Preservação da Santa Casa de Nazaré até o século XIII

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No início do século XII (1114 d.C.), um abade russo chamado Daniel visitou a Igreja da Anunciação e viu ali o quarto da Santíssima Virgem. “Uma grande e bela igreja”, escreve ele, “fica no meio da cidade e tem três altares. Ao entrar nela percebe-se do lado esquerdo uma caverna que tem duas entradas. vê-se à direita a cela da Santíssima Virgem, onde habitou com o Menino Jesus, nosso Deus, e onde O amamentou. Ao entrar na caverna pela porta oeste, vê-se à esquerda o túmulo de S. José , onde o seu corpo foi depositado pelas mãos sagradas do próprio Jesus Cristo, mostram também neste lugar subterrâneo, perto da porta, o local onde a Santíssima Virgem se ocupava em tecer uma tecido de púrpura, no momento em que o Arcanjo Gabriel, enviado por Deus, apresentou-se diante dela. O local fica a três sagenes de onde o Arcanjo estava quando pronunciou as palavras: Alegra-te, tu que és cheio de graça, e predisse a ela o nascimento de Cristo. Um altar é erguido neste local para a celebração da Santa Missa. O local, hoje subterrâneo, era a casa de José, e foi lá que ocorreu esse acontecimento. É sobre este lugar subterrâneo que foi erguida a Igreja da Anunciação”.

Um bispo francês, Arculfo, visitou Nazaré no século VII; e as suas Memórias foram escritas por Adamnan, abade do mosteiro fundado por S. Colomba na ilha de Iona, onde terá permanecido após o naufrágio. Nestas Memórias, é feita alusão à Igreja da Anunciação como situada no mesmo “lugar onde foi construída a Casa onde o Arcanjo Gabriel falou com Maria Santíssima.”

A “Fonte de Maria” em Nazaré.
(De uma fotografia de Bonfils)

É assim que João Focas fala primeiro da Santa Casa como tendo sido “transformada em um belo templo” e depois descreve, como testemunha ocular, o que viu na cripta; como ele teve o privilégio de entrar “na antiga Casa de José, onde o Arcanjo anunciou a boa nova à Virgem”, e como ele foi conduzido à “pequena câmara da Sempre Virgem Mãe de Deus” e “ao quarto escuro habitado por Nosso Senhor Cristo após o retorno do Egito.” Da mesma forma, Daniel nos fala da grandeza da Igreja da Anunciação em Nazaré, e como visitou “o quarto da Santíssima Virgem, onde ela habitou com o Menino Jesus, nosso Deus, e O amamentou”.

O silêncio aqui quanto à existência da oficina de S. José explica-se pelo facto de a oficina ter sido separada da Casa. Na Nazaré as oficinas não fazem parte das habitações, mas situam-se na Rua dos Bazares. Após o casamento de S. José, a casa paterna de sua Esposa Imaculada passou a ser sua, sendo assim denominada por Focas e Daniel a Casa de José; mas não deixou de frequentar a sua oficina. Aqui, quando o Senhor era criança, S. José ganhava o pão que edificou o Corpo Daquele cuja Carne é a Vida do mundo. (João vi.) Aqui o trabalho foi verdadeiramente enobrecido e santificado pelo trabalho do Divino Carpinteiro e de Seu Pai Adotivo, descendente de quatorze reis.

Os restos da oficina estão no centro da cidade; de modo que é provavelmente a segunda casa mencionada pelo Venerável Beda, depois de Adamnan. Também Jerônimo – um escritor antigo que não devemos confundir com o grande santo com esse nome – fala de uma segunda igreja erguida no local onde nosso Senhor foi criado. Como o Divino Filho de Maria passou grande parte de sua infância na oficina, pode-se dizer, em certo sentido, que ele foi criado ali; mas a casa particular era o cenário de Sua vida doméstica e era Seu lar. A tradição atribui estas duas Casas à Sagrada Família de Nazaré, e a nenhuma outra.

Ao referir-se às cenas mais sagradas da Palestina, é comum falar delas como Lugares Santos. Assim, encontramos o confessor de São Luís, Geoffrey de Beaulieu, descrevendo assim a visita daquele santo monarca à Santa Casa: “O rei entrou no Lugar Santo da Encarnação”. Isto equivale ao que diz o historiador dos Reis de França, Peter Matthew, que chama ao Santo Lugar onde S. Luís entrou, “A mesma câmara em que a Virgem Maria, Nossa Senhora, foi saudada pelo Anjo”. Em ambos os relatos é assinalado que o peregrino real recebeu o Corpo do Senhor no mesmo local onde o Verbo Eterno tomou a Natureza Humana. Ora, o arfresco de S. Luís, pintado não na Gruta, mas no interior da Santa Casa que depois foi transferida para Loreto, mostra que o santo rei foi antes visitar a parte da Habitação construída em frente à Gruta do que o Caverna em si. Este arfresco, colocado pela piedade de S. Luís, e o altar em pedra galileana, constituem, na opinião do Cardeal Bartolini, uma prova irrefutável de que foi neste altar da Santa Casa que S. Luís recebeu a Sagrada Comunhão quando visitou Nazaré.

Igreja do Arcanjo Gabriel. Na nascente que abastece a fonte.

Alguns peregrinos e escritores sobre a Palestina, como se tivessem previsto que as eras futuras procurariam neles maior precisão de linguagem do que poderiam encontrar em outros analistas e viajantes, deram um testemunho tão claro quanto à existência da Santa Casa, ou a parte mais sagrada disso, que eles não deixaram nenhuma alça para derrubar este monumento de fama imortal. É sem hesitação que escrevem a palavra Casa. Tomás Celano, contemporâneo de S. Francisco de Assis, diz que aquele grande santo foi venerar aquela Casa. Foi uma Casa que Santa Helena encontrou, e sobre a qual ergueu a magnífica Igreja da Anunciação. Os antigos documentos relativos à visita da Santa imperatriz à Palestina foram guardados pela Igreja de Constantinopla, e o bibliotecário Nicéforo relata em sua História Eclesiástica que a mãe de Constantino “encontrou a Casa da saudação angélica, e ali ergueu um belíssimo templo.” Já vimos também que as palavras “Casa” e “Câmara” são igualmente empregadas pelo russo Daniel, pelo grego Focas e pelo francês Peter Matthew; de modo que a Santa Casa e a sua sagrada Câmara da Encarnação podem ser rastreadas por testemunho direto como existindo em Nazaré até meados do século XIII, que é o século da sua Translação.

FONTE: “LORETO THE NEW NAZARETH AN ITS CENTENARY JUBILEE” – POR WILLIAM GARRATT M. A. – 1895.

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