutrina de S. Thomaz. Daqui a exprobração que Deus faz ao peccador: «Abandonaste-me e me voltaste as costas» (Jer. 15. 16).

Commetter um peccado mortal é declarar guerra a Deus. Quando o homem pecca, ousa declarar-se inimigo de Deus, resiste-lhe em face usa de sua força contra o Todo-poderoso (Job. 25. 25).

Que dirias si visses uma formiga combater contra um elephante? Deus é o Todo-poderoso que com um aceno creou o céu e a terra. Quando o peccador consente no peccado, estende sua mão contra Deus, levanta sua cerviz orgulhosamente e se lança contra Deus; arma-se de dura cerviz, isto é, de ignorância, e diz: Que mal fiz eu peccando? Deus é summamente misericordioso e perdoa os peccadores. — Que injuria, que ousadia, que obsecação!

O peccador, porém, vae ainda mais longe: á injuria ajunta o despreso, recusando a graça divina e calcando aos pés a amizade de seu Deus, por uma miserável satisfação. Si o homem recusasse a amizade de Deus para alcançar um reino ou o império do mundo inteiro, já seria isso uma horrenda perversidade, já que a amizade de Deus é muito mais preciosa do que o mundo todo e milhares de mundos. E afinal por amor de que coisa o peccador offende a Deus? Por um pouco de terra, para satisfazer a sua ira, por um gozo bestial, por uma vaidade, por um capricho. «Elles me deshonraram por um punhado de cevada e um pedacinho de pão» (Ezech. 13. 19).

Quando o peccador pondera si consente ou não no peccado, toma nas mãos, por assim dizer, uma balança, para vêr o que pesa mais e deve ser preferido: si a graça de Deus, si a satisfação daquella paixão, daquella vaidade, daquelle prazer, e quando consente, dá a conhecer que a seus olhos mais vale essa satisfação de sua paixão que a amizade de Deus. Eis como Nosso Senhor é despresado pelo peccador.

David, considerando a grandeza e majestade de Deus, exclama (Ps. 34. 10): «Senhor, quem é semelhante a vós?» Ora, vendo-se Deus despresado e igualado a um miserável prazer, pergunta ao peccador: «A quem, então, me quereis comparar e assemelhar?» (Is. 40. 25). E esse infame prazer tem maior valor que minha graça? «Lançaste-me para traz de teu corpo!» (Ezech. 23. 35). Não commetterias esse crime, si te custasse uma mão, dez ducados, e até muito menos. Logo, só Deus é tão despresivel a teus olhos, só elle merece ser posposto a um impeto da ira ou a uma satisfação vergonhosa de tua paixão, exclama Salviano.

Todo o peccado mortal é também uma especie de idolatria. Quando o peccador se rebella contra Deus para satisfazer sua paixão, nella colloca seu ultimo fim e a constitue seu deus. «Todo aquelle que venera o que deseja faz disso o seu deus», diz S. Jeronymo (In ps. 80). «O vicio no coração é como um deus sobre o altar». No mesmo sentido se exprime S. Thomaz (De dup. márt.): «Si amas a concupiscencia será ella chamada teu deus». E S. Cypriano: «O homem constitue séu deus tudo o que elle prefere a Deus». Quando Jeroboão se revoltou contra Deus, procurou induzir o povo á idolatria e apresentou-lhe seus deuses, dizendo: «Eis aqui teus deuses, Israel» (III Reg. 12. 28). Do mesmo modo procede o demonio: colloca diante dos olhos do peccador um prazer illicito e diz-lhe: Não te incommodes com Deus. Este prazer, esta satisfação de tua paixão é teu deus; submette-te a ella e afasta-te de Deus. E assim procede o peccador quando consente: em seu coração adora aquella satisfação em vez de Deus. O vicio no coração é como um deus no altar.

Mas si ao menos o peccador deixasse de offender a Deus na sua presença! Mas nem isso! Elle despresa e injuria a Deus em sua presença, já que elle está presente em toda a parte. «Talvez não encho eu o céu e a terra?» (Jer. 22. 24), O peccador sabe muito bem disso e, comtudo, não deixa de provocar á Deus. «Elle sempre me provoca á ira, diante de minha face» (Is. 65. 3).

O peccador, pois, offende, despresa a Deus, mas não se contenta com isso: retribue seus benefí­cios com ultrajante ingratidão. Nada nos causa tanta dôr como a ingratidão de uma pessoa que amamos e cumulamos de benefícios. E contra quem se levanta o peccador? Contra Deus que o creou, que em seu amor chegou a derramar por elle seu sangue e dar-lhe sua vida. E’ este o Deus que o peccador expulsa de seu coração pelo peccado mortal. Em uma alma que o ama, Deus entra e ahi estabelece sua morada. «Si alguém me amar, amal-o-á também meu Pae e viremos e nelle estabeleceremos a nossa morada» (Joa. 14. 23). Notem-se as palavras: Estabeleceremos nelle morada. Deus vem a uma alma para nella sempre morar, só a deixa quando é expulso. Elle não abandona si não fôr antes abandonado, diz o Concilio de Trento. Mas, Senhor, vós sabeis que essa ingrata vos expulsará um dia! Por que não a abandonaes já agora? Quereis talvez esperar até que ella vos expulse? Deixae-a, Senhor, afastae-vos della antes de receberdes uma tão grande injuria. — Não, diz o Senhor, não quero abandonal-a enquanto ella não me expulsar, formalmente.

Quando, pois, uma alma consente-num pecado, assim diz á Deus: Senhor, afasta-te de mim.

Os impios dizem a Deus: «Afasta-te de nós» (Job. 21. 1). E’ verdade, não o dizem com a bocca, nota S. Gregorio, mas dizem-no pela acção. O peccador sabe muito bem que Deus e o peccado não pódem morar juntos; sabe, por isso, que, abrindo seu coração ao peccado, obriga a Deus a se retirar delle, e assim diz a Deus: Já que, eu peccando, não pódes ficar commigo, afasta-te de mim. E repellindo a Deus de seu coração, permitte ao demonio que delle se apodere. Pela mesma porta pela qual se retira Deus entra o demonio. «Então vae e toma comsigo outros sete espíritos peiores que elle e entrando habitam n’alma» (Matth. 12.45).

No baptismo diz o sacerdote ao demonio: Retira-te, espirito imundo, e dá logar ao Espirito Santo. Pela graça santificante a alma torna-se um templo de Deus. «Não sabeis que sois templo de Deus?» Cor. 3. 16). O homem que consente no peccado faz justamente o contrario do sacerdote; elle diz a Deus, qué estabeleceu o seu throno em sua alma: Retira-te de mim, Senhor, e cede o logar ao demonio. De semelhante ingratidão se queixou Nosso Senhor a Sta. Brigida: «Eu sou qual um rei que é expulso de seu reino e cujo throno é occupado pelo salteador mais infame» (Rev. I. 1, c. 1).

Que dôr não sentirías ao vêr-te injuriado por alguém que de ti recebeu muitos favores. Ora, uma tal dôr causaste a teu Deus, que chegou a sacrificar sua vida por ti. O Senhor chega a convidar o céu e a terra a compadecer-se delle por uma tal ingratidão: «Ouvi, ó céus, e presta ouvidos, ó terra: eduquei e exaltei meus filhos, mas elles me despresaram» (ls. 1. 2).

Numa palavra: por seus peccados contristam os peccadores o coração de Deus. «Elles o provocaram á ira e affligiram o espirito de seu santo» (Is. 63. 10). «Deus não póde sentir dôr alguma, mas si isso fosse possivel, bastaria, para fazel-o morrer de desgosto, um só peccado mortal», como diz o P. Medina (De salisf. 9. 1): «O peccado mortal aniquilaria o proprio Deus, si isso fosse possivel, porque lhe causaria uma afflição infinita». E S. Bernardo: O peccado mataria a Deus si sua morte só dependesse delle. Commettendo o peccador um peccado mortal envenena, por assim dizer, a Deus, e só independentemente de sua vontade é que seu Creador não morre. «O peccador irrita o Senhor» (Ps. 10. 4). Segundo a expressão de S. Paulo, elle «calca aos pés o Filho de Deus» (Heb. 10. 9), já que despresa tudo o que Jesus fez e padeceu para a destruição do peccado.

Por isso pergunta tão sentidamente ao peccador nosso divino Salvador: «Que te fiz eu, ou em que te contristei?» Responde-me. Que mal, que dôr te causei para assim me offenderes? — O’ meu Salvador, perguntaes-me que mal fizestes? Deste-me a existência, e por mim morrestes: eis o mal que praticastes. Que poderei responder? Confesso que mil vezes mereci o inferno e que com razão poderieis ter-me condemnado. Recordae-vos, porém, do amor que vos levou a morrer por mim na cruz. Lembrae-vos do sangue que por mim derramastes e compadecei-vos de mim. Bem o sei, vós não quereis que eu desespere; não, affirmaes até que estaes á porta do meu coração, do qual vos expulsei, batendo por meio de vossas inspirações e desejando entrada: «Estou á porta e bato» (Apoc.3. 20) e pedis-me que vos abra: «Abre-me, minha irmã» (Cant. 5. 2). Pois bem, meu Jesus, quero expulsar o peccado do meu coração, detesto-o de toda a alma e amo-vos sobre todas as coisas. Voltae, meu amado Salvador, vinde ao meu coração: a porta já está aberta, vinde e não me deixeis jámais.

III – Desgraça do pecador

Grande é a malícia do peccado, mas grande também é a desgraça de quem o commette.

  1. O peccado mortal rouba-nos a vida sobrenatural. Como a alma dá vida ao corpo, assim a graça dá vida á alma. E’ a razão por que o peccado grave é chamado mortal, visto destruir a vida da graça na alma. Como a morte do corpo não póde ser suspensa a não ser por um milagre da mão de Deus, assim também a morte da alma não poderá ser impedida sinão por um milagre da bondade divina, quando ella é attingida pelo peccado. E’ verdade que Deus em sua misericórdia costuma restituir a vida da graça, perdoando a muitas almas aqui na terra. Isso dá-se, porém, só neste mundo e não no outro, pois sua providencia estabeleceu como lei exercer misericórdia no tempo e não na eternidade.
  2. O peccado mortal occasiona a perda de todos os merecimentos. Si tivesses adquirido mé­ritos semelhantes aos de um S. Paulo eremita, que viveu 89 annos em uma gruta, ou aos de um S. Francisco Xavier, que conquistou milhões de almas para Deus, ou aos de um S. Paulo apostolo, que adquirira mais merecimentos, segundo S. Jeronymo, que os demais apostolos juntos, tudo perderías commettendo um só peccado mortal. «Não será recordada nenhuma das obras de justiça por elle praticadas» (Eccl. 18. 24).
  3. Pobres peccadores! Imaginam encontrar a felicidade commettendo peccados, mas só encontram amargura e remorsos. «Em seus caminhos só ha arrependimento e infelicidade e não conhecem o caminho da paz» (Ps. 13. 3). Mas não procuram elles a paz? Sim, mas «para os impios não ha paz», diz o Senhor (Is. 48. 22).

    O temor do castigo divino acompanha sempre o peccado. Quando se tem por inimiga uma pessoa poderosa, não se póde comer nem dormir socegado. Ora, como então poderá viver em paz quem se fez inimigo de Deus? «O temor é a recompensa dos que praticam o mal» (Ps. 10. 29). Oh quanto não treme um homem, que tem no coração um peccado mortal, ao sentir os abalos de terremoto, ao ouvir os trovões de uma tempestade; já o susurro de uma folha causa-lhe terror. «O som do terror sempre echoa aos ouvidos delle» (Job. 25. 21). «O impio foge sempre sem que ninguém o persiga» (Prov. 28. 1). Que coisa o persegue então? Seus proprios pecados. Depois de Caim ter trucidado seu irmão Abel, exclamou: «Todo aquelle que me encontrar, matar-me-á» (Gen. 4. 14), apesar de ter-lhe o Senhor asseverado que ninguém o mataria. Caim morou como profugo na terra, ajunta a Escriptura, fugindo de um logar para outro. Quem o perseguia? Seu peccado.

    Ao peccado succedem-se os remorsos, aquelles vermes cruéis que não cessam de roer. Dirige-se o infeliz peccador ao espectáculo, ao baile, a um banquete; por toda a parte ouve a voz da consciência: Vives na desgraça de Deus, que será de ti si morreres? As exprobrações da consciência causam muitas vezes já nesta vida tão grande tormento, que alguns se deram a morte para della se libertarem. Um desses foi Judas que, por desespero, se enforcou. De um homem que matára uma creança, conta-se, que entrou num convento para ver-se livre dos remorsos, mas não encontrando ahi a paz, procurou o juiz, confessou-lhe sua culpa e deixou-se condemnar á morte.
    Que é uma alma privada da graça de Deus? O Espirito Santo compara-a a um mar tempestuoso: «Os impios assemelham-se ao mar encapellado que não póde ficar tranquillo» (Is. 57. 20). Si alguém fosse convidado para um concerto, um baile, um banquete, e lá fosse dependurado de cabeça para baixo, poderia sentir satisfação nesses divertimentos? Com um tal se parece um peccador, privado da graça de Deus, e rico em bens deste mundo. Em sua alma está tudo transtornado. Poderá comer e beber, dansar e vestir-se luxuosamente, receber demonstrações honrosas e conseguir altas collocações e grandes cabedaes, paz nunca elle terá. Para os impios não ha paz. Deus é o distribuidor da paz, e elle só a concede a seus amigos e não a seus inimigos.
  4. Não termina, porém, aqui a desgraça do peccador. Como affirma S. Thomaz de Villanova, uma alma que perdeu a graça de Deus não poderá passar muito tempo sem commetter novos peccados. Assim se originam aquelles hábitos fataes que tão difficilmente se deixam. O peccador habituado é comparado na Escriptura (Ps. 82. 14) á moinha que é levada pelo vento. Vêde quão facilmente é a palha arrastada pelo mais leve vento, diz S. Gregorio; da mesma fórma notareis que alguns, antes de darem o consentimento, resistiram por algum tempo e combateram a tentação, mas tornando-se-lhes o mal um habito, qualquer tentação, a menor occasião que se lhes offerece basta para os induzir ao consentimento immediato. E por que? Porque o máu habito privou-os da luz.

    Sto. Anselmo diz que o demonio procede com certos peccadores como um menino que tem um passaro preso em um laço. Elle deixa-o voar, mas puxa-o novamente para terra. Assim também um peccador preso na rêde do máu costume está sujeito ao poder de seu inimigo e si procura alguma vez levantar e elevar-se, cáe novamente nos antigos vicios. Outros vão mesmo tão longe que cáem em peccados sem nenhum motivo externo, como nota S. Bernardino. Este santo compara os peccadores habituaes a moinhos de vento, que são movidos por qualquer sopro do vento e que muitas vezes trabalham mesmo quando o molleiro o deseja parar e nada ha mais para moer.

    Certamente encontrar-se-á algum peccador habitual, que sem nenhum motivo externo, sem gosto e quasi contra a vontade, arrastado unicamente por seu máu costume, se demore em máus pensamentos, e pois, como nota S. João Chrysostomo (Hom. ad bap(.), «o habito é uma coisa mui violenta que muitas vezes nos arrasta a peccados sem que o queiramos». A causa disso é que o habito toma-se uma quasi necessidade ou uma segunda natureza, na expressão de S. Bernardino (Tom. 3. s. 5). Como o respirar é uma necessidade para o homem, assim para o escravo do máu costume torna-se o peceado quasi que uma necessidade. Digo para o escravo, pois os escravos servem constrangidos, sem recompensa, ao passo que aos empregados se paga seus serviços. Tão longe chegam alguns infelizes peccadores: peccam sem gosto.
    A consequência immediata de uma vida tão peccaminosa é a obstinação do coração. E’ a pena que Deus impõe, mui acertadamente, á resistência ás suas inspirações. «O Senhor se compadece de quem quer e a quem quer endurece» (Rom. 9. 18). Sto. Agostinho assim explica estas palavras do Apostolo: Deus endurece significa que não quer se compadecer; elle não endurece o peccador habitual, no sentido proprio da palavra, mas para castigar o abuso que faz de sua graça, priva-o della e com isso fica endurecido o coração do peccador: duro como uma pedra e resistente como uma bigorna» (Job. 41. 15).

    Emquanto estes e aquelles se commovem ouvindo um sermão sobre o rigor do juizo divino, sobre as penas dos condemnados, sobre a paixão de Jesus Christo, o peccador habitual não se deixa enternecer; fala e ouve falar com indifferença a esse respeito e procede como si isso tudo não lhe dissesse respeito; seu coração, sob taes impressões, torna-se ainda mais duro e resistente, como a bigorna do ferreiro.
    E perdida uma vez a luz divina e endurecido o coração do peccador, será inevitável, humanamente falando, um máu fim e uma morte na obstinação. «Um coração endurecido se haverá mal no ultimo dia» (Eccl. 3. 27). Um tal infeliz parece-se com o abutre, que prefere tornar-se uma presa do caçador, que deixar o cadaver que segura em suas garras.

    Numa cidade da Italia occorreu o seguinte facto. Um joven vivia em estado de peccado. Apesar das repetidas admoestações de Nosso Senhor e de seus amigos, não mudou em nada o seu proceder. Certo dia morre repentinamente sua irmã. Causou-lhe isso grande temor, mas não por muito tempo; apenas enterrada a irmã, continuou no seu desregramento. Dois mezes depois uma febre lenta levou-o ao leito. Em tal estado mandou chamar um padre e confessou-se. Isso não o impediu de exclamar um dia: Oh quão tarde aprendo a conhecer o rigor da justiça divina; virando-se então para o medico, disse-lhe: Recuso os remedios, meu mal é incurável, e dirigindo-se para os circumstantes: Sabei que, como não ha mais salvação para meu corpo, também não ha mais esperança para minha alma; espera-me uma morte eterna; Deus abandonou-me, e eu o noto na obstinação de meu cora­ção. Seus amigos e alguns religiosos tentaram reanimar sua esperança, lembrando-lhe a misericórdia. Debalde, elle só respondia: Deus me abandonou. Quem narra tal facto estava presente e procurou também reanimar o joven, dizendo-lhe: Tem confiança, reconcilia-te com Deus e recebe o santo viatico. Ah, meu amigo, respondeu-lhe, falaes com uma pedra, minha confissão já foi invalida, porque não tive arrependimento; não quero nem confessor nem sacramentos; só peço que não me deis o viatico; commetteria coisas horrendas. O sacerdote retirou-se com o coração afflicto. Noutro dia voltou á casa do doente e disseram-lhe que o enfermo fallecera durante a noite sem auxilio sacerdotal algum.
  5. Mas a desgraça maior que succederá ao peccador endurecido será a separação eterna de Deus em castigo de ter vivido apartado de Nosso Senhor aqui no mundo. Nem as trevas, nem os tormentos, nem o fogo, nem o fétido, nem os lamentos constituem propriamente o inferno, mas sim a pena da perda de Deus. Acumulae penas e mais penas, diz S. Bruno, nunca tereis o inferno si não estiverem os condemnados privados da posse de Deus. E S. Chrysostomo: Si imaginares milhares de penas infernaes, nada poderás apresentar que iguale a essa pena. Sto. Agostinho affirma que si os condemnados gozassem da visão de Deus não sentiríam os outros tormentos, antes o inferno se lhes transformaria em paraiso.

    Na vida presente só os santos sentem esta pena. Assim, Sto. Ignacio de Loyola exclamava: Senhor, estou prompto a supportar todos os tormentos, só não quero ser privado de vossa posse. Os peccadores nada entendem dessa pena; esses infelizes pódem viver mezes e annos separados de Deus, caminhando nas trevas. Logo, porém, que a alma deixar este mundo, conhecerá também que foi creada por Deus, sentir-se-á attrahida para elle e desejará ardentemente unir-se a elle; achando-se, comtudo, em estado de peccado mortal, Deus a repellirá e comprehenderá então o bem que perdeu.
    Que esforços não faz um cão de caça atrelado para se libertar quando divisa a lebre. Ao separar-se do corpo, a alma sente-se por sua propria natureza attrahida para Deus e ao mesmo tempo repellida pelo peccado e precipitada no inferno. «Vossas iniquidades vos separaram de vosso Deus» (Is. 59. 2). Todo o inferno consiste, pois, naquellas primeiras palavras da sentença da condemnação: «Apartae-vos de mim, malditos» (Mat. 25. 41). Apartae-vos de mim, dirá Jesus Christo, nunca mais vereis minha face. «Si alguém coadunar mil infernos, não nos fará ainda entrever a desgraça daquelle que se tomou um objecto de aversão a Jesus Christo», diz S. João Chrysostomo (In Mat. hom. 24).
    Tendo David condemnado seu filho Absalão a não apparecer mais diante delle, ficou este tão afflicto que disse: «Supplico que me seja permittido vêr a face do rei, si não… mande-me matar» (II Reg. 14. 32). Philippe II disse uma vez a um cortezão que se comportava irreverentemente na egreja: Retira-te para sempre de diante de meus olhos. Causou isto tanta tristeza ao cortezão que falleceu de dôr apenas chegado em casa. Que horror não causará então a sentença de Deus contra os condemnados. «Occultar-lhes-ei minha face… e todos os males e afflicções pesarão sobre elles» (Deut. 31. 17). Não pertenceis mais a mim nem eu a vós, dirá nesse dia o Senhor aos condemnados, pois «vós não sereis mais meu povo e eu não serei vosso rei» (Os. 1. 9).
    Que dôr não sentirá um filho ao vêr morrer seu pae, ou uma esposa seu esposo, tendo de dizer: Meu pae, meu esposo, nunca mais te verei. Ah! si ouvíssemos um condemnado chorar e lhe perguntássemos por que chora tanto, respondernos-ia: Choro porque perdi a Deus e nunca mais tornal-o-ei a vêr. Mas si ao menos pudesse o infeliz amar a Deus e se conformar com sua santa vontade. Não; porque então o inferno deixaria de ser inferno: elle não poderá conformar-se com a vontade de Deus porque della se fez inimigo; não poderá mais amar a Deus, tendo de odial-o eternamente e nisto justamente consiste seu inferno, pois reconhece que Deus é seu summo e ultimo bem e vê-se obrigado a odiar aquelle que sabe merecedor de infinito amor.

IV – Avisos práticos

Visto ser o peccado mortal um mal tão grande, uma desgraça tão desastrosa, renunciemol-o para sempre: desconfiemos, porém, sempre de nós mesmos. Si não rezarmos, si contarmos só com nossas forças, cahiremos infallivelmente. Digamos por isso muitas vezes com Sto. Ignacio: Não permittaes, Senhor, que me aparte de vós. Si tivermos a infelicidade de peccar gravemente, não devemos desanimar, mas sem demora lançar-nos aos pés de Jesus e de seu sacerdote para uma bôa confissão. «Eu sou pobre e carregado de trabalhos desde a minha juventude» (Ps. 87. 16). Com essas palavras o Divino Salvador, por bocca de David, annunciava que sua vida havia de ser um continuo padecimento. Daqui conclue S. João Chrysostomo que também nós devemos nos affligir durante toda a nossa vida por causa do peccado.

Como Jesus passou toda sua vida em afflicções por causa de nossos crimes, assim devemos nós viver compenetrados de dôr, já que fomos nós que commettemos esses peccados. Sta. Margarida de Cortona não cessava de chorar seus peccados; disse-lhe, por isso, seu confessor que enxugasse suas lagrimas, porque Nosso Senhor já ha muito lhe perdoára. Como podería deixar de chorar, respondeu ella, e de me arrepender de meus peccados, si meu Jesus por causa delles passou toda a sua vida em tristeza e afflicções?
Para pessoas piedosas é de utilidade confessar-se em geral de um ou outro peccado grave da sua vida passada; isso não é sómente um acto de humildade agradavel a Deus, mas também um meio excedente de repellir toda a inquietação quanto ao valor da confissão. Alguns, que commetteram só peccados leves, vão se confessar sem verdadeiro arrependimento e firme proposito. Ora, para evitar esse escolho é de summa importancia recordar-se no exame de consciência de um peccado grave já confessado e arrepender-se seriamente e em particular delle.

Antes de continuar aconselho a todos que ainda não fizeram uma confissão geral a fazel-a quanto antes. Não digo isso só para os que calaram peccados graves e se confessaram sacrilegamente e para os que fizeram confissão invalida por falta de conveniente preparação ou verdadeiro arrependimento, mas também para os que desejam seriamente dar-se inteiramente a Deus. A confissão geral é um meio poderoso para a verdadeira mudança de vida.

Havendo-se convertido depois de dolorosa confissão, Sta. Margarida de Cortona causou tanta alegria a Nosso Senhor que este começou a apparecer-lhe, chamando-a sempre: Minha pobre peccadora, minha pobre peccadora. Perguntou-lhe uma vez, cheia de humildade: Quando, Senhor, haveis de chamar-me filha? Quando fizeres uma confissão geral sobre tua vida inteira, chamar-te-ei minha filha, respondeu-lhe Jesus. A Santa a fez e desde então recebeu de Jesus essa carícia.

Estejamos sempre promptos a antes sacrificar tudo, mesmo a vida, que offender a Nosso Senhor. Tenhamos sempre os sentimentos que Sto. Edmundo exprime nestas palavras: Prefiro ser lançado em um braseiro que commetter um peccado contra meu Deus, e Sto. Anselmo nas seguintes: Si tivesse de escolher entre o soffrer todas as penas dos sentidos no inferno e o commetter um só peccado contra o meu Deus, escolheria o primeiro.

Finalmente, devemos evitar toda a occasião próxima de peccado, pois, apesar de serem nossos propositos firmes e bons, não os cumpriremos sinão evitarmos a occasião próxima do peccado.



Fonte: Escola de Pefeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931












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