I – Utilidade e necessidade dos santos desejos
O meio principal para se attingir a perfeição e viver inteiramente para Deus consiste num grande desejo de adquiril-a. Como um caçador que pretende atirar num passaro voando precisa fazer a pontaria adiante de sua presa, assim também para se alcançar uma perfeição inferior é necessário aspirar ou visar uma perfeição mais alta, a santidade. «Quem me dará asas, como as da pomba, para voar a meu Senhor e livre de todo o apego mundano nelle descansar?» (Ps. 54. 7). Os santos desejos são essas asas com as quaes se elevam acima deste mundo as almas santas e conseguem o apice da perfeição, gozando daquella paz que não se encontra neste mundo. Mas como pódem esses santos desejos elevar uma alma até Deus? Responde-nos S. Lourenço Justiniano: «Os santos desejos augmentam as forças e alliviam as fadigas do caminho da perfeição. Quem não tem mais desejo da perfeição, também nada fará para alcançal-a. Quem vê um monte muito alto, em cujo cimo se acham escondidos grandes thesouros, mas que não lhe movem a cubiça, certamente não dará um passo para attingir seu cume, e ficará inerte ao sopé do mesmo. Assim também aquelle que nem siquer acalenta o desejo de possuir o thesouro da perfeição, por lhe parecer muito custosa a sua acquisição, viverá sempre indolente na sua tibieza e nunca dará um passo adiante nas vias do Senhor. Quem não se esforça seriamente para progredir nos caminhos de Deus, voltará atraz e se exporá a um grande perigo de condemnação eterna, como attestam todos os mestres da vida espiritual e a experiencia o confirma. Segundo Salomão (Prov. 4. 18), a via dos justos assemelha-se a uma luz resplandecente que vae crescendo cada vez mais até tornar-se dia claro; o caminho dos peccadores, pelo contrario, está coberto de trevas e os infelizes se mettem cegamente por elle, sem saber em que precipício se vão arrojar. Sío. Agostinho diz: «Não progredir na vida espiritual é voltar para traz». Quem não se adiantar na vida espiritual, será impeli ido para traz, como seria arrastado para traz um barqueiro que, deixando de remar, teimasse em ficar immovel no meio da correnteza, como nota S. Gregorio. Em consequência do peccado de Adão o homem, desde seu nascimento, é inclinado ao mal. «Os sentidos e as cogitações do coração humano são inclinados ao mal desde a sua adolescência» (Gen. 8. 21). Quem não se estimula a si mesmo, quem não se esforça para se tornar melhor e mais perfeito, será arrastado pela vehemancia da concupiscencia. «Alma christã, não desejas progredir? Não. — Queres voltar para traz? De nenhum modo. — Que queres, então? Viver e permanecer no estado em que me acho; não tornar-me peior, nem melhor. — Pois queres ó impossível. No caminho de Deus irás para diante, aiigmentando tuas virtudes, ou voltarás para traz, entregando-te aos vicios», assim se exprime S. Bernardo (Epist. 3-11).
No caminho do céu, portanto, nunca nos devemos deter, mas mesmo correr sem descanso no exercício das virtudes, até chegarmos ao termo, que é o prêmio da vida eterna. E’ o conselho de S. Paulo: «Correi para que o alcanceis» (1 Cor. 9. 24), Podemos estar certos que a culpa é toda nossa si não chegarmos ao termo, pois Deus, de sua parte, quer que todos nós sejamos santos e perfeitos. «Esta é a vontade de Deus, vossa santificação» (I Thes. 4. 3). Mais ainda, elle impõe-nos o preceito de nos santificarmos: «Sêdc perfeitos como vosso Pae celeste é perfeito» (Matth. 5. 48). «Sede santos porque eu sou santo» (Lev. 11. 44). Deus promette e concede a todos nós seu auxilio e não manda o .impossível; mandando, «excita-te a fazer o que pódes e a pedir o que não pódes e auxilia-te, em seguida, para que o possas», diz o concilio de Trento (Ses. 6. c. 11). Impondo-nos seus mandamentos, Nosso Senhor exhorta-nos a praticar o que podemos executar com o auxilio da graça commum, e a pedir a sua assistência quando fôr preciso uma graça especial, que não nos será negada para a execução da obra exigida.
«Minha filha, escreveu uma vez o P. Torres a uma de suas penitentes, abramos as asas dos santos desejos para elevarmo-nos acima da terra e voarmos papa nosso esposo, que nos espera na bemaventurada patria da eternidade».
Sto. Agostinho diz que toda a vida de um christão piedoso é um continuo desejo da perfeição. Quem, pois, não alimenta em seu coração o desejo de se tornar santo, poderá ser um christão, mas certamente não será um christão perfeito. Assim como ninguém conseguiu jámais a perfeição em uma sciencia ou arte, sem tel-a antes desejado ardéntemente, da mesma fórma nunca conseguirá alguém chegar á santidade sem antes ter tido um grande desejo delia. Sta. Teresa (Cant. per}. 35) diz que regularmente Deus concede suas graças extraordinárias só áquelles que têm um grande desejo de seu santo amor. «Feliz do homem que é auxiliado por vós; neste valle de lagrimas dispôz as elevações de seu coração no logar que Deus destinou para si e se adiantará de virtude em virtude» (Ps. 83. 6). Feliz do christão que resolveu em seu coração subir de degráu em degráu até ao apice da perfeição; receberá de Deus auxilio superabundante para progredir de virtude em virtude.Assim fizeram os santos. Sto. André Avellino obrigou-se por um voto a progredir no caminho da perfeição. Deus não deixará de recompensar, já nesta vida, um bom desejo, dizia Sta. Teresa.
Alguns santos attingiram um alto gráu de perfeição por meio de piedosos desejos. S. Luiz de Gonzaga é um exemplo disso. Em poucos annos, pois falleceu com apenas 23, conseguiu alcançar um altíssimo gráu de perfeição. Contemplando-o em uma visão, pareceu a Sta. Maria Magdalená de Pazzi que nenhum outro santo possuia no ccu uma gloria semelhante á delle. Foi-lhe então revelado que essa recompensa lhe fôra concedida em razão de haver soffrido o martyrio de amor, sentindo sua incapacidade de satisfazer seu ardentíssimo desejo de amar a Deus como elle merece, por ser elle digno de um infinito amor.
Sta. Teresa nos dá muitos e bellos ensinos a esse respeito. «Sejam magnânimos os nossos desejos, pois delles depende a nossa salvação. Não devemos moderar nossos desejos, antes devemos esperar de Deus que por esforços contínuos conseguiremos chegar aonde chegaram os santos com o auxilio de sua graça. A divina Majestade ama as almas generosas, comtanto que desconfiem de si» (Vida, c. 13). A mesma santa attestava ter feito a experiencia de que as almas magnanimas faziam em poucos dias mais progressos que as almas tí midas em muitos annos.
Para se revestir da coragem necessária é muito util a leitura das vidas dos santos, especialmente daquelles que de grandes peccadores se fizeram grandes santos, por exemplo, Sta. Maria Magdalena, Sta. Pelagia, Sta. Maria Egypciaca, Sto. Agostinho, Sta. Margarida de Cortona. Esta viveu muitos annos na inimizade de Deus, nufrindo sempre o desejo de santificar-se, apesar de sua má vida. Converteu-se e fez tantos progressos no caminho da perfeição, que o Senhor chegou a revelar-lhe não só que estava predestinada á bemaventurança eterna como também que recebería um throno entre os seraphins.
O demonio se empenha em nos fazer crer ser orgulho ter desejos magnânimos e a vontade dc imitar os santos, diz Sta. Teresa. Longe, porém, de ser orgulho, é- uma coisa muito louvável querer uma alma, que desconfia de si e põe em Deus toda á sua confiança, conseguir a perfeição exclamando com o Apostolo: «Tudo posso naquelle que me conforta» (P/iil. 4. 13). Por mim mesmo nada posso, mas com a assistência de Deus eu posso tudo, por isso resolvo-me a amal-o como os santos o amaram, com a assistência de sua graça.
E’, pois, coisa de summa importância dirigir nossos desejos a coisas bem elevadas, por exemplo, amar a Deus mais do que os santos, padecer por seu amor mais que todos os martyres, soffrer e perdoar pacientemente todas as offensas, tomar sobre si todos os trabalhos e penas para salvar uma unica alma e semelhantes. Apesar de se referirem esses desejos a coisas que se não realizarão, não deixam por isso de serem meritórios perante Deus. Como elle detesta os máus desejos, assim compraz-se nos bons. Além disso, por meio desses desejos, que visam coisas grandes e difficeis, animam-nos a praticar coisas mais fáceis.
Ganha-se, portanto, muito fazendo-se cada manhã a bôa intenção de se trabalhar o mais que puder por Deus, de se supportar todas as adversidades, de se conservar continuamente recolhido, de se repetir muitas vezes santos affectos, etc. E’o que fazia S. Francisco de Assis, segundo o testemunho de S. Boaventura. Sta. Teresa diz que os bons desejos agradam tanto ao Senhor que elle os considera como realizados.
Muito mais facil é tratar com Deus que com o mundo. Para se adquirir os bens deste mundo, riquezas, posições honrosas, louvores humanos, etc., não basta desejal-os, pelo contrario, o desejo delles só augmenta o soffrimento de não poder possuil-os. Com Deus dá-se o contrario: basta desejar sua graça e seu amor para que os obtenhamos immediatamente.
Dois cortezãos do imperador Theodosio achavam-se uma vez numa caçada e entraram por acaso numa ermitagem. Encontrando ahi a vida de Sto. Antão abbade, um delles começou a lel-a e, ao passo que lia, ia desapparecendo de seu coração o amor do mundo. Voltando-se então para seu companheiro, disse-lhe: Loucos que somos! que pretendemos, servindo o imperador com tanto trabalho, temor e inquietação? poderemos esperar favor maior que tornarmo-nos seus amigos? E si conseguirmos tão grande honra só exporemos a nossa salvação eterna a um maior perigo. E quanto nos custará conseguir a amizade do imperador! Si, porém, desejamos ser‘amigos de Deus, podemos sel-o immediatamente. E abandonando tudo, deram-se á vida espiritual. Realmente, para se alcançar a amizade de Deus, basta um verdadeiro e serio desejo de adquiril-a.
Esse desejo, comtudo, deve ser verdadeiro e serio, pois os desejos inefficazes das almas tí bias, que só têm velleidades e nunca dão um passo adiante no caminho da perfeição, pouco ou nada adiantam. Desses desejos fala Salomão (Prov. 13. 4. 21. 25), qaundo diz: «O preguiçoso quer e não quer». «Os desejos matam o preguiçoso». A alma tibia deseja a perfeição, mas não se resolve a empregar os meios necessários: de um lado deseja-a, considerando seu valor, doutro lado não a quer, reflectindo nas difficuldades que acompanham a sua acquisição; assim, ella quer e não quer. Deseja, pois, a santidade, mas não efficazmente;deseja tornar-se santa, mas por meios que não convêm a seu estado; diz, por exemplo: Si eu estivesse numa solidão, rezaria sempre e faria ininterruptamente penitencia; si vivesse num convento, encerrar-me-ia numa cella e só pensaria em Deus; si tivesse bôa saúde, faria muitas mortificações, etc. Eu faria… eu faria… entretanto, essa alma infeliz negligencia os deveres de seu estado: óra pouco, deixa de commungar, supporta com pouca paciência e resignação suas indisposições, numa palavra, ella cáe todos os dias em muitas faltas voluntárias e não procura seriamente corrigir-se dellas. Que adiantarão a uma tal alma os desejos de bôas obras incompatíveis com seu estado, quando deixa de cumprir com os deveres reaes? Seus improficuos desejos arrastal-a-ão á ruina, pois detendo-se inutilmente nos mesmos, deixa de usar os meios efficazes para alcançar a perfeição e sua salvação eterna. «Os desejos matam o peccador».
Mui acertadamente diz a esse respeito S. Francisco de Sales: «Não posso approvar que uma pessoa sujeita a uma vocação ou dever, se detenha a desejar um outro estado de vida diverso daquelle que lhe é proprio, ou exercícios incompatíveis com seu estado presente de vida, pois isso distráe a attenção e enfraquece a vontade para os exercícios communs». Por isso uma alma que deseja a santidade deve visar só áquella perfeição que corresponde a seu estado e obrigações effectivas e estar resolvida a lançar mão só dos meios apropriados para alcance da mesma.
Ouçamos ainda a recommendação de Sta. Teresa: O demonio nos faz crer que possuímos uma virtude, por exemplo, a paciência, por nos havermos resolvido a padecer muito por Deus e parecenos então que de facto poderiamos supportar toda a cspecie de adversidades. Com isso ficamos muito alegres, ainda mais que o demonio se esforça em confirmar-nos em nossa presumpção. Aconselho-vos comtudo que não façaes muito caso dessa virtude. Ficae certos que só a conheceis de nome emquanto não tiverdes permanecido firmes na provação, poisé para temer que uma unica palavra de reprovação dê cabo de toda a vossa paciência».
II – Alguns conselhos a respeito da tendência á perfeição
Para se trilhar o caminho da perfeição c antes de tudo necessário viver em santo recolhimento. Ora, isso será irrealizavel si não se renunciar ás sociedades e conversações mundanas. Basta uma ninharia para uma vida piedosa desgostar um homem que trata muito com o mundo. Um dia de distracções, uma palavra de algum amigo, uma paixão mal reprimida, um apego qualquer, é o sufficiente para destruir a resolução tomada de se dar todo a Deus. Ror isso devemos nos conservar em continuo recolhimento de espirito; quem não se der a esse trabalho, póde ficar persuadido que seu zelo se arrefecerá. Oh quantos já perderam o primeiro zelo e interesse pelo adiantamento espiritual por falta desse cuidado.
Em segundo logar, deves te precaver contra o apego desordenado a teus parentes e pessoas estranhas. Os maiores inimigos de uma vida piedosa são muitas vezes nossos proprios parentes. Jesus diz, porém, que todo aquelle que amar a seus parentes mais que a elle, não é digno delle (Malth. 10. 37). Quantos não se entregariam a uma vida perfeita, si não pensassem estultamente em descontentar com isso a pessoas de sua convivência.
Alma christã! Si teus paes te amam affectuosamente ha alguns annos, Deus já muito antes amava-te incomparavelmente mais. Ha quantos annos te amam os teus paes? Talvez ha 20 ou 30, emquanto Deus te ama desde toda a eternidade. Teus paes fizeram despesas e se afadigarani por amor de ti, mas Jesus Christo deu por ti sua vida e todo o seu sangue.
Si, pois, a gratidão parecer obrigar-te a não descontentar teus paes, quando quizerem impedirte, sem causa razoavel, o exercido da piedade, pondera então que tua obrigação de gratidão para com Deus é muito maior e que teus paes devem saber que um filho será tanto mais dedicado, obediente e amoroso, quanto maiores forem seus progressos na virtude.
Em terceiro logar, deves renovar muitas vezes o proposito de progredir no amor de Deus, sendo para isso muito recommendavel a pratica de se representar cada dia de nossa vida como si fosse o primeiro em que .começamos a tendeF á perfei ção. Assim procedia o Propheta, que sempre repetia: «Eu disse: Agora começo» (Ps. 16. 11). Foi essa também a ultima recommendação que Sto. Antão fez a seus monges: «Meus filhos, representae-vos cada dia como si fosse o primeiro em que começastes a servir a Deus».
Em quarto logar, deves examinar sempre as tuas faltas, seriamente, mas sem lisonjear tua consciência, como diz Sto. Agostinho: «Meus irmãos, perscrutae o vosso interior com rigor inflexível». E noutra parte: «Deves sempre sentir desgosto em seres o que és, si desejas ser o que não és, pois ficarás parado onde te comprazeres: si te contentares com o gráu em que te achas, ahi permanecerás, já que estando satisfeito comtigo mesmo, perderás o desejo de seguir por diante». Em seguida o Santo diz uma palavra digna de consideração e que deve aterrorizar todas as almas que estão contentes comsigo mesmas: «Não querer adiantar é retroceder» (Ep. 25. 4).
Por isso devemos sempre pensar nas virtudes que nos faltam e não no insignificante bem que já praticamos, como nos aconselha S. João Chrysostomo. Pensar no bem já praticado só serve para nos tornar tibios na vida espiritual, enchernos de vaidade e arrastar-nos ao perigo de perder o que ganhamos. «Quem corre para alcançar a perfeição, não considera quanto já ganhou no caminho, mas quanto ainda lhe resta para. vencer»(In Phil. hotn. 22).
Almas zelosas redobram seus esforços quanto mais perto se sentem do fim, imitando os escavadores de thesouros: os que desejam desenterrar um thesouro, diz S. Gregorio, tanto mais acceleram seu trabalho quanto mais perto se acham do fim, para mais depressa se apossarem do çubiçado thesouro. Do mesmo modo procedem aquelles que tendem á perfeição, para alcançarem-na tanto mais depressa quanto mais proximos estão dela.
Em quinto logar, não te deves desanimar ao vêr que ainda não adquiriste o gráu de perfeição que desejas. Isso seria uma forte tentação do demonio. «Nossa santificação não é obra de um dia», costumava dizer S. Philippe Nery.
Na vida dos antigos Padres conta-se de um monge que, cheio de zelo, entrou no mosteiro, tornando-se, porém, tempos depois, bem tibio. Desejando voltar a seu antigo zelo e achando-se muito triste por não saber como começar, aconselhou-se com um dos mais antigos monges, que o consolou e, para animal-o, contou-lhe a seguinte historia ou parabola: Um pae incumbiu seu filho de limpar um campo cheio de espinhos e hervas damninhas. Ao vêr o filho a immensidade do trabalho, perdeu a coragem, deitou-se e dormiu, sem nem siquer começar o serviço. Mais tarde desculpou-se junto ao pae, dizendo que o trabalho era excessivo para elle. Meu filho, não exijo de ti sinão que limpes o espaço que occupa o teu corpo. Com isto o filho começou resolutamente o serviço e dentro em pouco todo o campo estava limpo.
Quão apropriado não é este exemplo para nos excitar a proseguir no caminho da perfeição.Basta ter um desejo ardente de se adiantar e de se esforçar; pouco a pouco chegará o dia em que com o auxilio da graça divina se alcançará a desejada perfeição. S. Bernardo (Ep. 254) chega mesmo a dizer que a tendencia continua de uma alma á perfeição já é a mesma perfeição. Por essa razão deve*se cuidar em não deixar os exercícios costumados de piedade, como as orações, communhões e mortificações, menos ainda no tempo de aridez, porque o Senhor prova as almas e experimenta sua fidelidade, para vêr si apesar de todas as difficuldades e desgostos que sentem em suas trevas, ficam fieis á pratica das virtudes e exercícios espirituaes.
Em sexto logar, deves te resolver a abraçar todos os padecimentos que traz comsigo uma vida consagrada a Deus. Quem não os recebe com amor, não alcançará aquella paz que Deus concede aos que se vencem para agradal-o. «Ao que vencer darei o manná occulto» (Apoc. 2. 17). Elle a chama o manná occulto, porque a paz que concede a seus fieis servidores está occulta aos olhos dos mundanos, que, longe de invejar a vida dos devotos, a deploram e. consideram-na desgraçada. «Elles vêm a cruz, mas não percebem a uncção», diz S. Bernardo (ln ded. s. 1), isto é, presentem a mortificação, mas não saboream o contentamentoque Deus lhe ajuntou.
E’ verdade que a vida espiritual tem as suas difficuldades; mas, como nota Sta. Teresa, quando se abraça resolutamente os: soffrimeritos, já estão em parte superados e convertem-se mesmo em alegrias. Minha filha, disse uma vez o Senhor a Sta. Brigida, meus thesouros parecem circumdados de espinhos; mas os que não se deixam desanimar pelos ferimentos, acharão nelles só delicias. E essas alegrias que Deus faz experimentar ás almas suas muito amadas na santa communhão, no retiro, na oração, essas luzes, esse fervor, essa intima união com elle, essa paz de consciência, essa santa esperança da vida eterna, quem, a não ser o que o provou, poderá descrevel-a condignamente? Uma só gota das consolações divinas tem mais valor que todos os regosijos e consolações terrenas reunidas», diz Sta. Teresa. Nosso bom e generoso Senhor, já neste valle de lagrimas, faz aquelles que soffrem por seu amor experimentar um antegosto da gloria futura.
O Senhor exige que de bôa vontade sofframos dôres, desgostos e mesmo a morte e com isso parece-nos que elle só nos promette trabalhos e penas; na realidade, porém, as. coisas são outras, pois a vida espiritual traz, ao que se entrega inteiramente a Deus, aquella paz que supera todo o entendimento (Phil. 4. 7), todas as satisfações e felicidades mundanas. Já David dizia: «Finges difficuldades nos preceitos» (Ps. 93. 20). Assim um religioso em sua cella vive muito mais satisfeito e contente que os maiores monarchas nos seus palá cios. «Gostae e vêde quão suave é o Senhor» (Ps.33. 9). Quem não o experimentou pessoalmentenão o poderá comprehender.
Quem se dá á piedade deve estar preparado para toda a especie de provações da parte do demonio, do mundo e da carne; por isso é precisot que conheça as armas necessárias de combate. Duas principalmente são dignas de nota. A pri-, meira é a oração. «Chegae-vos a elle e sereis illuminados» (Ps. 33. 6). Quem recorrer a Deus vencerá infallivelmente; quem deixar de o fazer, necessariamente succumbirá.
Notemos, porém, que para alcançar a victoria não chega pedir uma só vez ou só por alguns dias a divina assistência; o Senhor permitiirá talvez que a tentação perdure por semanas, mezes e até annos inteiros depois da oração; podemos, comtudo, ficar certos que quem continuar a se recommendar a Deus será finalmente esclarecido e coroado com a victoria; chegando então a gozar de maior paz e maior firmeza. Não te presumas seguro emquanto não tiveres superado uma tal tempestade, que se apresenta a quasi todos. Nota que durante tão intensa escuridão é inútil procurar avivar sensivelmente o zelo ou receber esclarecimentos da razão humana, já que então nada se enxerga, é tudo confusão. Contenta-te com a esperança na promessa «Pedi e recebereis» (Joa. 16. 21) e repete sempre: Senhor, ajudae-me; Senhor, ajudae-me. O’ Mãe de misericórdia, amparae-me. Está fóra de duvida que quem, com a graça de Deus, sahir victorioso de tal combate, receberá ainda mais paz e firmeza no serviço de Deus do que tinha antes.
A segunda arma importante e necessária em taes provações é revelar a tentação ao confessor e isso logo no principio, antes de tornar-se forte. S. Philippe Nery costumava dizer: Uma tentação revelada já está meio vencida. Nada, porém, é tão pernicioso em taes circumstancias como occultar a tentação. Quem não quer revelar a tentação, fica privado da luz de Deus em razão da sua infidelidade e por não ser logo repellida torna-se ella cada vez mais forte e perigosa. Aquelle que fôr tentado a renunciar ao desejo de tender á perfeição e não revelar isso, retrocederá certamente no caminho da virtude.
Si me perguntares que caminho deves trilhar no proseguimento da perfeição, responder-te-ei: A perfeição possível aqui na terra consiste em amar a Deus Nosso Senhor com todas as forças, para se conseguir unir nossa vontade com a vontade divina em todas as circumstancias. Si desejas alcançar essa perfeição inestimável, deves observar o seguinte:
- Remover tudo o que póde impedir o santo amor, isto é, deves arrancar de ti todos os peccados, evitar as occasiões, reprimir tuas paixões, libertar-te do amor do mundo e combater as tentações.
- Deves te esforçar por adquirir as virtudes christãs, pelas quaes são aperfeiçoadas as diversas potências da alma e postas em estado de obedecerem cm tudo ao santo amor.
- Além dessas obrigações communs a todos os christãos talvez exija Deus de ti alguma coisa mais. Algumas almas são chamadas a tender a uma perfeição mais alta, á observância dos conselhos evangélicos. Si pertenceres a essa classe, deverás renunciar por amor de Deus a toda a disposição arbitraria de teus bens, a toda a satisfação dos desejos sensuaes e á lindependencia em tua conductaj ratificando esse sacrifício pelos votos de pobreza, castidade e obediência.
- Nessa tua aspiração não é só comtigo que pódes contar. Deus Nosso Senhor pôz á tua disposição innumeros e poderosos meios, com o auxilio dos quaes poderás levar a cabo o que não conseguirías com tuas próprias forças. Dessas graças e auxilios deves te utilizar segundo teu respectivo estado e vocação o exigirem e isso com diligencia e zelo.
Fonte: Escola de Pefeição Cristã – Santo Afonso Maria de Ligório – R. P. Saint-Omer – 1931

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